Religião

12/08/2019 | domtotal.com

Francisco visitará três nações africanas, cada uma lidando com tensões políticas diferentes

Visita à Moçambique, Madagascar e Maurício é a mais delicada politicamente deste pontificado.

Mulher carrega uma criança no dia 17 de março após o Ciclone Idai na Beira, Moçambique.
Mulher carrega uma criança no dia 17 de março após o Ciclone Idai na Beira, Moçambique. (CNS/Josh Estey, Care International via Reuters)

Por Joshua J. McElwee
NCR

O papa Francisco está se preparando para fazer sua segunda visita à África subsaariana no próximo mês, e parece que pode ser uma das mais delicadas politicamente entre suas 30 viagens anteriores ao exterior.

Durante a viagem de 4 a 10 de setembro, o papa visitará Moçambique, onde um acordo de paz com um movimento guerrilheiro militante parece tênue. Madagascar, outro dos países visitados pelo papa, está retornando ao governo constitucional após um golpe em 2009, e Maurício, o terceiro país, onde o presidente renunciou no ano passado sob uma nuvem de escândalos financeiros.

Observadores de fora e católicos nos três países esperam que o pontífice ajude a aliviar as tensões em cada lugar e, talvez, dê impulso aos movimentos de reconciliação e unidade política.

O padre jesuíta Agbonkhianmeghe Orobator, presidente da Conferência da África e Madagascar de sua ordem, chamou a situação em cada país de “bastante desafiadora”. 

“Minha esperança é que, quando Francisco pousar nesses países, sua presença seja uma fonte de encorajamento e inspiração para as pessoas em sua luta por uma vida melhor”, disse Orobator, um nigeriano que vive no Quênia. “O papa traz as graças tão necessárias da esperança, da renovação e da compaixão. Acredito que ele renovará os corações em um povo que enfrenta tantos desafios.”

O bispo António Ferreira Sandramo, auxiliar da capital moçambicana, disse que está contando com Francisco para encorajar seus compatriotas a “não ver quem é diferente de você - ou pensar em inimigos ou em pessoas que você tem que deixar de lado”, mas trilhar juntos o caminho de construir uma sociedade de bondade para todos neste país".

“Eu acho que todo o país assistirá isso”, disse Ferreira, que está ajudando a organizar o esforço nacional para a visita a Moçambique.

Como de costume, o itinerário de Francisco em cada um dos três países se concentra mais em questões espirituais do que políticas. Mas o pontífice encontrará os líderes de cada nação e oferecerá um evento público que será avaliado de perto.

Em Moçambique, o papa se dirigirá ao presidente Filipe Nyusi apenas cinco semanas antes dos eleitores irem às urnas, decidindo se vão reeleger Nyusi ou escolher um dos dois principais líderes da oposição.

Um dos que se opõem a Nyusi é Ossufo Momade, cujo partido da Resistência Nacional (Renamo) é um ex-grupo militar. Embora o governo tenha assinado um acordo de paz com o grupo em 1º de agosto, a União Europeia expressou preocupação no passado de que a eleição, se não for conduzida adequadamente, poderia minar os esforços por uma paz estável.

Em Madagascar, Francisco falará com o presidente Andry Rajoelina, que chegou ao poder pela primeira vez em 2009, depois que os protestos apoiados pelos militares expulsaram o líder eleito Marc Ravalomanana. Mais tarde, Rajoelina venceu a eleição de 2018 do seu país, com cerca de 55% dos votos.

E nas Ilhas Maurício, o papa se encontrará com o presidente interino Barlen Vyapoory, que assumiu depois que Ameenah Gurib-Fakim, a primeira mulher presidente do país, acusada de fraude bancário.

Ferreira disse que espera que Francisco encoraje os líderes políticos em Moçambique a trabalhar por um acordo de paz oficial. “Espero que o papa Francisco encoraje este processo, dê uma palavra de estímulo neste processo, para que não volte atrás, mas alcance a paz real”, disse o bispo. “Porque se não há paz, é muito difícil alcançar um nível de desenvolvimento e ajudar a tirar o país da pobreza.”

Um representante provincial da Congregação de Santo Egídio em Moçambique também expressou a esperança de que o papa possa encorajar a reconciliação entre as partes.

“Há elementos que devem ser colocados na mesa entre o governo de Moçambique e o partido da oposição... sobre as armas, sobre desmilitarização e o processo de desarmamento”, disse Nelson Moda, que também é professor do ensino médio nesse país. “Eu acho que o papa não vai deixar de falar desse ponto”, disse ele.

“As pessoas querem a paz e agora vamos às eleições gerais em outubro”, disse Moda. “E a maior parte do nosso conflito nos últimos anos são conflitos pós-eleitorais. Muito tem que ser feito em termos de reconciliação, e um acordo de paz tem que ser alcançado, para que… não haja conflito pós-eleitoral, que nos faria cair de novo na guerra”.

O padre jesuíta Fulgence Ratsimbazafy, provincial de sua ordem em Madagascar, disse que se ele pudesse fazer um pedido a Francisco sobre o que falar com os líderes políticos de seu país, seria para incentivá-los a trabalhar juntos.

Ratsimbazafy apontou para a palavra malgaxe "fihavanana", que, segundo ele, enfatiza a construção de uma cultura de unidade, solidariedade e trabalho em equipe.

“O papa, como o homem das boas novas, faz parte do tema de sua visita: paz e esperança”, disse o jesuíta. “Se ele fala sobre isso com o presidente, seria um passo muito importante”.

Um santuário mauriciano

A única outra viagem de Francisco à África Subsaariana ocorreu em novembro de 2015, quando visitou o Quênia, a Uganda e a República Centro-Africana. A visita ao último país foi particularmente precária, pois ocorreu em meio a uma transição política após uma luta horrenda entre milícias muçulmanas separatistas e grupos cristãos.

Em uma homilia contundente durante sua viagem ao país, que foi marcada pela presença de tanques blindados da ONU alinhando as rotas a seus eventos, o papa exortou aqueles que pegaram as armas para “entregarem esses instrumentos de morte!”

Francisco visitará Moçambique, que fica no nordeste da África do Sul, no extremo sul do continente africano, entre os dias 4 e 5 de setembro. Depois, o pontífice seguirá para Madagascar, a quarta maior ilha do mundo, a cerca de 1,2 mil quilômetros a leste no Oceano Índico, até o dia 10 de setembro.

Em 9 de setembro, o papa fará um voo de duas horas mais a leste para uma viagem de um dia às Ilhas Maurício, uma ilha menor do tamanho da cidade de Brasília, antes de voltar a Madagascar pela noite. Depois, partirá de volta para casa, em um voo direto para Roma na manhã de 10 de setembro.

A agenda do papa em cada um dos países segue um formato familiar: depois de dirigir-se a cada um dos líderes políticos dos países, organizará reuniões com padres, religiosos e bispos e participará de reuniões inter-religiosas.

Mas os itinerários em cada país também têm seus próprios momentos únicos. Em Moçambique, por exemplo, Francisco visitará uma clínica administrada pela Comunidade de Santo Egídio que atende principalmente pacientes de baixa renda com HIV/Aids. Nas Ilhas Maurício, o pontífice rezará em um santuário dedicado ao beato Jacques-Désiré Laval, um sacerdote e missionário francês da congregação do Espírito Santo, do século 19, que dedicou sua vida a cuidar dos escravos no que era então uma colônia britânica.

Francisco estará no Santuário de Laval no 155º aniversário da morte do padre em 9 de setembro de 1864, que é comemorado a cada ano com uma peregrinação pedestre pelos católicos do outro lado da ilha.

O padre Jean Claude Veder, diretor de um instituto de formação diocesano nas Ilhas Maurício, chamou o momento de "um grande presente de Deus". Embora a visita seja descrita como privada, Veder disse esperar que "muitas" pessoas que realizaram a peregrinação tradicional estejam fora do santuário, esperando para ver o papa.

Entre os que esperam estar lá está Lorenza Camangue, uma mulher de 21 anos de Bois d'Oiseaux, uma pequena aldeia do outro lado da ilha, atualmente, o santuário está na capital de Port Louis. Camangue disse que recentemente examinou as fotos da visita de João Paulo II ao santuário em outubro de 1989.

“Não será o mesmo, mas é como se eu fosse viver esse momento de verdade agora”, disse ela. “Não é só nas fotos. É ainda mais especial que ele esteja vindo naquele dia em particular”.

Moda, o representante de Santo Egídio, disse que a visita à clínica em Moçambique teria um significado tremendo, já que é a única ocasião durante o tempo de Francisco no país que ele encontrará diretamente os pobres.

Moda disse que a clínica, chamada de "Dream Centre", é a única unidade de saúde privada em Moçambique que presta atendimento gratuito e é o maior centro de atendimento operado pela congregação de Santo Egídio no país.

“Visitando o Dream Centre, o papa Francisco está visitando os pobres”, disse Moda, que é da cidade de Beira, a mais de 500 quilômetros ao norte da capital de Maputo. “Eu acho que tem um grande significado... mostrar o carisma do papa Francisco.”

“Visitar o nosso centro não só faz os membros da Comunidade de Santo Egídio, alegres, mas também dá uma oportunidade àquelas pessoas que nunca poderiam pensar em ver ou saudar pessoalmente o papa”, disse ele. "É também uma maneira de deixar o papa se aproximar de pessoas necessitadas, de pessoas com ferimentos ou sofrimento em suas vidas."

Algo que não está na agenda publicada por Francisco, mas parece provável que ocorra é uma visita aos jesuítas. O papa frequentemente passou tempo com membros de sua ordem religiosa durante suas viagens ao exterior. Nesses casos, o Vaticano geralmente apenas confirma os encontros depois.

Ratsimbazafy, o provincial jesuíta, disse que ainda não tem certeza se haveria uma reunião desse tipo. Ele brincou dizendo que havia pedido a seus 270 confrades no país para “ficarem prontos a qualquer momento”, caso o papa pedisse um encontro no último minuto.

Ratsimbazafy disse que gostaria de expressar sua gratidão a Francisco por ter aprovado em fevereiro as novas preferências apostólicas universais dos jesuítas, quatro valores abrangentes que devem guiar o trabalho da ordem global para a próxima década. “Somos muito gratos a ele”, disse o provincial.

Superando 'momentos sombrios'

Cada um dos três países que Francisco está visitando é religiosamente diversificado. Em Moçambique, a população está dividida principalmente entre cristãos e muçulmanos. De acordo com o último censo, realizado em 2007, a população de quase 30 milhões é de cerca de 56% de cristãos e cerca de 18% de muçulmanos. Entre os cristãos, cerca de metade são católicos.

Em Madagascar, o Centro de Pesquisas Pew estima que a população de cerca de 26 milhões está representada com cerca de 85% de cristãos, dentro deles as diferentes denominações protestantes e os católicos, e 17% de muçulmanos.

Moda disse que um desafio para a Igreja Católica em Moçambique é a perda de católicos para igrejas evangélicas e pentecostais. Ele expressou seu desejo que Francisco abordasse a questão quando falasse aos bispos do país em 5 de setembro.

“Isso tem que ser enfrentado com a realidade e com ação prática olhando para o que está faltando: onde estamos deixando de satisfazer a necessidade das pessoas na Igreja?” disse o líder da Congregação de Santo Egídio.

Ferreira, o bispo auxiliar, disse que é difícil ministrar em Moçambique devido à falta de vocações sacerdotais e que a Igreja ainda depende da ajuda de missionários europeus e sul-americanos. Ele também destacou a necessidade da igreja se inculturar melhor.

“A inculturação é um grande desafio”, disse ele. “Havia um estilo nos tempos antigos: a educação religiosa colonial também era educação na cultura europeia. Agora, o grande desafio é como tornar essa Igreja autêntica em sua maneira de rezar.”

“Seguir a Jesus como africanos”, disse o bispo. “Esse é o desafio.” Francisco também está chegando a Moçambique meses após o país sofrer um dos seus piores desastres naturais com o duplo ciclone Idai em março, que matou mais de 1.200 pessoas, ajudou a desencadear um surto de cólera devastador e causou cerca de 2 bilhões de dólares em danos.

Moda, que é nasceu em Beira, uma cidade costeira no centro de Moçambique onde o pior dano ocorreu, disse que as pessoas esperam que Francisco faça uma parada especial para vê-las. Mas ele disse que entendia porque o papa só vai para Maputo, a capital.

“Mesmo que o programa oficial não considere que o papa venha para Beira, eu posso ver o entusiasmo das pessoas... eles querem ir e ver o papa em Maputo”, disse Moda.

“Isso me faz entender que o papa tem essa dimensão que rompe nosso nacionalismo, nosso etnicismo”, aponta o religioso. “Visitar Maputo significa visitar Moçambique como país.” “As pessoas esperam ouvir palavras que ajudem a superar os momentos sombrios que estamos passando aqui em Moçambique”, disse ele.



Publicado originalmente por NCR.

*Joshua J. McElwee é correspondente do Vaticano no NCR. Seu endereço de e-mail é jmcelwee@ncronline.org. Siga-o no Twitter: @joshjmac.

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