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21/08/2019 | domtotal.com

Metamorfoses de Tom Waits

Todos eram ele e, mesmo assim, não sabia exatamente quem era ele próprio.

Era Tom Waits. Não o cantor e compositor, mas o personagem de cinema – Ironweed.
Era Tom Waits. Não o cantor e compositor, mas o personagem de cinema – Ironweed. (Soeren Stache/DPA/AFP)

Por Pablo Pires Fernandes*

A fauna de loucos, bêbados e notívagos de toda espécie surgiam de todas as regiões da cidade. Movidos por estranhas formas de hedonismo, culpa ou vício, afluíam como moscas em restos de Coca-Cola. Numa banqueta de plástico vermelho, deixei-me ficar e a noite se ia. Muitas moscas zumbiam naquela sopa.

O azul do céu mudava e deixava os insones mais tristes e melancólicos. Acendi um último cigarro. Fumava com uma vontade displicente quando ele se aproximou pedindo um trago. Tirei do maço o penúltimo e estendi ao homem envolto em sacos e com olhos vidrados como se tivesse acabado de vislumbrar um anjo bíblico ou um companheiro de rua a morrer de fome.

Trôpego e bebum, sacudiu os trapos num grato salamaleque, puxou o tamborete verde e, de pronto, pronunciou calmamente, sem alterar a voz: “Eu matei um homem”. Não me surpreendi, tampouco temi. Ali, era terra de ninguém e todos eram bem-vindos, éramos uns quaisqueres.

Sobrepondo à espontânea confissão do ato assassino, professou sua fé cristã, fez o sinal da cruz e se calou antes de pedir perdão. Olhei-o nos olhos, o que o fez perceber a contradição. Declarou que não teve escolha, um caso de vida ou morte: "tentaram me incendiar com gasolina". Depois de se livrar dos trajes em chamas, atirou uma pedra contra os jovens que riam de seu desespero. Acertou. Foi isso. Apenas isso. Acertou a pedra na cabeça de um deles, em cheio.

Acendi o último cigarro e fiquei observando o homem sentado, calado, no tamborete verde. Reconheci-o, finalmente. Era Tom Waits. Não o cantor e compositor, mas o personagem de cinema. No caso, era Ironweed. Instintivamente, ele me soltou uma frase do filme do Hector Babenco de 1987: “A única coisa que ganhei na minha vida foi quando o médico do hospital me disse que tenho um câncer e seis meses de vida. Ele me deu um terno completo, com colete e tudo. Fiquei bonito. Deveria ver como estava fino”.

Apaguei o antepenúltimo cigarro da noite e foi inevitável perguntar quem era ele? “Me perdi”, falou, acariciando um avestruz que passava pelo local. “Gosto de compor, me alivia”, ao que emendei: “Nós fugimos de nós mesmos”.

Tom Waits discorreu sobre muitos dos personagens que interpretou no cinema e em suas canções, garantindo que todos eram ele e, mesmo assim, não sabia exatamente quem era ele próprio. “Já passou por alguma crise existencial?”, soltou. Respondi que passei anos pensando em me matar, mas, atualmente, achava a vida boa e valia a pena ser sugada até o bagaço. Rimos e fumamos juntos o último cigarro do meu maço.

Pude perceber várias personas em seus olhos, a dúvida pairava. Quem era? Todos – o mendigo de Ironweed, o louco contaminado pela peste de Drácula, o desesperado sem rumo de Down by law, tantos e o mesmo. Eu me senti o Iggy Pop desentendendo tudo diante daquela pessoa, mas no boteco não havia café.

Levantei-me e comprei quatro picados com o Tim no balcão. Ofereci dois deles ao Tom, que, naquele momento, sorriu e me lançou um olhar enigmático. Ele aceitou a oferta e atravessou a rua, obrigando um carro a frear: Ouvi a voz rouca cantando: “Eu prefiro ser aquela metamorfose ambulante, do que ter aquela velha opinião formada sobre tudo”.
O Raul sabia das coisas. 

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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