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27/08/2019 | domtotal.com

Fé, comércio e maracutaia

'The righteous Gemstones': versão gospel dos 'Sopranos', são ídolos com pés de barro prestes a desmoronar a qualquer momento.

Um clã de pastores evangélicos telemidiáticos que pregam a Bíblia visando o próprio enriquecimento.
Um clã de pastores evangélicos telemidiáticos que pregam a Bíblia visando o próprio enriquecimento. (Crédito: divulgação HBO)

Por Alexis Parrot*

Na entrada da propriedade dos Gemstones, riquíssima e fortemente guardada por seguranças, em uma placa de madeira lê-se a seguinte inscrição: "Bem-aventurados os pobres de espírito porque deles é o reino dos céus – Proibida a entrada". A citação do Evangelho de Mateus, seguida do aviso improvável, faz rir e pensar. Esta é a senha para entrarmos no universo da nova série de humor da HBO, The righteous Gemstones.

John Goodman, Danny McBride e Adam Devine formam um clã de pastores evangélicos telemidiáticos  que pregam a Bíblia visando, antes de mais nada, o próprio enriquecimento. São enormes publicamente, porém, diminutos na intimidade. Seus cultos são como um opulento show de cassino em Las Vegas, mas a vida em família não poderia ser mais desarmônica e desajustada.

Goodman, no papel do severo patriarca, infantiliza os filhos e despreza a filha (Edi Patterson), relegada a papéis de menor destaque na organização somente pela condição feminina. É intolerante da maneira que não deveria ser um homem em sua posição e cobra da prole resultados como se formassem antes uma empresa comercial e não uma instituição religiosa.

Os filhos, por sua vez, competem pelo respeito do pai a todo momento, mas sem se furtar a tramar contra ele e sua igreja sempre que podem – se isso lhes render alguma vantagem monetária ou de poder.

Hipocritamente, trafegam pelo mundo em três jatos particulares (batizados de O Pai, O Filho e O Espírito Santo) como uma família de gangsters, endinheirada e cafona. Versão gospel dos Sopranos, são ídolos com pés de barro prestes a desmoronar a qualquer momento.   

Apesar de fictícios, guardam muita semelhança com gente como Marco Feliciano (o célebre vídeo em que o pastor deputado aceita cheques pré-datados e cobra a senha de um fiel que havia lhe entregado o cartão do banco é de tirar qualquer um do sério, tamanha a desfaçatez) ou R. R. Soares (que oferece boletos mensais visando arrecadar fundos para comprar um canal de TV para si mesmo), entre outros.

A série, criada por McBride, traz bem-vinda crítica a uma classe abjeta que não cessa de crescer, especialmente no Brasil. Dela fazem parte todos aqueles manipuladores que exploram a fé alheia, amealhando influência, votos e muito dinheiro, obviamente.

O novo espaço físico de onde a família Gemstone pretende gravar e transmitir seus cultos (na verdade, uma gigantesca arena de espetáculos) não fica nada a dever aos suntuosos templos erguidos país afora pela Igreja Universal do Reino de Deus, de Edir Macedo; tanto pela dimensão, quanto pela agenda e objetivos.

Quer seja na ficção ou na vida real, todos se valem da mídia para propagar sua doutrina, ampliar a legião de crentes e, consequentemente, multiplicar os rendimentos. O personagem de John Goodman ficaria orgulhoso se ficasse sabendo do sucesso que a cinebiografia do bispo Macedo vem fazendo.

Elevando as técnicas de divulgação midiática a outro patamar, a segunda parte de Nada a perder, recém-lançada, repete os números superlativos de público que o primeiro filme já havia alcançado. Seria mesmo uma vitória estrondosa, não fosse o fato de que, além de produzir o filme, o próprio Macedo compra os ingressos e os manda distribuir aos milhares para os crentes de sua igreja. Além de fabricar um recorde de bilheteria, ainda espalha a versão que deseja para sua biografia. É o crime perfeito; o sujeito ganha no couvert e na bandeirada. 

É impossível não se lembrar de Tim Tones, criação impagável de Chico Anysio, um pastor que, ao final dos cultos, ordenava a seus filhos: "podem correr a sacolinha". De lá para cá, a tal sacolinha nunca mais parou de correr. The righteous Gemstones abre essa sacola e desnuda o comércio da fé, com uma sátira inteligente e necessária.

Talvez, ridicularizar os vendilhões e seus modos de operação, seja um primeiro e importante passo para podermos expulsá-los em definitivo dos templos (e da nossa televisão).   

(THE RIGHTEOUS GEMSTONES – Domingos, às 23h na HBO)

Alexis Parrot é diretor de tv, roteirista e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o Dom Total.

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