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28/08/2019 | domtotal.com

Cheiro de culpa no ar

O isqueiro do avô era colorido, com um padrão modernista, quadriculado de cores avermelhadas.

As chamas foram altas e estalaram uma redenção impossível.
As chamas foram altas e estalaram uma redenção impossível. (Unsplash)

Por Pablo Pires Fernandes*

A culpa lhe atormentava, embora outros tormentos fizessem com que as pontadas doessem mais agudas no estômago. Tentou se levantar da cama e, mais uma vez, desfaleceu. Úmido de suor, o travesseiro tinha um cheiro acre como o quarto de Bebela, entrevada há anos no casarão de Sabará. Conteve a náusea e chorou.

Ouvia claramente os sons da sala de tortura. O ruído crescente da manivela que ele movia e os gritos de dor, interrompidos por estalidos ocos das pancadas e pelas ordens do capitão que cortavam o ar. Agora, a memória vívida aumentava as pontadas. Inevitável pensar naqueles corpos, exaustos e inertes no pau de arara e ele ali, atado à cama sem qualquer amarra.

Sem se mover, sentia cada parte de seu corpo – o contato quente com o tecido, o suor escorrendo na testa, cada movimento convulsivo e involuntário movido pela eletricidade do passado fazia sua mente girar. Agarrou a trave da cama, num gesto de desespero, mas não teve forças para soltar o grito de desespero. “Apenas obedeci ordens”, dizia para si mesmo, sem que as pontadas cessassem de enviar estímulos de um registro que buscava esquecer.

Novamente tentou se erguer, sem sucesso. Então, colocou toda sua concentração sobre o que lhe cercava. Era um quarto simples, a cama, a escrivaninha, uma pequena estante com duas dúzias de livros, o maço de cigarro sobre a mesa e o cinzeiro sujo. Objetos espalhados sem ordem alguma lhe traziam afetos longínquos, viagens, paixões, a lembrança do abraço de Ana Maria no palito de algodão-doce que relutava em jogar fora. Deteve o olhar no isqueiro de seu avô. O objeto sobre a mesa lhe trazia o cheiro da infância, de querosene e das fogueiras no quintal da casa do interior.

Tomado por um delírio febril, demorou a notar que alguém batia na porta do quarto. “Vão me levar”, pensou, enquanto seus braços e pernas se repuxavam em choques. Via manchas torturadas e, quando abriu a porta, não havia ninguém. Sem equilíbrio, caiu na cadeira, que titubeou e, equilibrista, retornou à posição de praxe.

Ele se debruçou sobre a mesa, a cabeça pesava sobre os braços e o quarto rodava. O som da manivela era ensurdecedor. Os gritos emudeceram, mas as expressões de dor, as manchas de sangue e desespero pairavam circulando diante dele e as alfinetadas insistiam em espetar seu ventre.

O isqueiro do avô era colorido, com um padrão modernista, quadriculado de cores avermelhadas. Trêmulo, ele tomou o objeto e a memória da infância era ambígua. Não tinha fluido, mas escutou a máquina que rodava, aquele som insistente que crescia. Ouviu gritos desesperados e determinou, para si próprio, um sacrifício.

Bateu a porta com força ao voltar ao quarto. Sorria e se sentia feliz como poucas vezes na vida. Sentou-se na velha cadeira e, por um longo tempo, dedicou-se a ouvir os estalidos do isqueiro colorido do avô. Não escutava mais os sons da manivela, nem os gritos e via somente a faísca insistindo. Teve dúvida até que sentiu de novo a pontada no estômago.

As chamas foram altas e estalaram uma redenção impossível. As árvores se apiedaram. Vizinhos disseram não ter escutado um pio, apenas notaram o fogo quando era tarde demais. Não havia confissão, mas, naquela tarde, somente cheiro de queimado e culpa no ar.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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