Religião

03/09/2019 | domtotal.com

Ungido por quem e para quê?

A missão de um homem ou mulher públicos não se confunde jamais com uma pretensa missão religiosa no sentido específico do termo.

Presidente da República, Jair Bolsonaro é recebido pelo Pastor Edir Macedo durante visita ao Templo de Salomão.
Presidente da República, Jair Bolsonaro é recebido pelo Pastor Edir Macedo durante visita ao Templo de Salomão. (Alan Santos/PR)

Por Tânia da Silva Mayer*

A Bíblia nos apresenta uma prática utilizada em determinados contextos da história do povo de Israel e que, certamente, era realizada pelos povos antigos do Oriente. Trata-se da unção com óleo realizada sobre pessoas ou objetos, com o sentido de torná-las separadas das demais, isto é, torná-las sagradas. O Antigo Testamento nos fala da unção de sacerdotes, de reis e de profetas. Por meio do rito, essas pessoas se tornavam aptas a realizarem uma missão cuja origem é divina. No Novo Testamento, por sua vez, a temática não está vinculada a uma esfera ritual, mas aparece relacionada a Jesus e sua missão e, também, segundo a Carta de Tiago, voltada para aqueles que estão enfermos.

O fato é que a unção realiza uma aproximação dos que são ungidos a Deus. Pela unção, torna-se um portador do Espírito de Deus para levar a termo uma missão também divina. Tanto o profeta de Isaías (60,1ss) quanto o próprio Jesus (em Lc 4,18ss) sabem-se ungidos por Deus, possuidores do Espírito divino, para levar a termo a missão de anunciar uma boa notícia aos pobres e que também signifique a libertação dos cativos, a liberdade aos oprimidos, a visão aos cegos e a proclamação do ano da graça do Senhor. Isso significa que o ungido de Deus anuncia a proximidade do Reino, tornando-o presente na vida de todas as pessoas e isso significa abundância de vida e o restabelecimento da dignidade perdida. Note-se que se trata de uma missão na qual o ser humano e seu mundo estão irremediavelmente no centro da atuação do ungido, que deve se dar sempre em proveito da vida.

Desde que foi eleito presidente da República, Jair Bolsonaro tem insistido na tese de que é um ungido de "deus". Sob a oração de pastores evangélicos de igrejas pentecostais e os aplausos dos fiéis destas igrejas, alimenta-se a imagem de que a eleição presidencial contou com a ação de "deus", que elegeu seu representante para a missão de governar o Brasil, bem como de extirpar os divergentes políticos. Em junho deste ano, Bolsonaro declarou: "Eu tenho uma missão de Deus, vejo dessa maneira. Foi um milagre estar vivo e outro milagre ter ganho as eleições. Deus também tem me ajudado muito na escolha dos meus ministros". No último domingo, durante um culto no Templo de Salomão, da Igreja Universal do Reino de Deus, Bolsonaro foi ungido com óleo pelo bispo Edir Macedo sobre o altar. Notadamente apoiador do presidente, ele o ungiu: "Uso de toda a autoridade que me foi concedida por Deus para abençoar este homem, para lhe dar sabedoria, para que este país seja transformado, que faça um novo Brasil". E depois atacou a imprensa acusando-a de ser contrária ao governo.

O atual presidente sintetiza o que há de pior no aparelhamento da ideologia religiosa ao Estado laico. A missão de um homem ou mulher públicos não se confunde jamais com uma pretensa missão religiosa no sentido específico do termo. Quando isso acontece, abre-se espaço para autoritarismos e fundamentalismos que desconhecem a pluralidade e a diversidade de um povo, bem como os direitos e deveres de todos os cidadãos que são regidos por uma Constituição federal. À luz dos ensinamentos bíblicos, tanto do antigo quanto do novo Testamentos, não se pode dizer – sob risco de heresia para a fé – que o cargo de presidente do Bolsonaro é missão divina que ele irá desempenhar sob a influência do Espírito divino. Ele tanto não o é, porque foi confiado da parte do povo, por meio de eleições diretas, para benefício do povo. Não é Deus quem elegeu Bolsonaro e o ungiu, foi a maioria dos votos válidos que o fizeram presidente. E isso não pode jamais ser distraído em levianas e irresponsáveis afirmações.

Também, Bolsonaro jamais poderia ser considerado um ungido do Deus de Jesus porque o governo que tem feito prima pelo desrespeito aos seus contrários e às minorias brasileiras, e, sobretudo, porque se revela um governo necrófilo, amigo da morte, cujas atuações não priorizam a pessoa humana e seu mundo, mas o deus Mercado e o deus Dinheiro, que passam por cima da vida humana sem reconhecer-lhe a mínima dignidade. Nem de longe trata-se de um governo empenhado em dar garantias de uma vida digna para os pobres e sofredores de nossa terra e para o ambiente que nos integra. Oxalá possa o povo brasileiro refletir sua escolha, à luz de uma profunda crítica do modo desrespeitoso e violento com o qual o Estado tem agido, de modo que uma resposta responsável possa ser dada a essa pergunta: ungido por quem e para quê?

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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