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03/09/2019 | domtotal.com

Europa e o fascismo

Agora temos na Europa partidos da extrema-direita em quase todos os países.

Mãos de vidro, escultura de Felicitas Engels, no jardim do museu A Casa do Governador, para lembrar os 126 motos na explosão da prefeitura de Heusden.
Mãos de vidro, escultura de Felicitas Engels, no jardim do museu A Casa do Governador, para lembrar os 126 motos na explosão da prefeitura de Heusden. (Lev Chaim)

Por Lev Chaim*

No último sábado, ao guiar um grupo de turistas no museu “A Casa do Governador” (Het Gouverneurshuis) de Heusden, onde faço trabalho voluntário, fiquei a pensar na história da Segunda Guerra Mundial, diante de um canteiro de rosas variadas, com esculturas de mãos de vidro, pedindo socorro, esculturas essas feitas pela escultora da cidade, Felicitas Engels, para lembrar a morte de 126 pessoas nos subterrâneos da prefeitura, quando ela foi explodida pelos nazistas.

O tempo passa e as pessoas parecem se esquecer destes períodos negros da história. Como se nada tivesse acontecido, na Itália, terra do fascista Mussolini, tivemos o primeiro gabinete populista da Europa Ocidental. Mas, ainda bem que ele durou apenas 14 meses. A Itália está agora formando um novo governo já sem os populistas da Lega Nord (Liga Norte), do então ministro do interior, Matteo Salvini, político da extrema-direita. A queda do gabinete foi ocasionada pelo próprio Salvini que tentou assim fazer a sua jogada para conseguir o poder, caso novas eleições fossem realizadas. Calculou mal e perdeu.  

Em sua coluna de fim de semana no jornal holandês NRC Handelsblad, o consagrado escritor holandês, Tommy Wieringa, fez uma monumental descrição desta tentativa da volta da história escura da humanidade. Ele escreveu: “O primeiro-ministro italiano, Conte, denominou o comportamento de Salvini de irresponsável, imprudente, angustiado, autoritário, oportunista, que age com desrespeito pelo direito constitucional, em busca de seus próprios interesses e do seu partido, às custas dos interesses nacionais”. E mais adiante ele relembrou que essas palavras do premiê italiano caíram como uma luva em cima do político holandês, jovem e oportunista, líder do partido Forum voor Democratie (FdV) da extrema-direita holandesa, Thierry Baudet.

Ao mirar esculturas das mãos pedindo socorro, tudo isto voltou à minha cabeça. Agora temos na Europa partidos da extrema-direita em quase todos os países. O motor desses nacionalistas extremados é a xenofobia, em particular o migrante muçulmano. Em sua crônica, o autor holandês em sua crônica lembrou ainda que a xenofobia foi o motor principal que levou adiante o Brexit (separação da Grã-Bretanha da União Europeia –UE) e, também, que a realização do referendo do Brexit só fez aumentar o racismo na Grã-Bretanha. Até mesmo os estudantes que fazem intercâmbio de universidades, já notam essa atmosfera  nacionalista no país. Os jogadores de futebol também já perceberam o fato e o racismo, quando sofrem vaias nos estádios. Incidentes racistas no futebol inglês aumentaram em 43% em comparação com o ano passado. E este comportamento abominável é estimulado, segundo Wieringa, pelos políticos oportunistas da extrema-direita, tais quais o inglês Nigel Farage, o italiano Salvini e o holandês Baudet, que acabam funcionando como transistores de estímulo ao público para aderir ao populismo.

Wieringa vai adiante e relembra que esses populistas sempre se espelham em algum exemplo atual, repetindo desta forma a história macabra do fascismo. Ele citou que o governo russo é um bom exemplo para os fascistas europeus: autocrata, extrema-direita, antiliberal e agressivo. Lembrou ainda que esse político holandês, Thierry Baudet, flerta com um conselheiro de Putin da extrema-direita, Aleksandr Doegin, que denominou a anexação da península ucraniana do Krim pelo exército de Putin, como uma simples mudança de fronteiras. Ora essa, invadem a terra dos outros e ainda chamam isto de uma simples mudança de fronteiras?

As mãos das vítimas expostas no canteiro do jardim do museu de Heusden, representando as vítimas dos porões da prefeitura, que foram explodidos pelos nazistas quando partiram da cidade, me lembraram de tudo isso e fizeram com que eu admirasse ainda mais o escritor holandês, Tommy Wieringa, e a sua coluna do jornal NRC, de sábado, dia 24 de agosto. Sua conclusão final foi de uma lucidez atroz: “todos esses extremistas, principalmente os da direita, que ferem os direitos constitucionais de seus países, apoiados por políticos sem caráter e por Moscou, acabam fazendo uma política em prol do enfraquecimento dos valores democráticos da Europa.” Caros leitores, palavras fortes, mas verdadeiras, não acham?  

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras, para o Domtotal.

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