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04/09/2019 | domtotal.com

E me calo com a boca de feijão

Na data marcada, no pátio do quartel, encontrou mães e pais na mesma aflição.

Na data marcada, no pátio do quartel, encontrou mães e pais na mesma aflição.
Na data marcada, no pátio do quartel, encontrou mães e pais na mesma aflição. ((Acervo Simón Eugénio Sáenz Arévalo))

O som insistente da campainha fez Dora deixar a louça ensaboada na pia e correr às pressas até a porta. A vizinha trazia notícias de João Pedro, seu filho desaparecido havia quatro dias. Estava preso no quartel do 12º Regimento de Infantaria do Exército, no Barro Preto. Era acusado de subversão e crime contra a segurança nacional.

Desde quando recebeu a notícia, todas as manhãs, Dora saía de casa às 8h e andava 3,5 quilômetros do Padre Eustáquio ao Barro Preto. Passou, então, todo o mês de agosto caminhando em direção a seu único filho. Na porta do quartel, os soldados devam as mesmas respostas – “Ele está bem, mas está sendo interrogado e sob investigação”, dizia o jovem amável de uniforme, que saía detrás dos cavaletes para atendê-la no portão. Ao longo de mais de 40 dias, nunca pôde ver João Pedro, mas acreditava que o filho recebia os quitutes que entregava ao soldado sorridente.

Ao voltar para casa, com o peito cheio da angústia que só as mães são capazes de sentir, Dora se sentou na mesa da cozinha e agradeceu por seu marido não estar vivo e passar pelo sofrimento de ver o filho preso. João Pedro era um menino bom e, apesar de algumas discussões com o pai, nunca faltou com o respeito e seguiu o caminho do bem, tinha certeza, poderia colocar a mão no fogo. “Foram as más companhias na faculdade”, falou para si mesma, lembrando-se dos amigos cabeludos que buscavam o filho para “dar umas voltas”.

Dora tentava afastar a dor no peito, um frio vindo de algum lugar e não sabia resolver, não tinha rumo ou solução. Por isso insistia. A fotografia do jornalista enforcado nos porões do Dops estampada no jornal a assombrava. Temia pela vida de João Pedro. Outra fotografia, porém, pesava-lhe mais. Tomava o café com muito açúcar e não conseguia suportar na imagem congelada do marido na parede e aquele olhar que a seguia por todos os cantos da sala.

Não fazia muito tempo, pouco antes de o marido receber o diagnóstico. Lembrava-se perfeitamente da noite em que a cólera invadiu aquela sala. Da discussão entre pai e filho, Dora guardava poucas palavras, importavam-lhe menos do que os berros e as ofensas. Tinha certeza de se tratava de política. Não queria saber de política, só queria parar de ver as duas pessoas se agredindo, justo as mais amadas.

Parta Dora, pouco lhe importava aquela lembrança ou qual dos dois tinha razão. Não era movida por esta ideia fixa que os homens insistem em defender. Era João Pedro, o filho que saiu de sua barriga, queria-o vivo. Era tudo que tinha.

Os olhos de Dora brilharam ao ouvir do advogado – um conhecido da vizinha –, que os militares autorizaram uma visita ao filho. Na data marcada, no pátio do quartel, encontrou mães e pais na mesma aflição. João Pedro apareceu, magro e abatido Mãe e filho disfarçaram o sofrimento num longo gesto de cumplicidade e amor.

Já em casa, sentada à mesa, mesmo com o peito doído, Dora foi incapaz de chorar, nenhuma lágrima. Levantou-se, foi até a cozinha e voltou para a mesa. Derramou o feijão sobre a mesa e, num gesto mecânico, começou a catá-lo, calmamente calada.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista. Trabalhou nas editorias de Cultura e Internacional nos jornais 'O Tempo' e 'Estado de Minas', onde foi editor do caderno Pensar. É diretor de redação do 'Dom Total'.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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