Religião

10/09/2019 | domtotal.com

Misoginia à moda brasileira

Nós vamos continuar rindo da nossa desgraça?

As críticas do presidente francês não foram respondidas na mesma proporção que foram realizadas. Fugiu-se da temática ambiental para a do gênero.
As críticas do presidente francês não foram respondidas na mesma proporção que foram realizadas. Fugiu-se da temática ambiental para a do gênero. (Ludovic Marin/ AFP)

Por Tânia da Silva Mayer*

Um presidente que se comporte à altura do povo brasileiro, trata-se da sugestão do mandatário francês, Emmanuel Macron, após os estarrecedores episódios ocorridos no mês passado entre ele e Jair Bolsonaro, desencadeados pelas críticas do francês à antipolítica ambiental do atual governo brasileiro, sobretudo no que se refere ao não combate do desmatamento e dos incêndios criminosos na floresta amazônica.

A uma publicação de um seguidor numa rede social, que sugeria que as críticas do francês ao brasileiro se davam em razão de suas esposas, mais uma vez, o presidente brasileiro não perdeu a oportunidade de se mostrar misógino e respondeu à publicação dizendo: “Não humilha cara. Kkkkkkk”. Dias depois, após a negativa repercussão nas imprensas, nacional e internacional, o presidente apagou sua publicação. No entanto, a do seguidor permaneceu publicada. Como nada escapa ao mundo virtual, os prints do diálogo podem ser encontrados facilmente por qualquer pessoa.

Chama-nos a atenção uma primeira coisa. A fuga de uma resposta proporcional à crítica recebida. As críticas do presidente francês não foram respondidas na mesma proporção que foram realizadas. Fugiu-se da temática ambiental para a do gênero. Essa movimentação foi facilitada pela publicação do seguidor. Ele empreendeu a tragédia que nos sabemos ter sido submetidos desde outubro do ano passado. É o seguidor que operou esse trânsito: não vamos falar de crise ambiental, de desmatamento e queimadas criminosas numa das florestas mais importantes do mundo; não vamos falar de especulação de garimpeiros e nem invasões de territórios indígenas, nada disso carece de conversa, vamos falar de mulheres, falemos das esposas.

Uma segunda coisa é preciso considerar. Para um presidente que foge aos debates e entrevistas e não suporta ser contraditado, a publicação do seguidor foi um refrigério. Sobretudo porque trouxe a conversa para o lugar que Bolsonaro transita com liberdade: a misoginia e o machismo. Já se perdeu a conta das declarações desse nível realizadas pelo representante brasileiro: de promessa de estupro a promoção de turismo sexual sobre as mulheres brasileiras, o presidente está em casa com discursos desse tipo. Sobra competência. É de lascar. 

Foi fácil atacar a primeira-dama francesa, Brigitte Macron, fomentando a ideia, a partir das fotografias dos casais, francês e brasileiro, que a francesa estava numa situação inferior à da brasileira porque é mais velha que esta. E o que seriam das imagens sem as legendas? Bolsonaro não deixa dúvidas: sugere que a comparação é uma humilhação para Brigitte. Com essa resposta, ele atribui qualidade às duas mulheres que pode ser identificada com relação à idade. No entanto, não há nada de novo aqui que o sistema patriarcal misógino e machista não tenham realizado antes.

Quando pensávamos ter passado pela fase aguda da vergonha, no dia 5 passado, o ministro da economia predatória, Paulo Guedes, em uma palestra em Fortaleza, afirmou ver progresso nas ações do governo, mas que a preocupação popular recai sobre o que o presidente diz e faz por aí. Em seguida, Guedes comenta que Bolsonaro chamou a francesa de feia e que isso é uma verdade, porque ela “é feia mesmo”, dizendo esse impropério, ele sorri, sendo alcançado pelo riso e pelos aplausos da plateia. Depois, não perdendo a oportunidade de se calar, emenda: “Não existe mulher feia, existe mulher observada do ângulo errado”, e continua sorrindo.

Uma terceira coisa é importante considerar. O machismo e a misoginia compreendem uma visão de mundo partilhada por muitos homens e mulheres. Não é fácil romper com eles porque funcionam na mecânica e no espírito do sistema patriarcal no qual nossas sociedades foram formadas. Um homem, quando quer fugir do assunto e quer, por isso mesmo, atacar o seu adversário, ataca primeiro a mulher que este poderá ter ao seu lado. A ideia que subjaz é a da mulher como ponto fraco do homem. Por isso, os homens do tipo patriarcal – velhos, brancos, heterossexuais e com poder – procuram combinar nas mulheres que figuram ao lado deles os atributos de beleza e jovialidade, recato e decência e cuidado do lar e dos filhos. A gente já ouviu sobre isso faz pouco tempo, não é mesmo?!

Uma última coisa é importante considerar. O riso do Bolsonaro na internet, o riso do Paulo Guedes e de sua plateia significam muito no contexto em que estamos vivendo. Riem-se das mulheres, promovendo uma disputa entre nós, no nível do que seria, conforme os padrões deles, a beleza. Riem-se porque quando nos colocam em disputa umas com as outras, enfraquecemo-nos enquanto um coletivo historicamente subjugado às diversas faces da violência. O riso deles não é sobre Brigitte, é sobre nossas irmãs, mães, amigas, tias, vizinhas, conhecidas que estão sendo, inclusive, mortas pelo radical aumento dos crimes de feminicídio no país. Feminicídio que aparece, anteriormente, sob o riso e o deboche de maridos, ex-maridos, namorados e ex-namorados etc., assassinos tresloucados.

Nós vamos continuar rindo da nossa desgraça? O riso é, de qualquer forma, uma paralisia, uma abstração que nos remete para fora do tempo. No entanto, a história é dinâmica e a roda do tempo não para. A misoginia à moda brasileira precisa ser combatida, com a seriedade de quem trabalha bem e com honestidade para construir com equidade esse país.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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