Brasil Política

10/09/2019 | domtotal.com

Retórica de Bolsonaro compromete imagem externa do Brasil

Comentários inoportunos e atitudes do presidente colocam em risco a imagem do Brasil no mundo.

Especialista afirma que 'Bolsonaro deu as costas para todo o mundo'
Especialista afirma que 'Bolsonaro deu as costas para todo o mundo' (Alan Santos/PR)

A tradição multilateralista da diplomacia brasileira, o alto nível dos funcionários do Itamaraty e a capacidade de mediação e interlocução em diversas frentes estão sob risco em razão das ofensas ou insultos do presidente Jair Bolsonaro (PSL). O alvos foram  dirigentes das Nações Unidas, da França, da Alemanha e de países escandinavos.

Bolsonaro se lançou em uma política da terra arrasada, considerada preocupante para as relações do Brasil com o resto do mundo. Bolsonaro foi grosseiro e rompeu com os códigos internacionais de boa conduta em vários assuntos delicados: o conflito israelense-palestino, a soberania nacional sobre a Amazônia, a união entre os países do Mercosul e os direitos humanos, para citar os temas relativos à diplomacia.

Desde sua posse em janeiro, o ex-militar irritou grandes parceiros no Brasil com gestos intempestivos. Primeiro ocorreu com a China "comunista", principal parceiro comercial do Brasil, com a qual teve que suavizar rapidamente o tom. Pouco tempo depois, o vice-presidente Hamilton Mourão viajou a Pequim para “manter as boas relações” com o gigante asiático.

Depois, foi o mundo árabe, cujas ameaças de boicote às importações brasileiras de carne esfriaram o ardor de Bolsonaro, que queria transferir a embaixada do Brasil em Israel de Tel-Aviv para Jerusalém, cidade que não é reconhecida pela comunidade internacional como capital do Estado hebreu.

Para além de sua proximidade com Israel, Bolsonaro colocou todas as suas fichas na relação como os Estados Unidos, um giro de 180 graus para a diplomacia brasileira, que ainda não teve contrapartida. Gaspard Estrada, especialista latina-americana na universidade francesa Sciences Po, acredita que o Brasil está destruindo sua política externa e está em grande medida isolado.

O especialista afirma que "Bolsonaro deu as costas para todo o mundo". "Nunca vi um presidente brasileiro se expressar dessa maneira e o efeito disso na imagem e reputação internacional do Brasil durará", diz Estrada. "Ele esqueceu que seu gabinete não é a Casa Branca, mas o Palácio do Planalto."

Por que tanta indignação? "É sem precedentes, mas seria um erro dizer que esse governo é louco ou irracional, eles sabem o que estão fazendo", disse Monica Herz, professora associada de relações internacionais da Pontifícia Universidade Católica (PUC-Rio). Jair Bolsonaro tem "um projeto político muito extremo, de direita", que é "perigoso, não apenas no Brasil", afirma. Ele "fala apenas com os 30% de brasileiros que se inclinam fortemente para a extrema-direita".

Para Christian Lohbauer, membro do Instituto de Relações Internacionais da Universidade de São Paulo (USP), do ponto de vista diplomático, o estilo (de Jair Bolsonaro), a forma como se expressa, é desastrosa. "Não administramos relações internacionais organizando concursos de insultos", disse o ministro das Relações Exteriores da França, Jean-Yves Le Drian. Bolsonaro desmarcou uma reunião com o francês para cortar o cabelo no fim de julho, em Brasília.

Crise amazônica

Em plena crise franco-brasileira sobre os incêndios da Amazônia, Bolsonaro caçoou da aparência da primeira-dama francesa, Brigitte Macron, em comentários considerados "extraordinariamente desrespeitosos" pelo presidente Emmanuel Macron.

Para Robert Muggah, do Instituto Igarapé no Rio de Janeiro, Bolsonaro "danificou relações do país com seus aliados, como França, Alemanha e Noruega". Primeiro Berlim e em seguida Oslo suspenderam seus subsídios a fundos de conservação em a Amazônia. Bolsonaro inclusive aconselhou a Noruega que enviasse suas subvenções à chanceler Angela Merkel para "reflorestar a Alemanha". A Oslo, que tomou a mesma medida, ele respondeu publicando vídeos sobre "o assassinato de baleias patrocinado pela Noruega" – na verdade filmados na Dinamarca.

A retórica incendiária e vulgar, sem filtros e limites, envergonha muitos brasileiros, apontam analistas. E podem ter consequências graves. Assim como a França, a Irlanda ameaçou não assinar o acordo de livre comércio entre a União Europeia e Mercosul. A Finlândia está considerando boicotar a carne brasileira. "O Brasil passou de modelo mundial da preservação florestal para um pária internacional. O presidente pode apenas culpar a si mesmo", disse Muggah. Apesar disso, Bolsonaro afirma ter "restaurado a credibilidade do Brasil".

América Latina

Na América Latina, a Argentina, vizinha e grande parceira comercial do Brasil, era considerada aliada estratégica por décadas. No entanto, declarações de Bolsonaro a respeito do provável futuro presidente Alberto Fernández já estão abaladas, após o brasileiro afirmar que o país se aproxima do caos. O candidato à Presidência garantiu que Bolsonaro é "racista, misógino e violento".

O alvo mais recente foi a alta comissária de direitos humanos da ONU e ex-presidente chilena, Michelle Bachelet, que o presidente atacou ao fazer elogios à ditadura de Pinochet por assassinar "comunistas, (como) seu pai", que morreu na prisão torturado em 1974. Bachelet tinha condenado um "retrocesso do espaço democrático" no Brasil.

Em resposta às críticas de Bachelet, Bolsonaro fez apologia à sanguinária ditadura de Augusto Pinochet, mencionando inclusive o pai da ex-presidente, assassinado pelas forças militares que sustentavam o ditador. Sua fala chocou o Chile e colocou até o aliado Sebastián Piñera, presidente chileno, contra ele.

A postura belicosa do governo "terá um impacto de longo prazo", para além do mandato de Bolsonaro, prevê a professora Monica Herz. "Em termos de prestígio e legitimidade, (o Brasil) pagará um preço muito, muito alto" e terá mais dificuldade em ser ouvido nas negociações multilaterais e bilaterais.

Em 24 de setembro, os líderes mundiais vão assistir ao discurso de abertura de Jair Bolsonaro à Assembleia Geral da ONU. Ele promete falar sobre a Amazônia, provavelmente exaltando a soberania com tons de patriotismo. Diante da atenção mundial, Bolsonaro deverá moderar suas palavras. Ocorre que, longe dos discursos previamente elaborados por assessores e marqueteiros, Bolsonaro insiste em falar o que lhe vem à mente. E é aí que mora o perigo.



Edição Pablo Pires

EMGE

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