Religião

30/09/2019 | domtotal.com

Não ser como os amigos de Jó: o cuidado para não cairmos em falsas teologias

Não basta, para o discurso e a pregação cristãs, a eloquência e a boa retórica. É preciso que a teologia cristã seja um ecoar da palavra do próprio Deus.

O fazer teológico cristão é um fazer hermenêutico, de interpretação da revelação de Deus em nossa história.
O fazer teológico cristão é um fazer hermenêutico, de interpretação da revelação de Deus em nossa história. (Roman Kraft/ Unsplash)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Relacionamo-nos, todos, uns com os outros, por meio de imagens: nunca conhecemos o todo da verdade do outro, afinal nem nós mesmos esgotamos o conhecimento que temos a respeito de nós próprios. O que temos uns dos outros são imagens, que construímos a partir do que observamos, a partir daquilo que o meio em que convivemos contribui para que percebamos e a partir daquilo mesmo que esse outro nos revela. Essa é, entre outras coisas, a beleza do mistério: não se esgota e sempre há a possibilidade de mergulharmos mais e mais, para nele fazermos experiência de revelação.

Assim também o é com Deus. Relacionamo-nos com imagens de Deus. Cada grupo, cada cultura, mergulhou numa relação com o Divino a partir de imagens. Imagens cambiantes, intercambiáveis, vale dizer: as experiências particulares de cada cultura, por vezes, agregaram valores de outras, da mesma forma como também exerceram influencia. Não há religião pura! As religiões passam por um processo de decantação dessas imagens, que surgem a partir de várias influências, para chegar a uma teologia, a uma palavra acerca desse divino. Aqui se mostra um dos motivos fundamentais pelos quais devemos nos engajar no diálogo inter-religioso!

Assim também se dá com o cristianismo. Bem sabemos que sua raiz está no judaísmo e que seus galhos se nutriram e se nutrem da seiva também de culturas nas quais o cristianismo se integrou e se integra. Assim como o judaísmo, o cristianismo nasce da premissa de que é Deus mesmo quem se revela, dando-se a conhecer (sem que isso signifique um esgotamento do mistério divino). A fé cristã significa um salto de compreensão teológica, em relação ao judaísmo: vê em Jesus, um judeu da Galileia do século I de nossa era, o Filho de Deus encarnado, para comunicar à humanidade o amor e a comunhão com Deus, que é trino.

A teologia cristã, então, ganha uma especificidade que deve nos deixar atentos: se partimos da premissa de que é o próprio Deus que se revela, em Jesus, pelo Espírito, toda palavra teológica deve ser uma palavra responsável, pois essa palavra não parte de nós próprios, mas de Deus, porque cremos, os cristãos e cristãs, que é essa palavra é de Deus; é Deus. O fazer teológico cristão, nessa perspectiva, é um fazer hermenêutico, de interpretação da revelação de Deus em nossa história. Exige responsabilidade tanto para com a palavra de Deus, quanto para com os que receberão essa palavra.

É importante, pois, que não sejamos como os amigos de Jó, que ficaram insistindo na defesa de uma imagem de Deus, a ponto de buscarem induzi-lo a confessar um pecado que não havia cometido. É preciso lembrar que, ao final da narrativa, o próprio Deus diz que aquela defesa feita pelos amigos de Jó estava equivocada: eles não falaram bem de Deus, apesar de sua teologia eloquente, segura e elogiosa. Não basta, para o discurso e a pregação cristãs, a eloquência e a boa retórica. É preciso que a teologia cristã seja um ecoar da palavra do próprio Deus, que é o próprio Filho encarnado. É dessa maneira que a imagem cristã que temos de Deus, ainda que limitada por tantos condicionamentos, corresponda à verdade do Deus que cremos e que nos propomos a anunciar. Se queremos, pois, falar a respeito de Deus, os cristãos e cristãs temos que falar como Jesus. Eis uma tarefa urgente para o cristianismo de nossos tempos!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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