Religião

17/10/2019 | domtotal.com

EXCLUSIVO: Bispos do sínodo renovam Pacto das Catacumbas

Grupo de padres sinodais refaz o ato e a promessa de opção preferencial pelos pobres, incentivados pelos temas apresentados na assembleia sobre a Região Pan-Amazônica

Dom Helder Câmara foi um dos mentores do texto do documento histórico
Dom Helder Câmara foi um dos mentores do texto do documento histórico (Divulgação)

Mirticeli Medeiros*
Especial para o Dom Total

Cidade do Vaticano – Participantes do Sínodo da Amazônia se reunirão neste domingo (20) para renovar o chamado 'Pacto das Catacumbas', um documento assinado por mais de 40 bispos latino-americanos às vésperas da conclusão do Concílio Vaticano II, em 1965. O evento aconteceu na catacumba de Santa Domitila, em Roma.

O grupo, organizado por dom Erwin Kräutler, C.PP.S, bispo emérito da prelazia do Xingu (PA), participará de uma missa por volta das 7h (2h no horário de Brasília). Alguns membros da assembleia sinodal seguirão em caravana rumo ao local que testemunhou esse momento histórico para a Igreja Católica, marcadamente para a Igreja latino-americana. A celebração será presidida pelo cardeal dom frei Cláudio Hummes, O.F.M, relator do sínodo.

Segundo uma fonte, até agora 150 participantes do sínodo aderiram ao compromisso. Mas a expectativa é que esse número aumente até sábado. O texto, apesar de ter como base o documento de 1965, se chamará “Pacto das Catacumbas pela Casa Comum”, com referência aos temas tratados pelo Sínodo para a região pan-Amazônica. O evento acontecerá de maneira privada e não será permitida a participação da imprensa. Ao final da missa, todos os participantes serão convidados a assinar a declaração.

De acordo com informações apuradas pela nossa equipe, o evento foi preparado antes do início do sínodo e os bispos signatários fizeram varias reuniões para compor o novo documento.

Dom Helder Câmara

Na ocasião do ato original, em 1965, entre os 42 signatários, estiveram presentes cinco brasileiros: dom João Batista da Mota e Albuquerque (1909-1984), então arcebispo de Vitória; dom Francisco Austregesilo de Mesquita Filho (1924-2006), bispo de Afogados de Ingazeira (PE); dom José Alberto Lopes de Castro Pinto (1914-2007), bispo auxiliar do Rio de Janeiro; dom Henrique Hector Golland Trindade (1897-1974), bispo de Botucatu (SP); e dom Antônio Batista Fragoso (1920-2006), bispo de Crateús (CE).

Um dos idealizadores desse compromisso público e colaborador do texto foi dom Helder Câmara (1909-1999), à época arcebispo de Olinda e Recife e referência na defesa dos direitos humanos no Brasil. No texto foram elencadas 13 promessas de desapego aos bens materiais e aos privilégios ligados à vida episcopal.

O pacto influenciou o surgimento da Teologia da Libertação, uma postura de vigília às ditaduras autoritárias vigentes no continente latino-americano, além de ter motivado a convocação da segunda Conferência Geral do Episcopado Latino Americano (Celam), realizada em Medellín, na Colômbia, em 1968.

Em um dos trechos da carta, os bispos prometem “dar todo o tempo, reflexão, coração, meios etc., ao serviço apostólico e pastoral das pessoas e dos grupos laboriosos e economicamente fracos e subdesenvolvidos”. O texto fala, inclusive, de cobrar das autoridades “a observação das leis em favor da justiça, da igualdade e do desenvolvimento harmônico e total do homem todo em todos os homens”.

Leia alguns trechos do documento de 1965:

"Procuraremos viver segundo o modo ordinário da população, no que concerne à habitação, à alimentação e aos meios de locomoção"

"Para sempre renunciamos à aparência e à realidade da riqueza"

"Não possuiremos nem imóveis, nem móveis, nem conta em banco"

"Confiaremos a gestão financeira em nossa diocese a uma comissão de leigos"

"Recusamos ser chamados com nomes que signifiquem a grandeza e o poder (Eminência, Excelência, Monsenhor...). Preferimos padre"

"Evitaremos aquilo que pode parecer conferir privilégios"

"Mostrar-nos-emos abertos a todos, seja qual for a sua religião"


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Dom Total

*Mirticeli Dias de Medeiros é jornalista e mestre em História da Igreja pela Pontifícia Universidade Gregoriana de Roma. Desde 2009, cobre o Vaticano para meios de comunicação no Brasil e na Itália e é colunista do Dom Total, onde publica às sextas-feiras.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC.
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