Meio Ambiente

23/01/2020 | domtotal.com

Sem a presença do governo brasileiro, Amazônia é tema de painel em Davos

Crise ambiental é o grande tema do fórum de Davos neste ano, com mais discussões que as dedicadas a assuntos tradicionais

O Brasil apareceu mal desde o começo do debate sobre a sustentabilidade da Amazônia
O Brasil apareceu mal desde o começo do debate sobre a sustentabilidade da Amazônia (Arquivo/Agência Brasil)

Conservar a Amazônia é muito mais lucrativo do que substituir a floresta por monocultura ou pecuária, segundo explicou o professor Carlos Nobre, diretor de pesquisa da Academia Brasileira de Ciências, numa sessão no maior auditório do Fórum Econômico Mundial. Na quarta-feira, 22, ele participou, ao lado do presidente colombiano, Ivan Duque, e do ex-vice-presidente americano Al Gore, de uma sessão especial sobre como garantir um futuro sustentável à Amazônia. Nobre também participou do Sínodo da Amazônia, realizado em outubro de 2019 no Vaticano.

A crise ambiental é o grande tema do fórum de Davos neste ano, com mais discussões que as dedicadas a assuntos tradicionais, como as condições do comércio internacional, as mudanças tecnológicas e as perspectivas da economia global. Os riscos econômicos principais estão hoje associados à emergência ambiental, havia dito horas antes, em outra sessão, a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen. Questões ambientais têm destaque, há algum tempo, nas pautas do Fundo Monetário Internacional (FMI), do Banco Mundial e de bancos centrais, mas são tratadas como irrelevantes, ou até negadas, pelo governo brasileiro.

Leia mais:

Única figura brasileira a participar dos debates sobre meio ambiente em Davos, o professor Carlos Nobre diverge do governo ao reconhecer a mudança climática e sua importância para todo o mundo. Suas advertências vão até detalhes da atividade econômica. Ao apontar a exploração do açaí como dez vezes mais lucrativa que a pecuária em zonas desflorestadas, o cientista usou um argumento com tradução imediata em dinheiro. Mas o argumento dramático foi outro: se o ponto de virada for atingido a devastação terá chegado a 50%, talvez 60%, e a floresta será incapaz de se recompor. Nesse caso, grande parte da Amazônia se converterá numa savana seca.

Desflorestada, a Amazônia deixará de funcionar como fonte de chuvas para outras áreas. Essa é, lembrou o professor, uma das funções das florestas tropicais. Secas prolongadas, um dos efeitos da mudança climática, já são um sinal de alerta em várias partes do mundo, acrescentou. Uma campanha de plantio de um trilhão de árvores em dez anos é uma das marcas principais da reunião do fórum neste ano. É também parte da celebração de seu 50º aniversário. Ao anunciar, na terça-feira, 21, apoio a essa campanha, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, mais uma vez pode ter surpreendido seu mais importante seguidor na América Latina, o presidente Jair Bolsonaro. Trump rejeitou as advertências sombrias sobre o clima global, mas se declarou empenhado em preservar e elogiou a iniciativa do fórum.

Também o presidente colombiano, Ivan Duque, aderiu à campanha. Antes da sessão sobre a Amazônia, ele havia participado, bem cedo, de uma entrevista sobre o plantio do trilhão de árvores. Falou, na ocasião, sobre o plano colombiano, já em andamento, de plantar 180 milhões de árvores até 2022. A Colômbia, esclareceu, tem 35% de seu território na Amazônia, e seu governo já tem um programa de preservação florestal. Essas informações foram repetidas, horas depois, no começo da sessão especial.

Fora do debate

O Brasil apareceu mal desde o começo do debate sobre a sustentabilidade da Amazônia. Ao abrir a sessão, a apresentadora lembrou os incêndios do ano passado e citou, sem falar seu nome, o ministro da Economia, Paulo Guedes. No dia anterior, ele havia estabelecido, sem se explicar, um vínculo entre pobreza e desflorestamento. Com o governo brasileiro fora dos debates sobre o ambiente, e até em posição de vilão, sobrou amplo espaço para o presidente colombiano se destacar.

De manhã, a presidente da Comissão Europeia havia apresentado um panorama dos desafios e das metas dos 28 países-membros da comunidade regional. Lembrou como é difícil, para a maioria das pessoas, acompanhar a velocidade das mudanças econômicas. Lembrou as tensões internacionais e a importância de buscar o equilíbrio e a cooperação no campo geopolítico.

Valorizou o multilateralismo, um tema importante do fórum e também depreciado pelo atual governo brasileiro. Realçou o peso econômico dos riscos ambientais e lembrou a importância, para a União Europeia, de ter parceiros comerciais engajados na preservação do ambiente. Não mencionou o acordo comercial entre União Europeia e Mercosul, ainda pendente de aprovação pelos Estados envolvidos, nem os desentendimentos motivados pela política ambiental do governo Bolsonaro. Mas o tema poderia estar contido na referências às parcerias comerciais. Indagada sobre o assunto, numa conversa fora do plenário, limitou-se a classificar o acordo com o Mercosul como questão ainda aberta.

Ausente de Davos, o presidente Bolsonaro pode ter-se livrado de conversas incômodas sobre a Amazônia. Presente, o presidente Ivan Duque certamente lucrou.

Faltam comando na Amazônia, diz Mourão

Ao explicar como e com que objetivo vai trabalhar o recém-anunciado Conselho da Amazônia, o vice-presidente Hamilton Mourão, encarregado de comandá-lo, declarou que faltam hoje ao governo "comando e controle" e "coordenação" das políticas voltadas para a região e reconheceu que ainda está "analisando a missão" dada a ele pelo presidente Jair Bolsonaro.

"Existe uma série de políticas desenvolvidas por diferentes ministérios que estão ligadas ao meio ambiente e à Amazônia. É uma tema transversal. Ele não pertence só ao Ministério do Meio Ambiente, não pertence só ao Ministério de Infraestrutura, não pertence só ao Ministério de Desenvolvimento Regional", explicou o vice-presidente em entrevista à GloboNews. "A gente nota nitidamente que tem de ter um organismo que controle isso e coordene as atividades."

Bolsonaro anunciou a criação do Conselho da Amazônia na terça-feira, 21, mesmo dia em que começava o Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça. A emergência climática e a preservação ambiental estão entre os temas de mais destaque na edição deste ano do evento.

No dia seguinte, o maior auditório do Fórum recebeu uma sessão especial sobre como garantir um futuro sustentável à Amazônia, em que o diretor de pesquisa da Academia Brasileira de Ciências, Carlos Nobre, defendeu que conservar a região é muito mais lucrativo do que substituir a floresta por monocultura ou pecuária.

"Não tem a mínima dúvida que o meio ambiente é o tema central no século 21, principalmente nesta terceira década", disse Mourão na entrevista. Ele reconheceu que não se pode fugir da realidade em que grandes fundos de investimento mundo afora estão "colocando selo verde", ou seja, exigindo padrões de boas práticas ambientais de países e empresas em cujos ativos eles investem. "Se é preocupação desses fundos com a vida na Terra ou um instrumento de pressão sobre nações em desenvolvimento, não interessa. Temos de nos adaptar e dar respostas corretas ao que está ocorrendo no mundo."

Questionado sobre a imagem ruim que a política ambiental do Brasil tem atualmente no exterior, o vice-presidente afirmou que existe uma pressão internacional sobre o País pelo fato de Bolsonaro ser "encarado por parcelas da inteligência mundial ou formadores de opinião" como alguém que não está não comprometido com a preservação ambiental. "(Mas) o presidente não deu ordem para tacar fogo na floresta nem fazer genocídio dos povos da floresta."

Mourão admitiu, contudo, que é parte do seu trabalho à frente do Conselho da Amazônia adotar ações que passem para fora a imagem de um País comprometido com a preservação do seu território em termos ambientais.

Sobre se vai tentar recuperar os repasses da Noruega e da Alemanha - o primeiro país suspendeu transferências para o Fundo Amazônia, enquanto o último congelou o financiamento pelo seu Ministério do Meio Ambiente de projetos de combate ao desmatamento no Brasil -, Mourão garantiu que vai "buscar recursos fora, sim, desde que seja possível e necessário" e afirmou não ter "vergonha" de pedir a Oslo e Berlim a volta dos repasses.

Outro tema abordado foi uma eventual candidatura à reeleição de Bolsonaro. Mourão disse que comporia novamente uma chapa como vice se o presidente quiser que ele continue. "Quando ele precisar de um aconselhamento leal e sincero, ele vai ter." Respondeu, também, achar que Bolsonaro deveria, sim, concorrer a um segundo mandato. Mas emendou: "eu, particularmente, sou contrário à reeleição. Acho que a reeleição não fez bem ao Brasil. Acho que deveríamos ter mandato de cinco anos, sem direito à reeleição, mas a regra do jogo que está em vigor é essa."

A respeito do leilão do 5G, o vice-presidente descartou qualquer interferência dos Estados Unidos sobre a possibilidade de a chinesa Huawei disputar o certame. "Quem vencer leilão vai vencer." Ele disse ter conversado com o ministro da Ciência, Tecnologia, Inovações e Comunicações, Marcos Pontes, sobre o assunto e afirmou achar que o leilão vai ocorrer até o fim deste ano ou em 2021.

Quando o assunto se voltou para o discurso de inspiração nazista feito pelo ex-secretário de Cultura Roberto Alvim, Mourão considerou o episódio como algo resolvido, após a demissão de Alvim. Confrontado com o fato de que Bolsonaro elogiou o trabalho do então secretário dias antes de exonerá-lo, o vice-presidente respondeu: "até ele resolver ser o clone do (Joseph) Goebbels", referindo-se ao ministro de Propaganda de Hitler.


Agência Estado



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!