Cultura

07/02/2020 | domtotal.com

O que é fato e o que é fake nas declarações de Petra Costa em entrevista à PBS

Cineasta fez declarações críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro

O produtor Shane Boris, a diretora e produtora Joanna Natasegara, a diretora Petra Costa e o produtor Tiago Pavan, indicados ao Oscar pelo documentário
O produtor Shane Boris, a diretora e produtora Joanna Natasegara, a diretora Petra Costa e o produtor Tiago Pavan, indicados ao Oscar pelo documentário "Democracia em vertigem", em Beverly Hills, na Califórnia, em 4 de fevereiro de 2020 (AFP)

Em entrevista ao programa norte-americano Amanpour & Company no último dia 31 de janeiro, a cineasta Petra Costa, indicada ao Oscar pelo documentário Democracia em vertigem, fez declarações críticas ao governo do presidente Jair Bolsonaro, em inglês. Suas falas viralizaram nas redes sociais e desencadearam uma resposta da Secretaria Especial de Comunicação Social da Presidência (Secom).

Em vídeo, a Secom classificou diversas declarações da diretora como fake news, chamando-a, inclusive, de "militante anti-Brasil". A reportagem verificou as frases de Petra que foram contestadas pela Secom e a resposta do órgão.

Direitos de minorias

A primeira fala de Petra contestada pela Secom é de que há uma onda evangélica contra os direitos LGBT, o feminismo e as pessoas não brancas e que o presidente Jair Bolsonaro também levanta essa bandeira. A Secom, por sua vez, afirmou que o governo federal não fez "nenhuma ação contra direitos de minorias".

Essa avaliação de Petra vai no sentido do posicionamento da bancada evangélica no Congresso que, em junho do ano passado, repudiou a decisão do Supremo Tribunal Federal (STF) de criminalizar a homofobia. Essas ações não são, contudo, unanimidade dentro da religião.

É verdade, ainda, que Bolsonaro já se posicionou contra esses grupos. Em 2013, quando ainda era deputado, declarou que era "homofóbico sim, com muito orgulho". Também já disse que o "afrodescendente mais leve" de um quilombo "pesava sete arrobas" e que só não estupraria a deputada federal Maria do Rosário "porque ela não merecia".

Quanto à afirmação da Secom, não foram localizados registros de revogação de algum direito de minorias. Algumas ações do governo foram, no entanto, consideradas retrocessos por grupos minoritários, como quando, em agosto de 2019, o governo suspendeu um edital selecionando séries de temas LGBT para serem exibidas em TVs públicas ou quando transferiu a atribuição de demarcar terras indígenas da Fundação Nacional do Índio para o Ministério da Agricultura.

Leia também:

Violência no Rio

A Secom também classifica como fake news a afirmação de Petra de que em 2019 a taxa de homicídios cometidos por policiais no estado do Rio de Janeiro aumentou em 20%. Este dado se aproxima, contudo, da cifra exata, de 17,99%, segundo o Instituto de Segurança Pública (ISP).

Para rebater a afirmação da cineasta, a Secom diz que o número de homicídios teve uma queda de 20% no Brasil em 2019. Segundo dados do Ministério da Justiça e Segurança Pública, a diferença é de aproximadamente 21,3%. Embora verdadeira, a informação não nega o dado fornecido por Petra, já que se tratam de indicadores diferentes.

Rio de Janeiro x Estados Unidos

Petra também afirmou que há mais pessoas mortas pela polícia do estado do Rio de Janeiro do que em todo o território dos Estados Unidos.

Isso pode ser confirmado por dados dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças dos EUA (CDC): o número de mortos por "intervenção legal" no país em 2017 - o último disponível - foi de 616. Neste mesmo ano, segundo o ISP, foram registradas 1.118 mortes "por intervenção de agente de Estado" no Rio de Janeiro.

Em resposta, a Secom assinalou que a Polícia Federal e a Polícia Rodoviária Federal reduziram o número de mortes em confronto em 2019. Não foram encontrados dados públicos que sustentem esta última afirmação.

Incentivos de Bolsonaro

Petra também disse que Bolsonaro "tem incentivado fazendeiros e madeireiros a invadir reservas indígenas, queimar e desmatar a Amazônia". Embora não se tenha localizado ações concretas de incentivo nesse sentido, Bolsonaro já tomou medidas que, segundo ativistas da causa e grupos indígenas, poderiam estimular essas ações.

Em 5 de fevereiro, o presidente assinou um projeto de lei que permite a exploração econômica em terras indígenas - ação classificada como um "pesadelo" por Sônia Guajajara, coordenadora executiva da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (APIB).

Segundo relatório do Conselho Indigenista Missionário (Cimi), o número de invasões a áreas indígenas no Brasil dobrou nos nove primeiros meses de 2019.

Ao contestar a diretora, a Secom indicou que para o presidente qualquer tipo de invasão de terra é "terrorismo". Em abril de 2019, Bolsonaro realmente afirmou que pretendia enviar um projeto de lei que tipificasse as invasões de terra como crimes de terrorismo, mas não deixou claro se a medida incluiria áreas indígenas.

Savanização da Amazônia

Por fim, Petra afirmou que a Floresta Amazônica pode "virar uma savana a qualquer momento". Contudo, em artigo sobre o tema publicado em 2018 no periódico científico PNAS, da Academia Nacional de Ciências dos EUA, cientistas brasileiros e estrangeiros destacam que a savanização da Amazônica é uma hipótese "dominada por grandes incertezas".

Em resposta, a Secom apontou que o presidente firmou um compromisso com o meio ambiente em seu discurso na ONU, o que é verdade. No entanto, na mesma fala Bolsonaro minimizou os incêndios na Amazônia, ressaltando que o clima seco, os ventos e queimadas "culturais" poderiam ter sido os responsáveis.

A versão completa desta checagem está disponível no blog do AFP Checamos.


AFP



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!