Religião

20/02/2020 | domtotal.com

Querida Amazônia

A Igreja está comprometida com o clamor amazônico e dele quer aprender a ecologia integral

'Querida Amazônia' ressalta a urgência de dizer não à indiferença
'Querida Amazônia' ressalta a urgência de dizer não à indiferença (Nareeta Martin/ Unsplash)

Élio Gasda*

Querida Amazônia é título da exortação apostólica mais recente da Igreja. Está articulada em torno de quatro eixos-sonhos do papa Francisco: social (n. 8-27), cultural (n. 28-40), ecológico (n. 41-60) e eclesial (n. 61-110). Foi inspirada na Laudato si, no sínodo e seu documento final Amazônia: novos caminhos para a Igreja e para uma ecologia integral.

Francisco esclarece que não pretende, com a exortação, substituir o documento final do sínodo. A proposta é um “breve quadro de reflexão que encarne na realidade amazônica uma síntese de algumas grandes preocupações... que ajude e oriente...o caminho sinodal” (n.2).

O primeiro sonho de Francisco para a Amazônia é social (n. 8 a 27): “Sonho com uma Amazônia que lute pelos direitos dos mais pobres, dos povos nativos, dos últimos, de modo que a sua voz seja ouvida e sua dignidade promovida” (n.7). As questões sociais e a promoção do “bem viver” são preocupações maiores: “uma Amazônia que integre e promova todos os seus habitantes... que impõe um grito profético e um árduo empenho em prol dos mais pobres. Pois, diante do desastre ecológico (...) não serve um conservacionismo ‘que se preocupa com o bioma, mas ignora os povos amazônicos” (n.8).

Combater crimes ambientais e injustiças sociais é um compromisso da Igreja. Uma luta muitas vezes contra o próprio Estado que, por interesses econômicos, cada vez mais incentiva as queimadas, permite a expansão do agronegócio, da mineração e o desmatamento causando a expulsão ou encurralando os povos indígenas e ribeirinhos em suas próprias terras. Tamanha destruição gera um movimento migratório forçado e novas formas de escravidão e miséria (n.10). O progresso serve de desculpa, mas é certo que “os povos pobres ficam sempre pobres e os ricos tornam-se cada vez mais ricos” (Paulo VI, Populorum progressio,57).

Muitas instituições econômicas e o próprio Estado acabam por gerar sofrimento aos povos, como a perda da liberdade, da justiça e promovendo violência. Políticas públicas desacreditadas! “Se tudo está relacionado, também o estado de saúde das instituições de uma sociedade tem consequências no ambiente e na qualidade de vida humana” (Evangelii gaudium, 239). “Os povos amazônicos não são alheios à corrupção e tornam-se suas principais vítimas (Evangelii gaudium, 82).

O documento ressalta a urgência de dizer não à indiferença: “não é salutar habituarmo-nos ao mal; faz-nos mal permitir que nos anestesiem a consciência social”. É preciso indignar-se como Jesus (cf. Mc 3,5). Não aprendemos com os erros do passado vergonhoso que causou tanto sofrimento aos povos da Amazônia (n.15). Colonizadores os roubaram, tiraram suas terras, os escravizaram e mataram. Francisco reconhece que por muitas vezes o trabalho dos missionários não foi exemplar, mesmo assim acredita que é possível construir redes de solidariedade: “o desafio é assegurar uma globalização na solidariedade, uma globalização sem marginalização” (João Paulo II).

A Igreja está comprometida com o clamor amazônico e dele quer aprender a ecologia integral: “com a vossa vida, sois um grito lançado à consciência (…). Vós sois memória viva da missão que Deus nos confiou a todos: cuidar da dasa comum” (n.19). Os valores e o sentido comunitário dos povos indígenas são valorizados: “o trabalho, o descanso, os relacionamentos humanos, os ritos e as celebrações. Tudo é compartilhado, os espaços particulares – típicos da modernidade – são mínimos. A vida é um caminho comunitário onde as tarefas e as responsabilidades se dividem e compartilham em função do bem comum. Não há espaço para a ideia de indivíduo separado da comunidade ou de seu território” (n.20).

“O Evangelho propõe a caridade que brota do coração de Cristo e gera uma busca da justiça que é inseparável da fraternidade e solidariedade, um estímulo à cultura do encontro (...) que privilegie as relações fraternas, num quadro de reconhecimento e valorização das diferentes culturas e dos ecossistemas, capaz de se opor a todas as formas de discriminação e domínio entre os seres humanos” (n.22).

O sonho-eixo social da exortação destaca que a Amazônia deve ser lugar do diálogo social na esperança de encontrar entre diferentes povos novas forma de comunhão e de luta em defesa da casa comum. Que sejam os povos da Amazônia os primeiros a falar. Devemos ouvir suas angústias e esperanças. São eles protagonistas, “os principais interlocutores, dos quais primeiro devemos aprender, a quem temos de escutar por um dever de justiça e a quem devemos pedir autorização para poder apresentar as nossas propostas... Como imaginam eles o ‘bem viver’ para si e seus descendentes?”(n.26). Não os ouvir “será, como sempre, um projeto de poucos para poucos” (Evangelii gaudium, 239).

Querida Amazônia! O papa te ama de paixão. E, por amor, a Igreja povo de Deus te defenderá contra todas as forças da morte! Ninguém tem o direito de roubar teus sonhos.

Mais do que flor, seja fruto
que maduro se oferece,
sempre ao alcance da mão.
Da minha e da tua mão.

(Thiago de Mello – O pão de cada dia).



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