Religião

28/02/2020 | domtotal.com

'Tu és pó e ao pó hás de voltar': eis a tua verdade e vocação!

Deus é amor e o amor é a nossa origem, é o que, hoje, nos sustenta e é o nosso último destino

O ser humano, moldado pelo amor livre e criativo divino, foi plasmado da Terra
O ser humano, moldado pelo amor livre e criativo divino, foi plasmado da Terra (Ritesh Singh/ Unsplash)

Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães*

O tempo quaresmal é reconhecido por muitos como uma das experiências mais ricas da liturgia cristã e, especificamente, se trata de um tempo forte e favorável para mudança de rumo na vida, de aprofundar a reflexão de fé e o processo de conversão do coração que, com decisão e firme propósito, deseja voltar-se novamente para Deus e para seus irmãos e irmãs.

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Para a fé cristã, na pessoa de Jesus de Nazaré, Filho amado de Deus, ele se revela a nós e o seu projeto da grande transformação, pois, a verdade divina revela a nossa verdade última: Deus é amor e o amor é a nossa origem, é o que, hoje, nos sustenta e é o nosso último destino. Amar é o verbo maior da vida que nos chama à conversão, a deixar que seu dinamismo transformador – em todas as dimensões da vida –  vá, de dentro para fora, tomando conta concretamente de nosso viver e conviver.

Na “quarta-feira de cinzas”, início do tempo quaresmal, há uma grande interpelação ética que revela e recorda a nossa verdade fundamental e vocação divina: “Tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19), assim traduz a Bíblia da CNBB. Verdade fundamental no sentido de identidade maior: quem somos, de fato! Vocação divina, no sentido de chamado que interpela a nossa liberdade: entreguemo-nos de corpo e alma, com tudo que somos, ao amar! Perguntemo-nos, então, a cerca do significado desta revelação de nossa verdade fundamental e vocação divina.

Antes de mais nada, importa dizer que faz parte da condição humana compreender cada realidade de modo polissêmico, ou seja, diante do pluralismo cultural – os muitos modos de concebermos a vida e o sentido do viver e conviver –, quando assumimos a beleza da postura de escuta dialogal fraterna, descobrimos sentidos muito diversos em cada experiência que fazemos. Por isso não devemos assumir qualquer postura de arrogância e de fechamento diante do pluralismo das experiências, mas, antes, postura de humildade aprendiz. Como imortalizou Gonzaguinha: “Viver e não ter a vergonha de ser feliz. Cantar e cantar e cantar a beleza de ser um eterno aprendiz”!

Dito isso, voltemos, então, ao título desta reflexão: “Tu és pó e ao pó hás de voltar”: eis a tua verdade e vocação! A nosso ver, o texto sagrado não dá lugar a dúvidas: o ser humano, moldado pelo amor livre e criativo divino, foi plasmado da Terra. Releia: “Comerás o pão com o suor do teu rosto, até voltares ao solo, do qual foste tirado. Porque tu és pó e ao pó hás de voltar” (Gn 3, 19) e recorde: “Então o Senhor Deus formou o ser humano com o pó do solo, soprou-lhe nas narinas o sopro da vida, e ele tornou-se um ser vivente” (Gn 2, 7). E mais outro trecho ainda: “Então o Senhor Deus formou da terra todos os animais selvagens e todas as aves do céu...” (Gn 2, 19). Somos, de fato, divinamente telúricos, terráqueos, terrestres!!! Essa é a nossa verdade fundamental. Precisamos, portanto, reconhecer que, por não termos dado atenção à nossa verdade fundamental, não consolidamos ao longo da história uma boa relação com aquela a quem muitos de nossos irmãos indígenas, com reverência e com postura de delicadeza e cuidado, chamam, carinhosa e ternamente, de Pachamama, a mãe Terra.

Desse modo, assumindo a nossa verdade fundamental – a nossa identidade profunda escolhida pelo próprio Deus – que não apenas nos solidariza, mas nos irmana com todos os membros da humanidade, em todas as culturas, povos e nações, mais ainda, com todos os seres vivos, também eles filhos da generosa mãe Terra, a nossa pátria comum, podemos acolher, neste tempo quaresmal, a nossa vocação: o chamado de Deus, pela revelação de seu Amor Maior por nós em seu Filho amado, Jesus, de nos deixar transformar pelo dinamismo do amar, assumindo o compromisso ecológico e cristão (Cf. Laudato si’, do papa Francisco) de cultivar, guardar e cuidar de nossa casa comum (Cf. Gn 2, 15).

Uma abençoada e fecunda quaresma! Caminhemos rumo à Páscoa, a vida nova e transformada pelo amor ecológico integral em Cristo Jesus!

*Edward Guimarães, mineiro de Tombos, é doutorando em ciências da religião, professor de cultura religiosa e secretário executivo do Observatório da Evangelização. Mestre em teologia pela FAJE, é membro do Conselho Pastoral Arquidiocesano na Arquidiocese de Belo Horizonte.



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