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06/04/2020 | domtotal.com

As pequenas virtudes

Com apuro literário, Natalia Ginzburg fala de si para traçar um relato da universalidade humana e da história de guerras e lutas

'As pequenas virtudes' reúne 11 textos breves de Natalia Ginzburg
'As pequenas virtudes' reúne 11 textos breves de Natalia Ginzburg (Paola Agosti / Companhia das Letras,Divulgação)

Jacques Fux*

Uma das maiores escritoras da literatura, Natalia Ginzburg (Palermo 1916 - Roma 1991) tem o seu encantador As pequenas virtudes relançado pela Cia das Letras (livro que estava esgotado, publicado anteriormente pela Cosac). Com relatos delicados e cruéis – como é o caso de "Ele e eu ” -, com apuro literário que só os grandes romancistas dominam e buscando uma memória remodelada pelo passado, Natalia Ginzburg fala de si para traçar um relato da universalidade humana e da história de guerras e lutas. De origem judaica, com a forte figura e presença de seu conhecido pai, Giuseppe Levi, professor universitário, com a prisão dos três irmãos durante o regime fascista, e com a morte de seu primeiro marido, Leone Ginzburg, antifascista e intelectual, a escritora compõe parte de sua obra.

Em virtude das leis de perseguição racial de 1938, Natalia Ginzburg não pode publicar seu livro usando seu nome, e sim um pseudônimo – Alessandra Tornimparte. Violência e destituição do sujeito que se repetiria ao longo de sua vida e de suas lutas e crenças.  “Há certa uniformidade monótona no destino dos homens. Nossa existência se desenvolve segundo leis antigas e imutáveis, segundo uma cadência própria, uniforme e antiga. Os sonhos nunca se realizam, e assim que os vemos em frangalhos compreendemos subitamente que as alegrias maiores de nossa vida estão fora da realidade. Assim que os vemos em pedaços, nos consumimos de saudade pelo tempo em que ferviam em nós. Nossa sorte transcorre nessa alternância de esperanças e nostalgias”.

No texto “Eu e ela”, que figura na primeira parte do livro, Natalia constrói com maestria e sutileza, uma relação amorosa que hoje chamaríamos de “tóxica”: “Ele não melhora, em mim, a indecisão, a incerteza em cada ação, o sentimento de culpa. Costuma rir e caçoar por qualquer coisa que faço. Se vou às compras no mercado, ele às vezes me segue, escondido, e me espia. Depois debocha de mim pelo modo como fiz as compras, como sopesei as laranjas na mão, escolhendo cuidadosamente, ele diz, as piores de todo o mercado, zomba porque demorei uma hora nas compras, comprei cebolas numa banca, em outra aipo, em outra as frutas. Às vezes é ele quem faz as compras, para me mostrar como se pode fazê-lo muito mais rápido: compra tudo numa única banca, sem titubeio; e consegue que mandem o cesto para casa. Não compra aipo, porque não o suporta”.

Em “Silêncio”, Natalia reflete sobre os instantes sem palavras, porém repletos de sensações e angústias – a busca pela própria alma e pelo seu lugar no mundo. O silêncio, por certo, é algo preciso, e que habita em nós, mas que tentamos afastar – sobretudo hoje, em tempos de redes e vidas “fake” sociais. “Existem duas espécies de si: o silêncio com nós mesmos e o silêncio com os outros. Ambas as formas nos fazem igualmente sofrer. O silêncio com nós mesmos é dominado por uma violenta apatia que nos toma pelo nosso próprio ser, pelo desprezo à nossa própria alma, tão vil que não merece que se lhe diga nada. É claro que é preciso romper esse silêncio nosso se quisermos tentar romper o silêncio com os outros. É claro que não temos nenhum direito de odiar nossa própria pessoa, nenhum direito de calar nossos pensamentos à nossa alma. (...) o silêncio é universal e profundo”.

Escritora e editora reconhecida, Natalia sabe muito bem de qual matéria é feita a ficção: “Mas ser feliz ou infeliz nos leva a escrever de maneiras distintas. Quando somos felizes, nossa fantasia tem mais força; quando somos infelizes, então é nossa memória que age com mais vivacidade. O sofrimento torna a fantasia fraca e preguiçosa; ela se move, mas desinteressadamente e com langor, com movimento frágil dos doentes, com o cansaço e a cautela dos membros doloridos e febris; é difícil afastarmos o olhar de nossa vida e de nossa alma, da sede e da inquietude que nos invade. Nas coisas que escrevemos afloram então contínuas lembranças do nosso passado, nossa própria voz ressoa continuamente, e não conseguimos impor-lhe o silêncio”.

Em Seis propostas para um novo milênio, Italo Calvino escreve sobre o livro clássico: “os clássicos são aqueles livros dos quais, em geral, se ouve dizer: ‘Estou relendo... e nunca ‘Estou lendo...’. Este livro de Natalia Ginzburg não merece ser lido – mas, sim, viver acompanhado por ele.

AS PEQUENAS VIRTUDES
De Natalia Ginzburg
Companhia das Letras
128 páginas
R$44,90 (Companhia das Letras)


*Jacques Fux é professor da Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE), matemático e escritor, autor de 'Meshugá: um romance sobre a loucura' (José Olympio, 2016), 'Nobel' (José Olympio, 2018), entre outros.



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