Brasil

08/10/2020 | domtotal.com

Alongamento cuiabano

Alongar é exercício salutar para nossos músculos, corações e mentes

O alongamento cuiabano é praticado por parte dos caminhantes do parque
O alongamento cuiabano é praticado por parte dos caminhantes do parque (Unsplash/Matthew LeJune)

Ricardo Soares*

"Alongue-se" dizem placas de advertência ao longo dos caminhos quentes do parque Mãe Bonifácia em Cuiabá, cidade que me hospeda por alguns meses e que não decifro apesar de não ser a primeira e nem a segunda visita. Meu juízo de valor acerca da capital do Mato Grosso fica nublado, talvez por conta da recorrente fumaça das queimadas que cobre a cidade com frequência.

Mas não vim aqui fazer tolas digressões sobre Cuiabá e sim tentar me debruçar sobre o tal conceito de "alongamento" que tão salutar seria para nossos músculos e nossos corações. E vou adiante: alongar a mente seria também muito bom. Esticar e deixar esperto os tais "músculos mentais" que andam atrofiados em boa parte de nosso país.  Assim, quando vejo aqui o repetido recado do "alongue-se", fico achando que o povo entende o contrário, que é "encurte-se". Igual fazem com o uso das máscaras nesse mesmo parque, onde teoricamente seria proibido andar sem elas. Mas muitos "fortões" e "penélopes charmosas saltitantes" não usam ostensivamente, o que lhes prega na testa o óbvio título de apoiadores do coisa ruim que está no Planalto.

O alongamento cuiabano é praticado por parte dos caminhantes do parque. Alguns jovens e outros mais velhos. Mas, quando passo perto deles e lhes ouço a prosa, vejo que no geral é apenas uma tentativa de alongamento dos músculos mesmo com tanta quentura. As conversas são sobre mundo agro, dicas de beleza, roupas, caminhonetes novas e possantes, facas afiadas pra um bom churrasco, fofocas da "firma" e outras pérolas do encurtamento mental.  Sim, me julguem. O que esperaria eu? Digressões acerca das fake News, prosas sobre racismo estrutural, reconhecimento dos direitos dos trabalhadores sem-terra? Não, não é esse o foco desse pouco admirável mundo novo onde cada vez mais se buscam dicas para crescer na carreira, onde investir, como poupar, como saber guardar para um futuro que pode não chegar.

Vou parar por aqui, pois talvez possa ser injusto com a quente Cuiabá, tomando-a por cidade de parvos quando ela é apenas mais uma amostra do ideário das capitais brasileiras, envoltas na mais completa tradução de egoísmo que não arrefeceu na pandemia coisa nenhuma. Vou mais é me ater a boa culinária local, que alonga as minhas sensações palatáveis, mesmo não podendo frequentar restaurantes locais com tranquilidade. Queria na verdade era ter todos os dias aqui um ventilador grudado diante do rosto pra me esfriar, não apenas a temperatura do corpo, mas a quentura do meu pessimismo mato-grossense.

*Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 9 livros. O mais recente "Devo a eles um romance" disponível em https://www.editorapenalux.com.br/loja/devo-a-eles-um-romance

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!