Brasil Política

07/12/2020 | domtotal.com

Cascata de cascatas

O jornalismo deveria aprender com as aulas de criação gratuitas que muitas vezes são dadas no marketing político onde os profissionais devem dar tudo de si para vender muitas vezes peixes podres, infelizmente

Entrevista com o ex-marqueteiro do PT, João Santana, no programa 'Roda Viva'
Entrevista com o ex-marqueteiro do PT, João Santana, no programa 'Roda Viva' (Reprodução TV Cultura)

Ricardo Soares*

Desde 1992, percorro os rincões desse país a cada dois anos nas fainas do marketing político, essa atividade ainda mal compreendida e vilanizada por parte considerável de uma mídia hipócrita que vê na atividade uma "coisa" espúria, desqualificada que eles, "jornalistas isentos e imparciais" (difícil não gargalhar diante dessa premissa) consideram uma atividade indigna e menor. Isso ficou patente na recente entrevista concedida pelo ex-marqueteiro João Santana ao Roda Viva onde um pseudo puritano revirou os olhinhos "isentos" para esculachar o entrevistado, mas foi devidamente ridicularizado por ele.

Isso posto e João Santana a parte, o que me impressiona nos múltiplos rincões onde estive desde 1992 na faina do marketing politico é o aluvião de lugares comuns que permeiam o discurso de candidatos sejam às casas legislativas, a governos de estado ou prefeituras. Tolices supremas do tipo "aceitei esse desafio de me candidatar" e blábláblá. E não culpemos redatores, editores, coordenadores de campanha ou marqueteiros por tal mister. Muitas vezes os clientes querem exatamente isso, não importa o quão caro tenham pago pelos serviços dos "marqueteiros". 

A obviedade dos políticos e seus asseclas acabam por dar o tom e os profissionais tem que adaptar os seus, digamos, "recursos e repertórios" à tábula rasa de um repertório estreito. Aí dá-lhe "estou do lado do povo" , "coloco o interesse do povo acima dos interesses pessoais" e demais patacoadas. Isso é de Roraima ao Rio Grande do Sul, de Santa Catarina ao Amapá. Variações sobre os mesmos temas e discursos. Por isso que, ao fim e ao cabo, independente da vilania que queiram colar em João Santana, admiro o trabalho que ele fez por conseguir desgrudar o marketing dessa "cascata de cascatas".

Por fim, tenho respeito pelo marketing politico pois vi, apesar das obviedades, muito mais criatividade em campanhas políticas do que na maior parte das redações jornalísticas por onde passei - onde o mais do mesmo dá o tom. O jornalismo (sobretudo, o televisivo) deveria aprender com as aulas de criação gratuitas que muitas vezes são dadas no marketing político onde os profissionais devem dar tudo de si para vender muitas vezes peixes podres, infelizmente.

Ricardo Soares é diretor de tv, roteirista, escritor e jornalista. Publicou 9 livros, dirigiu 12 documentários

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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