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08/12/2020 | domtotal.com

Novas tecnologias e o aumento da desigualdade entre países

Potenciais ditaduras digitais não têm lado no espectro político

Há uma expectativa bem generalizada de que novas tecnologias revolucionem os processos de produção
Há uma expectativa bem generalizada de que novas tecnologias revolucionem os processos de produção (Reprodução)

Jose Antonio de Sousa Neto*

Em uma pesquisa recente publicada no dia 02/12/20 no site do FMI (Fundo Monetário Internacional) um assunto de grande relevância é analisado. Há uma expectativa bem generalizada de que novas tecnologias como inteligência artificial, aprendizado de máquina, robótica, big data e redes revolucionem os processos de produção. Por outro lado, não se pode subestimar que estas novas tecnologias também podem ter um grande impacto nas economias em desenvolvimento. As oportunidades e fontes potenciais de crescimento que, por exemplo, os Estados Unidos e a China desfrutaram durante seus estágios iniciais de desenvolvimento econômico são notavelmente diferentes do que países em desenvolvimento estão enfrentando no mundo de hoje. Durante o século 19 e durante grande parte do século 20, a desigualdade entre os países aumentou dramaticamente, à medida que as economias mais avançadas do mundo superaram as nações mais pobres. Ao longo das últimas décadas, sobretudo ao longo deste novo século este ritmo parece que está aumentando.

Se forma sumarizada a pesquisa aponta para a possibilidade real de que "a nova tecnologia corre o risco de alargar o fosso entre os países ricos e pobres ao transferir mais investimentos para economias avançadas onde a automação já está estabelecida. Isso, por sua vez, poderia ter consequências negativas para os empregos nos países em desenvolvimento, ao ameaçar substituir, em vez de complementar, sua crescente força de trabalho, que tradicionalmente tem proporcionado uma vantagem às economias menos desenvolvidas. Para evitar essa divergência crescente, os formuladores de políticas nas economias em desenvolvimento precisarão tomar medidas para aumentar a produtividade e melhorar as habilidades dos trabalhadores".

Isto de fato não é uma surpresa. Já abordamos aqui em textos anteriores que há um reconhecimento por partes de líderes globais, alguns como os da China e da Rússia se manifestando de forma explicita que aqueles que dominarem os dados e as informações deles derivados terão um domínio global. Os investimentos neste sentido são desproporcionais entre o mundo desenvolvido e o mundo em desenvolvimento criando um processo perverso de crescimento e aceleração das desigualdades. E se o problema da criação do que Yuwal Harari chamou de os "useless" (os "inúteis" não no sentido humano, mas na dificuldade de integração econômica no contexto das novas tecnologias – 1,5 bilhões de pessoas) já é desafiador nos países desenvolvidos mais desafiador ainda o é no contexto das nações em desenvolvimento, sobretudo as mais pobres.

De fato, há de se esperar, em função de inúmeras razões de caráter estrutural, que "uma economia em desenvolvimento provavelmente se especializará em setores que dependem mais de mão de obra não qualificada, que possui mais em comparação com uma economia avançada". Supondo que as novas tecnologias venham a substituir o trabalho não qualificado, mas complementem os trabalhadores qualificados, um declínio permanente nos termos de desenvolvimento, competitividade e sobretudo complementaridade entre as regiões pode surgir após a revolução resultante das novas tecnologias Segundo os argumentos da pesquisa "isso ocorrera porque os robôs deslocarão desproporcionalmente trabalhadores não qualificados, reduzindo seus salários relativos e baixando o preço do bem que usa mão de obra não qualificada com mais intensidade. A queda no preço relativo de seu principal produto, por sua vez, atua como mais um choque negativo, reduzindo o incentivo ao investimento e, potencialmente, levando a uma queda não apenas do PIB relativo, mas absoluto".

Junto a esta discussão vem inexoravelmente a reflexão sobre os modelos político / econômicos que poderiam, no contexto atual e para o contexto que se delineia para o futuro, melhor contribuir para a redução destas desigualdades. Sobre isso também já falamos em textos anteriores, mas vale aqui refletirmos sobre isso com um pouco mais de detalhes. Neste sentido é importante inicialmente fazermos uma distinção entre o comunismo e o socialismo. De um modo bem genérico o comunismo é basicamente um sistema político e o socialismo é um sistema econômico. Evidentemente são sistemas que têm caminhado juntos, mas não necessariamente isto é uma pré-condição. Por exemplo, a antiga União Soviética era comunista e socialista e ao final da década de 80 eliminou os dois sistemas. Cuba e a Coreia do Norte mantiveram os dois sistemas e a Venezuela os implementou ao longo das últimas duas décadas. A China por sua vez abandonou na prática o socialismo, movendo-se na direção de um peculiar tipo de sistema de mercado que está sob um rigoroso controle político por parte do estado e que, "de forma pragmática", "supervisiona" um mercado relativamente livre. O seu sistema político comunista foi mantido intacto e possivelmente até reforçado a partir da eliminação do modelo de rotatividade no cargo principal de liderança. Em outras palavras, sem democracia, sem eleições livres e com absoluto controle social.

Todos os sistemas que adotaram e mantiveram concomitantemente o sistema comunista e o sistema socialista faliram inexoravelmente levando a uma diminuição da desigualdade pela equalização generalizada da pobreza (e, na maioria dos casos, da miséria). Além da perda de todos os tipos de liberdade incluindo a liberdade religiosa. Em contrapartida, muitos podem argumentar, por exemplo, que o modelo chinês, ao preservar o comunismo e abrir mão do socialismo, alcançou uma eficiência e eficácia de desenvolvimento e acumulação de riquezas cuja velocidade e efetividade conduziram a um novo contexto de equilíbrio global. No contexto dos países em desenvolvimento, principalmente da América Latina, esta reflexão é importante porque, no final das contas, ela em grande medida transita entre as opções de regimes democráticos e não democráticos e a efetividade e os custos inerentes no curto, no médio e a longo prazo destas opções. E isto se faz ainda mais premente em função do gap que possivelmente se delineia para a desigualdade global e que pode, como sugerem os autores da pesquisa apresentada pelo FMI, se tornar irreversível por um período de difícil mensuração e com consequências humanas e sociais potencialmente desastrosas.

É interessante que independentemente da posição no espectro político ou ideologias subjacentes, as semelhanças entre os regimes não democráticos são muito mais relevantes do que as diferenças. Seria ingênuo acreditar, por exemplo, que regimes de extrema direita no passado da Europa, se tivessem tido acesso às novas tecnologias de dados e computacionais que temos hoje, não estariam implementando o mesmo modelo de controle social absoluto que vemos na China. E naquela época estes países detinham ainda uma razoável hegemonia militar como incentivo para uma expansão imperialista tal como buscou a União Soviética principal nêmesis destes e igualmente totalitária. Para algumas coisas a natureza humana é tragicamente previsível.

A questão final das opções sobre o caminho a ser construído acaba recaindo sobre os custos. Para a China, que por milhares de anos teve grande parte de seu povo vivendo em condições humanas absolutamente precárias, este trade-off (troca) entre liberdade e condições mínimas de dignidade material pode ter sido considerada aceitável. Uma situação onde os fins justificariam os meios. O custo e os riscos a longo prazo são difíceis de mensurar, mas com consequências potenciais bastante graves. Para países com valores e de "ética ocidental" muitos destes custos e riscos podem ser considerados insuportáveis. Aqui voltamos a Yuval Harari e a reflexões que já fizemos aqui neste espaço em outras ocasiões. Se democracias foram mais efetivas no passado, justamente por sua diversidade na tomada de decisões, regimes centralizados digitais poderiam ser potencialmente mais efetivos ao lidar com uma infinidade de problemas complexos e combinados em redes de quase infinita complexidade. E estes potenciais "ditaduras digitais" não têm lado no espectro político e econômico. Podem vir e vêm de qualquer lado. São um risco muito alto, claro e presente no mundo em que estamos vivendo.

Infelizmente, em grande parte da América Latina e inclusive no Brasil, com frequência é difícil levar adiante uma reflexão equilibrada sobre o que fazer para mitigar ou evitar o potencial crescimento da desigualdade entre os países da região e os países desenvolvidos e também evitar o crescimento das desigualdades internas de cada um destes países. Como muitos, por razões obscuras (ou seria por razões muito claras?), ainda insistem em ter como solução o comunismo associado ao socialismo ou modelos meramente oligárquicos disfarçados como democracias, não é difícil visualizar qual será o futuro caso algum dia alcancem seu intento: imensa pobreza interna, grande instabilidade social e aceleração da desigualdade externa. E essa insistência por caminhos comprovadamente inviáveis prejudica enormemente a busca para aprimorar o sistema que temos hoje mitigando suas várias e relevantes imperfeições e, quem sabe, até eliminando algumas delas.


*Jose Antonio de Sousa Neto é professor da EMGE (Escola de Engenharia e Ciência da Computação)

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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