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15/12/2020 | domtotal.com

Narrativas da pandemia

Uma hora, tudo isso passará. Até lá, a gente vai seguindo: vivendo um dia e um episódio de cada vez

A televisão, com sua capacidade (e necessidade) de agir em cima do lance, adaptou-se à nova conjuntura de maneira como o cinema nunca poderia
A televisão, com sua capacidade (e necessidade) de agir em cima do lance, adaptou-se à nova conjuntura de maneira como o cinema nunca poderia (jeshoots.com/ Unsplash)

Alexis Parrot*

No ano em que vivemos mais tensos e preocupados, a televisão cumpriu importante papel na vida de todos que buscávamos informação e também alguma distração para atravessar a pandemia.

Não foi fácil a caminhada até aqui e, mesmo com o advento das vacinas, nada faz crer que o calvário esteja perto do fim (tem vacina russa, chinesa, inglesa e norte-americana; o mercado oferece opções para todos os gostos ideológicos, apesar de não termos ideia de quando ou como teremos acesso a elas).

A televisão, com sua capacidade (e necessidade) de agir em cima do lance, adaptou-se à nova conjuntura de maneira como o cinema nunca poderia. Ao suspender produção e gravações - com exceção do jornalismo - mostrou uma responsabilidade inexistente no Palácio do Planalto. Feito inédito no país, as novelas no ar foram interrompidas e substituídas por reprises. Tem sido engraçado acompanhar as notinhas na imprensa dando conta dos próximos capítulos de antigas novelas, como se velhas tramas fossem novidade.

Com o passar dos meses e inspiradas pelo boom das lives, nos aplicativos de reunião por teleconferência e na experiência de outros países, sobretudo dos EUA, as emissoras foram retomando seus talk shows e atrações de auditório (sem auditório). Entre erros e acertos, o programa do Bial ficou até melhor no novo formato, enquanto o do Faustão conseguiu alcançar de vez o fundo do poço.

Os telejornais registraram as mortes e a luta do front dos trabalhadores de saúde, além de denunciar falhas governamentais em profusão, mas foi a dramaturgia que mais contribuiu para uma reflexão sobre o chamado "novo normal". Em escala mundial, ao captar e interpretar o zeitgeist dessa era de medo, pudemos ver refletidas todas as nossas inseguranças nas telas da TV, do computador e dos tablets.

Em março, antes do inicio dos decretos de quarentena e lockdown, o Saturday night live, em episódio especialmente feliz e apresentado pelo James Bond Daniel Craig, trouxe uma paródia de soap opera, The sands of Modesto, quase profética.

Na abertura do quadro, um narrador avisava que a Covid obrigou os produtores a mudar procedimentos de gravação - o que resultou em uma encenação exagerada de precauções para evitar o contato com o vírus ou entre as pessoas no estúdio.

Kate McKinnon e Daniel Craig na paródia da novela ´The Sands of Modesto´ em 7 de março de 2020, episódio do ´Saturday Night Live´ da NBC (Reprodução NBC)Kate McKinnon e Daniel Craig na paródia da novela 'The Sands of Modesto' em 7 de março de 2020, episódio do 'Saturday Night Live' da NBC (Reprodução NBC)Antes de atender o telefone, Kate Mckinnon abusa de um spray de álcool sobre o aparelho; desajeitadamente, ninguém se toca em cena (apenas cotovelos podem ser usados ou longos braços de madeira com mãos de borracha); vários lencinhos de papel são necessários para tocar na maçaneta da porta; uma placa de acrílico surge do nada para uma cena de beijo e por aí vai - até o clímax, quando o casal protagonista se enrola totalmente em plástico filme para chegar às vias de fato. O sketch termina quando Cecily Strong espirra, fazendo com que Craig e McKinnon abandonem imediatamente a gravação.

Em episódio de ´Diário de um confinado´, personagem de Bruno Mazzeo toma banho junto com frutas para desinfetar alimentos (Reprodução Globloplay)Em episódio de 'Diário de um confinado', personagem de Bruno Mazzeo toma banho junto com frutas para desinfetar alimentos (Reprodução Globloplay)No Brasil, o Globoplay enveredou pelo caminho da crônica, usando e abusando da tecnologia digital, sem que as equipes se encontrassem presencialmente. Diário de um confinado, co-criado e protagonizado por Bruno Mazzeo foi realizado de maneira totalmente remota. A série mostrava as agruras de um solteirão carioca de classe média alta, adaptando-se ao novo estilo de vida a que se vê obrigado. No primeiro episódio, a batalha é comer uma pizza que chega às suas mãos via delivery. Bobo e elitista, lembra o que ele já fazia no Cilada, um programa típico dos canais por assinatura da Globo, de recursos escassos e produção baratinha.

Mãe e filha atuam em série sobre confinamento (Reprodução Globoplay)Mãe e filha atuam em 'Amor e sorte', série sobre confinamento (Reprodução Globoplay)Aproveitando o know-how adquirido, a série Amor e sorte, bolada por Jorge Furtado, foi mais feliz, mostrando relações familiares e de amor durante a quarentena com um olhar de esperança no horizonte. O episódio mostrando mãe e filha encarceradas em um chalé na serra fluminense fez tanto sucesso que gerou um repeteco. Ganhou merecido desdobramento para ir ao ar na programação de fim de ano da Globo e deve virar série no ano que vem. No elenco, duas Fernandas, a Montenegro e a Torres - atrizes que nunca decepcionam.

Um dos personagens que Adnet mais paradiou foi o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro (Reprodução Globoplay)Um dos personagens que Adnet mais paradiou foi o ex-juiz e ex-ministro da Justiça Sérgio Moro (Reprodução Globoplay)E houve também Marcelo Adnet. O Sinta-se em casa, programete diário estrelado por ele virou coqueluche e incomodou os poderosos, graças à verve ferina do talentoso humorista. Transformando a precariedade em estética, Adnet lavou nossa alma ao dizer o que todo mundo queria dizer ou ouvir, sem freios ou rede de proteção. Não só um dos melhores olhares sobre o Brasil face à Covid, mas uma das melhores coisas que a TV brasileira produziu em 2020.

A Netflix atacou o tema com duas interessantes produções: Feito em casa e Distanciamento social. A primeira, uma iniciativa do diretor de cinema chileno Pablo Larrain (de Uma mulher fantástica), é uma antologia de curtas de realizadores dos quatro cantos do globo, todos feitos literalmente em casa ou em observância às regras de isolamento social. Há curtas melhores do que outros, natural em se tratando de uma coletânea, mas o resultado do conjunto é enternecedor.

Série ´Distanciamento social´ foi gravada em quarentena, onde os atores gravariam suas cenas e todos os episódios dentro de suas casas (Reprodução Netflix)Série 'Distanciamento social' foi gravada em quarentena, onde os atores gravariam suas cenas e todos os episódios dentro de suas casas (Reprodução Netflix)Ainda que com episódios independentes, Distanciamento social é mais coesa. Criada pela responsável por Orange is the new black, a série tem também seus altos e baixos e estende os tentáculos da pandemia por vários estratos sociais e situações. Uma cerimônia fúnebre hilária e uma reunião do A.A. via teleconferência; um casal gay que tenta se reconectar via um match no Tinder; um patrão e empregado negros entrando em choque a partir da visão de cada um sobre o que significa ser negro nos EUA...

A série toda vale a pena, porém, sua existência já se justifica pelo episódio Poderíamos todos juntos navegar pelo oceano. Uma cuidadora de idosos precisa deixar a filha pequena sozinha em casa para trabalhar, mantendo-a sob a vigilância de câmeras e em contato pelo celular. A situação se deteriora e, para que a profissional não abandone o trabalho, a filha da idosa oferece uma solução desconcertante. Privilegiados e oprimidos são obrigados a ceder mutuamente - porque o sistema já não funciona para nenhum dos dois lados.

´Coastal Elites´ é uma sátira cômica que destaca cinco personagens quebrando e rompendo enquanto lutam com a política, a cultura e a pandemia (Reprodução HBO)'Coastal Elites' é uma sátira cômica que destaca cinco personagens quebrando e rompendo enquanto lutam com a política, a cultura e a pandemia (Reprodução HBO)A HBO produziu o telefilme Coastal elites: comédia engajada baseada em cinco monólogos que buscam entender o porquê dos EUA terem chegado no formato trumpista em que se encontram. Embora divertido, parte da crítica norte-americana denunciou a ingenuidade de seu discurso, limitando os reais problemas do país a um simples choque entre elites, dando a entender que questões como racismo, preconceito, desigualdade e violência se autorresolveriam em um passe de mágica, bastando para tanto que o Partido Democrata voltasse ao poder. É para assistir com atenção, mas só a presença de Bette Midler no elenco já paga o preço do ingresso.

Infelizmente, segue inédita no país a melhor entre todas as narrativas da pandemia realizadas pela TV. Trata-se de Staged (Encenado, em tradução literal), minissérie da BBC em seis episódios curtinhos, de quinze minutos cada.

David Tennant and Michael Sheen. Foto: Simon Ridgeway e Paul Stephenson/GCB Films/Infinity Hill /BBCDavid Tennant and Michael Sheen. Foto: Simon Ridgeway e Paul Stephenson/GCB Films/Infinity Hill /BBCPresos em casa e enlouquecendo por isso, os atores britânicos Michael Sheen (de Masters of sex e A rainha) e David Tennant (de Doctor Who e Broadchurch), interpretando a si mesmos, aceitam começar o ensaio de uma montagem de Seis personagens à procura de um autor por teleconferência.

Além da delícia de assistir aos embates dos grandes atores (tudo é motivo para discussão: desde a ordem em que os nomes devem vir no cartaz da peça, passando pela ascendência galesa e escocesa de um e outro, até chegar na roupa que usam), o humor irônico e sofisticado dos diálogos desnuda a figura do ator, uma profissão não raro construída sobre aparências - que parece incentivar a vaidade e marinar seus membros no egoísmo e na idiossincrasia.

Sem paciência alguma para cuidar dos filhos pequenos, Tennant sorri com a sugestão de Sheen de incentivar os infantes a se interessar por algum hobby - por exemplo, roubar carteiras, como as crianças de Oliver Twist. A relação entre os dois, ainda que recheada de afeto, lembra a dinâmica entre Fabrice Luchini e Lambert Wilson em Molière de bicicleta, o filme impecável de Philippe Le Guay, de 2013.

Mais do que qualquer outra dessas narrativas da pandemia, Staged consegue sintetizar toda a angústia do confinamento. Sem enveredar pelo histriônico ou apelar para o sentimentalismo, mantém-se íntegra e coerente à proposta inicial, tratando com delicadeza (mas sem condescendência) tudo pelo que estamos passando: medo, solidão, tédio e insegurança.

Uma hora, tudo isso passará. Novos medos virão e vamos também aprender a lidar com eles. Até lá, a gente vai seguindo: vivendo um dia e um episódio de cada vez.

*Alexis Parrot é crítico de TV, roteirista e jornalista. Escreve às terças-feiras para o Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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