Religião

21/12/2020 | domtotal.com

Uma escolha muito difícil?

Dizer-se cristão e não se vacinar equivale a mostrar que sua crença não vale de nada

Chegada do novo lote da vacina do Butantan no aeroporto de Guarulho no dia 18 de dezembro
Chegada do novo lote da vacina do Butantan no aeroporto de Guarulho no dia 18 de dezembro (Governo do Estado de SP)

Felipe Magalhães Francisco*

Os leitores e leitoras mais atentos, possivelmente tenham se recordado, ao ler o título deste artigo, do fatídico editorial do Estadão, na ocasião do segundo turno das últimas eleições presidenciais. Ao contrário, porém, da infâmia do citado editorial que se pautou numa afirmação absurdamente inescrupulosa, propomos uma pergunta que, para nós, é retórica. Não nos dedicaremos, aqui, a questões eleitorais. Mas não será possível não tocar no aspecto Político. Estamos, todos e todas, vivendo um período bastante terrível, com a pandemia de Covid-19. No Brasil, estamos há dez meses enfrentando esta que, até então, é a pior crise do nosso jovem século.

Para o enfrentamento dessa situação tão grave, o esforço de todos e todas é essencial. Isso já tem sido largamente dito e reiterado. O esforço de muitos e muitas em manter o isolamento social tornou possível que a situação não fosse ainda pior, apesar do aspecto terrível que nos acomete. O trabalho árduo de um sem número de profissionais de saúde, a esta altura já esgotados, é digno de um agradecimento cheio de vergonha: se tivéssemos, os que pudemos, nos cuidado mais, esse trabalho não teria tido a necessidade de ser tão homérico. Fora os profissionais dos serviços essenciais, que não tiveram o privilégio de realizar seus trabalhos de casa. Sobre o poder público: muitos já têm dito, com propriedade, a ineficiência do Governo Federal. Para quase 200 mil pessoas, tal ineficiência desdenhosa já foi cobrada com a vida; e estamos, tragicamente, a contar...

Pessoas de poder, em nosso país, insistiram que não havia com o quê nos preocuparmos. Partiram da ideia de que a mídia nacional estava causando pânico na população. Se assim o fosse, não estaríamos, agora, vendo a situação piorar: não houve pânico causado pela mídia. Há, outrossim, uma avalanche de notícias falsas, que causam um desserviço atroz em meio às pessoas. Já estava ruim: cada vida perdida é uma lástima. Agora, os números voltam a crescer exponencialmente. Natal e Réveillon estão às portas: o que será de nós, em janeiro? Cuidar de nós, de quem amamos e das pessoas que estão tendo que trabalhar em meio a esse furacão seria uma escolha difícil?

Vivemos em sociedade, apesar de parecer estarmos regredindo no que tange à convivialidade. Em meio a uma questão sanitária, cuidar de um é cuidar de um conjunto de pessoas. Máscaras são essenciais não apenas porque a legislação específica do momento obriga o uso nos comércios e repartições: trata-se de sermos respeitosos, éticos, cuidadosos... humanos. Ninguém sente prazer usando uma máscara o tempo todo em que estamos próximos de alguém que não seja do nosso círculo de habitação, mas é necessário. Não adianta chorar o leite derramado, mas, continuar com as restrições agora é, de alguma forma, consequência de não termos cuidado o suficiente anteriormente. Tivemos a experiência de países orientais e europeus, e ainda assim não nos precavemos. Agora, continuar a amargar uma situação que é triste, sofrida, horrível e adoecedora em muitos aspectos.

Tudo isso pode – e deve! – ser dito em relação à vacinação, que chegará, mesmo que demore. É estarrecedor que 20% dos entrevistados, a representar parcela da totalidade de brasileiros e brasileiras, recusem-se a vacinar a si e a seus filhos e filhas, porque foram bombardeadas com histórias absurdas, inclusive por incentivo do atual chefe do poder Executivo. Para estes, não vale o argumento do direito individual: não quando a vida de tantas outras pessoas está em risco por isso. Vacinar-se, quando possível, não é uma escolha difícil. Terminantemente não é! Para um país, cuja maioria se orgulha de se declarar cristã, assumir uma postura tão desumana de não se vacinar é a mostra mais cruel de que a declaração de crença não vale de nada!

Temos uma escolha difícil? Aqui, a Bíblia pode ajudar a torná-la explícita: "Cito hoje o céu e a terra como testemunha contra vós, de que vos propus a vida e a morte, a bênção e a maldição. Escolhe, pois, a vida [...]" (Dt 30,19). Citando Santo Agostinho, meu conselho: "ama e faz o que quiseres!"; assim, só continuaremos a errar, caso optemos pelo não-amor!

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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