Cultura

25/12/2020 | domtotal.com

A estrela de Giotto

Um brilho de esperança sobre o presépio

'A adoração dos magos' de Giotto
'A adoração dos magos' de Giotto (Wikimedia)

Fernando Fabbrini*

O menino toscano Giotto di Bondone era mesmo um prodígio. Pastor, porém com jeito para o desenho, pegava toquinhos de carvão e rabiscava ovelhas e carneiros perfeitos, encantando os adultos. Seu pai exibiu alguns desenhos a Cinni di Pepo, mestre fiorentino que fez do garoto seu aluno – e não se decepcionou. Aliás, di Pepo surpreendeu-se ainda mais ao perceber que Giotto – ao contrário de outros artistas da época – retratava as figuras dos santos como homens comuns. Dia após dia seu estilo original se afirmava. Havia algo de mais belo, de mais humano naquelas representações de figuras divinas. Sem saber, Giotto entrava em sintonia com as bases de uma nova visão humanista do mundo, um dos fortes conceitos do Renascimento.

O jovem Giotto também era um aprendiz brincalhão. Certa vez, invadindo o ateliê de seu mestre, pintou uma mosca sobre o nariz de um nobre ali retratado. Ficou tão perfeita a intervenção humorística que o professor tentou espantar o bicho, abanando a tela seguidas vezes, até descobrir o logro.

Giotto criou painéis, afrescos, mosaicos, crucifixos e inúmeras peças da arte sacra dos séculos 13 e 14. Sua extensa, variada e inovadora obra dispensa maiores comentários. Ela está presente em murais deslumbrantes de igrejas italianas, principalmente em Florença, Pádua, Assis e Roma e também no acervo de museus renomados.

Alguns séculos depois arqueólogos descobriram na igreja de Santa Reparata uma ossada singular. Pelas dimensões, pertenciam a um homem muito pequeno, quase um anão. Tudo indicava serem os restos de Giotto, falecido aos 70 anos e sepultado nessa mesma capela. Imagina-se que o artista, talvez compensando os limites naturais de seu corpo diminuto, desenhava sempre figuras altas, esbeltas.

É ainda atribuída a ele uma pequena curiosidade que alcançou nossos dias. Em um de seus passeios pela galáxia, o cometa de Halley riscou o céu do planeta Terra em 1301. Com pouco mais de 30 anos de idade, Giotto estava então no auge de sua carreira, trabalhando num mural de um presépio. Supõe-se que seu bom-humor tenha levado o artista a mais uma diversão, pintando o cometa brilhante e sua cauda sobre a manjedoura onde dormia a criança. O fato é que a imagem do cometa no alto do presépio virou tradição nas pinturas de muitos artistas que se seguiram. E hoje não pode faltar nos presépios montados pelas famílias cristãs, iluminando o Menino, seus pais, os reis, pastores e bichos ao redor.

Com a pitoresca história de Giotto, encerro meu sexto ano de crônicas semanais aqui no Dom Total. Agradeço a oportunidade de compartilhar ideias, textos e reflexões e desejo aos leitores um Natal luminoso e um novo ano cheio de esperanças. 

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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