Cultura

01/01/2021 | domtotal.com

Sozinho porque quer

Sem ninguém, mas em boa companhia

Estar em casa sem ninguém: solidão ou liberdade?
Estar em casa sem ninguém: solidão ou liberdade? (Unsplash/Ava Sol)

Fernando Fabbrini*

Uma das marcas do ano que acabou foi a discussão em torno do assunto "solidão". De fato, todos nós experimentamos certo grau de isolamento, cada qual na sua medida. "Ficar sozinho" pode ser inquietante para alguns, irritante para muitos e extremamente aterrorizante para outros. Aproveitando a atualidade do tema, um grupo europeu de estudiosos de comportamento traçou um perfil dos "novos solitários" do mundo. Nada muito sério nem profundo, mas diferente e esclarecedor.  

Há os solitários habituais por conta das circunstâncias. Podem ser idosos, com filhos morando longe; viúvos e viúvas; divorciados, solteiros e demais homens e mulheres com poucos amigos ou familiares. Sem problemas: já se acostumaram com a condição. Ontem, por exemplo, apenas esperaram a meia-noite para fazerem a grande virada – virarem-se na cama, de um lado para o outro.

A pesquisa mostrou que cresce o grupo daqueles que – independente das restrições da pandemia – preferem recolher-se à solidão voluntária e assim não sofreram demais com o isolamento. Já estavam acostumados, digamos assim.

Curiosamente, descobriram ainda que grande parte dessa gente tem traços de personalidade semelhantes. A mais frequente característica desses solitários é o gosto pelo silêncio e o recolhimento. Gostam de estar focados nos próprios sentimentos, nas reflexões, nas emoções particulares, fazendo arrumações na alma, por assim dizer. São também pessoas que sabem impor limites; não se submeteriam à companhia de gente chata ou sem afinidades apenas para estar com alguém.

Os novos solitários geralmente têm poucos amigos, não pertencem às grandes turmas ruidosas. Fizeram escolhas difíceis, algumas dolorosas, mas se fortaleceram com as provações. E por isso, conhecem-se muito bem. Nesses mergulhos, tomaram consciência de seus limites; sabem separar com segurança o essencial do supérfluo.  

Dentre outras características sugeridas na pesquisa, esta chamou-me a atenção: "os novos solitários se alinham com os sentimentos do mundo". O que seria isso? Um dos estudiosos explicou: "alinhar-se com os sentimentos do mundo é estar atento ao que acontece hoje por aí, além de nós – conflitos, fome, guerra, injustiça, desencontros, desesperanças". Ou seja: os novos solitários são também marcadamente solidários; têm como companhia fiel o resto da humanidade. Não é bonito?

Solitários ou gregários, no início do ano sempre surge em nós um desejo de renovação, de mudança interna, de novos sonhos. Tudo bem; depois desse 2020 bravo, a gente precisa mesmo fechar ciclos, marcar chegadas e partidas, soltar um "ufa!" No entanto, não podemos exagerar. Vale a pena armar-nos com novas esperanças, mas também não é necessário que joguemos fora assim-assim o antigo "eu", aquele do ano que terminou. Afinal, foi o "velho você" que segurou muitas barras em 2020, passou por dificuldades, decepções, corações partidos, sustos. E até agora, sobreviveu. Portanto, mais respeito e consideração com os passos que lhe trouxeram até aqui.

Os novos solitários devem ser aqueles também afinados com uma frase muito inteligente que li esta semana num livro: "Você chega em casa; não há ninguém, você está completamente só. Isso é solidão ou é liberdade? A escolha é sua."

Um bom ano para todos. Estamos precisando, mesmo.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas às sextas-feiras no Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!



Outros Artigos