Religião

01/01/2021 | domtotal.com

'E agora, José?' A vivência religiosa à luz das marcas de um velho ano

Em poucas palavras, perante tudo o que vivemos ou que poderíamos ter vivido ao longo deste ano, quais são as perspectivas de mudança que podemos semear?

Do muito e do novo que vivemos neste tempo, se bom ou ruim, devemos nos questionar: E agora, José?
Do muito e do novo que vivemos neste tempo, se bom ou ruim, devemos nos questionar: E agora, José? (Ben White / Unsplash)

Reuberson Ferreira*

E agora, José? Sozinho no escuro, qual bicho-do-mato, sem teogonia, sem parede nua para se encostar, sem cavalo preto que fuja a galope, você marcha, José! José, para onde?

Em 1942, Carlos Drummond de Andrade apresentou ao mundo, em sua coletânea chamada Poesias, um poema intitulado José. O primeiro verso dessa composição, tornou-se uma expressão corriqueira, pronta na boca, à espera de uma situação intrincada para ser evocada: E agora, José. A poesia, em seu todo, delineia um sentimento de solidão, abandono, finitude que aflige o homem na grande cidade. Revela o niilismo da vida, a falta de esperança e indica alguém, sem deuses ou seguranças, incapaz de descobrir que caminho seguir. José, um nome recorrente em nosso vernáculo, pode ser entendido como um sujeito coletivo, metonímia de uma população inteira.

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A experiência de José, narrada pela pena de Drummond, no lusco-fusco deste singular ano que passou, é emblemática para nós de uma preocupação com aquilo que vivemos e que poderemos viver. É sintomático de um olhar espelhado sobre nossas experiências espirituais ao longo do ano. Do muito e do novo que vivemos neste tempo, se bom ou ruim, devemos nos questionar: E agora, José? Ante das experiências sonhadas ou planejadas, mas não vividas, deveríamos nos perguntar: E agora, José? Face às realidades almejas do ponto de vista religioso, mas desfiguradas pelos contingenciamentos temporais, poderíamos nos interpelar: E agora, José? Em poucas palavras, perante tudo o que vivemos ou que poderíamos ter vivido ao longo deste ano, quais são as perspectivas de mudança que podemos semear?

Sem pedir licença tomou-nos de assalto abruptamente a pandemia. Perguntamo-nos, então: E agora, José? Decretou-se o lockdown, fechou-se o comércio, cerraram-se as escolas, trancou-se os portos e aeroportos, lacrou-se as Igrejas. O distanciamento social foi necessário. Questionamos, como viver experiências religiosas ou espirituais, normalmente comunitárias, num ambiente como este? 

Desse ponto, renasceu, mesmo que de maneira incipiente, a noção de casas como ambientes de espiritualidade, locais de fé. Quer mediados pelas superlativas lives, quer secundadas pela vivência pessoal de cada um, algumas experiências prenhes de uma mística do cotidiano foram vividas. Sem ufanismo, sabe-se que muitas outras experiências nesse sentido, soçobraram. Não havia suficiente e madura formação religiosa capaz de sustentar uma fé, longe dos templos. Assim desponta como um crisol de esperança, a necessidade de desenvolver uma mística da vida ordinária, uma espiritualidade do lar, da casa. O templo seria apenas consequência de uma fé vivida na interioridade da vida. Não se trata, portanto, de uma espiritualidade intimista, mas plural e universal, pois isola-se para salvar, alheia-se para cuidar da alteridade. Busca-se, em última instância, um encontro como totalmente outro: Deus.

Outra experiência místico-religiosa vivida neste tempo tem a ver com a realidade sacramental. No espectro católico, os sacramentos constituem parte importante do ethos religioso. A pandemia, com imperativo das restrições que portava, inviabilizou uma experiência religiosa concreta com os sacramentos, mormente a Eucaristia. Ante tal realidade a eloquente pergunta de Drummond se impõe: E agora, José? 

Diversas posturas foram tomadas. Houve aqueles que, resignados pelas circunstâncias vividas, assumiram uma espécie de sublimação dessa participação concreta no sacramento, buscando tornar mais aguda uma comunhão com Deus, mesmo que não sacramental. 

De outro lado, posturas açodadas criaram experiência desastrosas, como o drive-thru eucarístico que, na perspectiva católica, feria gravemente a unicidade do rito celebrativo. Ou houve, ainda, aqueles que vociferaram contra os dirigentes eclesiais, gritando: Devolvam as nossas missas! Criavam assim, uma espécie de jansenismo moderno, onde somente uma casta iluminada e fora do grupo de risco poderia e precisaria comungar.

Tanto uma postura como outra, revelam experiências desfiguradas da vida de fé. De um lado, a experiência de comunhão não sacramental é incompleta pois inviabiliza um elemento que é essencial para o catolicismo. De outro, a exigência inconsequente de acesso à Eucaristia apenas a um grupo, é reveladora de uma fé egoísta e individualista que não preza pelo bem e pela coletividade. Ambas indicam o singular lugar que o sacramento ocupa na vida de fé: Ele é necessário, mas deve ter um valor comunitário, de comunhão com Deus e com o irmão.

Retornando ao princípio, tanto a pergunta inicial do poema: "E agora José?" quanto a derradeira "José, para onde?" carregam em si um dinamismo. Elas indicam, a um só passo, perplexidade e movimento. O mesmo que pergunta, quer saber o caminho. O mesmo que se assusta é o que quer caminhar. 

Urge, assim, delinear o caminho pautado por uma mística do cotidiano, da capacidade de sentir e ver a presença do Divino no ordinário da vida. Igualmente, é necessário vencer uma ideia turva e jansenista dos sacramentos e contemplar na história uma verdadeira "mínima sacramentália", para que os sinais visíveis da graça invisível, admitidos pelas diversas tradições religiosas, sejam o corolário de uma fé que crê na atuação de Deus entre os homens.

Poema José, declamado por Carlos Drummond de Andrade 


*Reuberson Ferreira é religioso e sacerdote Missionário do Sagrado Coração. Mestre e Doutorando em Teologia pela PUC-SP



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