Cultura

15/01/2021 | domtotal.com

Fugindo do sistema

A aventura radical de Gene Rosellini

Chris McCandless, o Alex Supertramp, sentado à frente do ônibus que adotou como moradia
Chris McCandless, o Alex Supertramp, sentado à frente do ônibus que adotou como moradia (Reprodução)

Fernando Fabbrini*

Quanto tempo você viveria num ambiente adverso? Seria capaz de se abrigar, alimentar e sobreviver sozinho num lugar inóspito, longe das cidades e dos amigos? Sem comida, eletricidade, água encanada, geladeira, fogão, televisão e internet? Tudo indica que não. As pessoas viraram escravas da tecnologia, das facilidades, dos confortos da vida moderna. Com os celulares, então, a coisa ficou ainda mais crítica. Muitos jovens paralisam-se, entram em pânico e perdem todas as referências quando apenas afastados de seus smartphones e demais eletrônicos. Sobre essa perigosa dependência, há a anedota que traduzo livremente como "garotada-tirou da tomada-não faz mais nada".  

Inspirado por Thoreau, Whitman, Tolstoi, Von Humboldt e outros outsiders, nos anos 80/90 o ítalo-americano Gene Rosellini levou uma experiência de reclusão voluntária aos limites extremos. Atleta destacado, aluno exemplar na Universidade de Washington, notas acima da média, Gene lia obsessivamente livros de calistenia e artes marciais, praticando-as diariamente. Tornou-se um notável lutador de kung-fu, vencendo inúmeros torneios. Um de seus colegas contou que Gene enfiara na cabeça que a única saída para os humanos seria regressar a um estado primitivo das coisas, integrando-se totalmente à natureza. 

Assim, com pouco mais de 30 anos, Gene Rosellini mudou-se para o Alasca dizendo-se "interessado em saber se era possível ser independente da tecnologia moderna". Desprezando ferramentas existentes – machados ou serras, por exemplo – construiu uma choupana sem janelas onde passou a morar. Para cortar troncos e galhos Gene usava apenas pedras afiadas que exigiam horas, dias, semanas de trabalho árduo. Forte como era, não achava difícil.  

Comia raízes, frutas silvestres; caçava com lanças e armadilhas que ele mesmo fabricava. Não usava roupas; só trapos e peles de animais. Suportava o inverno do Alasca praticando halterofilismo e musculação sobre a neve. No verão, Rosellini corria quilômetros por dia carregando um saco de pedras nas costas – como constatado por um dos raros vizinhos com quem Gene conversava.

A aventura durou mais de uma década. Para surpresa geral, aos 49 anos Gene Rosellini desistiu de seu experimento radical. Voltou a morar na cidade, arrumou um emprego temporário no comércio e planejou dar a volta ao mundo a pé, apenas com uma mochila. Infelizmente, o fracasso anterior deixara marcas profundas no seu psiquismo. Gene Rosellini suicidou-se antes da viagem, em casa. Sobre a mesa, o clássico bilhete de despedida. "Chegou a hora de enfrentar a realidade do viver e do morrer. Adeus".

Cerca de um ano após sua morte, outro jovem – Chris McCandless, de pseudônimo "Alex Supertramp" – abandonou tudo para morar num ônibus velho também nos cafundós do Alasca. Seu drama virou o belo e inquietante filme Na natureza selvagem. Chris era admirador de Gene Rosellini, com quem trocava ideias a respeito da vida e do sentido de habitarmos esse mundo moderno e tantas vezes hostil, apesar de aparentemente acolhedor.

Em muitos casos, não há tecnologia, conforto ou facilidade que amenize as dores e indagações da condição humana. Vale a pena refletirmos sempre sobre isso – longe dos celulares, tablets e computadores, de preferência.

*Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas às sextas-feiras no Dom Total

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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