Religião

20/01/2021 | domtotal.com

O mito das pautas apartidárias

Neutralidade científica além de mito é risco para as questões humanas

É impossível o completo distanciamento entre o pesquisador e seu objeto de estudos
É impossível o completo distanciamento entre o pesquisador e seu objeto de estudos (Unsplash/Aaron Burden)

Fabrício Veliq*

Ainda é muito comum de se ouvir, principalmente quando se entra em alguma conversa sobre humanidades, a afirmação que se deve haver neutralidade nos discursos a respeito de determinado saber. Ou seja, se vamos falar de política, a discussão deve ser apartidária; se filosofia, esta também deve estar livre de tomar partido a respeito das coisas, preocupando-se somente em apresentar o que certo autor falou ou as teorias que compõem os pontos fundamentais de seu pensamento etc.

Nesse sentido, recorrem ao famoso mito da neutralidade científica, como se fosse possível alguém não se implicar subjetivamente em seu campo de estudo, abstraindo-se de todo arcabouço cultural, social, político no qual está inserido e que determinam em última instância até mesmo as leituras das realidades nas quais tais "cientistas" vivem.

Quando vamos para a teologia isso não é diferente. É também muito comum a ideia de que a teologia e os estudos acerca das religiões devam ser neutros, apartidários e, não raramente, pede-se o distanciamento do sujeito com relação ao objeto a ser estudado para que este possa ser analisado "de fora", com toda imparcialidade possível. Se por um lado seja importante o rigor acadêmico na pesquisa, ver os assuntos por diversos ângulos e perspectivas para avançar o conhecimento e buscar o mais universal naquilo que se estuda, por outro é impossível que tal distanciamento seja completo, justamente por causa daquilo que acabamos de mencionar no parágrafo anterior.

Com isso, chegamos novamente àquilo que temos falado ao longo de vários textos nesta coluna: toda teologia é fruto do seu tempo, da condição social de quem a faz, da cultura na qual determinado teólogo ou teóloga se insere. Não há uma teologia "em si", que exista em algum lugar nos céus e que precisa ser descoberta e sistematizada. Muito pelo contrário, o reconhecimento de que o fazer teológico é um esforço humano na tentativa de falar sobre o divino é fundamental para poder compreender que determinada teologia é feita por determinada pessoa em determinado século.

Nesse sentido, não há teologia apartidária. Fazer teologia é tomar partido de algo. Ao mesmo tempo, toda teologia se mostra, efetivamente, como política, visto que pressupõe um posicionamento efetivo com relação ao mundo que nos cerca. Se a teologia cristã fala a respeito de um Deus que se coloca ao lado dos pobres, essa teologia tem uma visão de justiça que passa, necessariamente, pela atuação política para a mudança de uma sociedade na qual os pobres são marginalizados.

Da mesma forma, quando lemos nas páginas do texto bíblico que não deve haver discriminação entre as pessoas, independentemente de sexo, raça e nação, ali também está um posicionamento político diante da sociedade daquele tempo. Ler tais textos fora desses contextos sociais, políticos e econômicos é não se atentar às propostas revolucionárias e subversivas que foram feitas ao longo de diversas passagens do texto bíblico.

Assim, o discurso apartidário em qualquer assunto humano, em última instância, traz em seu bojo a ideia do mito da neutralidade científica, tentando aplicá-lo aos contextos sociais, políticos e econômicos, que nada mais faz do que assumir que o status quo deva ser reconhecido como o melhor possível.

Diante disso, é tarefa teológica mostrar que toda proposta apartidária é, na verdade, assumir o partido dos que detém o poder e isso segue na contramão da proposta de Jesus Cristo, o subversivo de Nazaré.

*Fabrício Veliq é protestante e teólogo. Doutor em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), Doctor of Theology pela Katholieke Universiteit Leuven (KU Leuven), Bacharel em Filosofia e Licenciado em Matemática (UFMG) E-mail: fveliq@gmail.com. Site: www.fabricioveliq.com.br.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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