Cultura

21/01/2021 | domtotal.com

Crônica das antigas

Havia o caol ou o tropeiro do Aracon, à beira do recém-inaugurado viaduto da Lagoinha

Belo Horizonte na década de 1970
Belo Horizonte na década de 1970 (Arquivo Nacional)

Afonso Barroso*

Antigamente, nos meus tempos de ventura, diz o tango na voz de Nelson Gonçalves, e digo eu nesta crônica sem eira nem beira como as casas portuguesas de Ouro Preto. Pois digo eu que os meus tempos de ventura tinham coisas que hoje não existem mais. Como estilingues para matar passarinhos e o então caudaloso rio Jacuri, onde se nadava não nu, mas pelado. Tinha veados, mas só nas campinas e matas, correndo de cães e de caçadores que os abatiam para o almoço do domingo.

Antigamente, nos meus tempos de ventura, jogava-se futebol no largo de cima com bola de meia. Comia-se jabuticaba no pé. Tomavam-se chineladas das mães severas. Fazia-se a primeira comunhão e confessava-se periodicamente para contar ao seu vigário os pecados bobos ou cabeludos de cada dia. Jogava-se fincão e birosca (bolinha de gude) na rua. Apanhava-se tanajura, a formiga alada e de bumbum avantajado que aparecia em bando após uma chuvarada.

Antigamente, nos meus tempos de ventura, havia a Rua dos Cachorros, onde as cachorras de vida fácil recebiam os incautos. E havia, como complemento, o perigo da gonorreia, denominação popular da blenorragia, que costumava levar adultos e adolescentes ao farmacêutico para dolorosas injeções de penicilina.

Antigamente, nos meus tempos de ventura, havia serenatas à luz do luar ou até mesmo sem sinal de lua no céu. O importante era acordar a mocinha com os acordes do violão e uma voz mais ou menos afinada a entoar uma valsinha ou um samba-canção. Se ela acendia a luz ou abria a janela, era a glória da noite e motivo mais do que justo para uma cachacinha comemorativa após o sucesso da madrugada.

Antigamente, nos meus tempos de ventura, havia no meu interior bailes ao som de orquestras como Cassino de Sevilha ou Românticos de Cuba. Como aqueles músicos chegavam a lugares tão distantes, onde só havia estradas de terra, eis o mistério que jamais pude desvendar. E a gente dançava bolero ou chá-chá-chá, dois pra lá, dois pra cá. De rosto colado, nem sempre. Mas quando os rostos de colavam, era amor eterno enquanto durasse o baile.

Antigamente, nos meus tempos de ventura, já na Capital, havia o restaurante para estudantes debaixo do Cine Brasil, e havia o tropeiro e o caol do Aracon, à beira do recém-inaugurado viaduto da Lagoinha, ou o do Palhares, na Rua Tupinambás. Havia os bailes de Carnaval no DCE, no PIC, no Minas Tênis ou no Jaraguá. O melhor era o Baile do Marinheiro, no Iate Tênis Clube.

Antigamente, nos meus tempos de ventura, havia o Montanhês Dancing. Ah, o Montanhês! Era um cabaré luxuoso na Rua Guaicurus, onde mulheres selecionadíssimas recebiam os fregueses para uma dança no imenso salão cercado de cadeiras. O governador Juscelino Kubitschek, exímio pé-de-valsa, era frequentador, dizia-se. Pagava-se pra dançar. E para uma noitada de sexo, era só combinar o preço com a donzela cara e bela. Ali pela meia noite a pista era esvaziada para um show de strip-tease. Os homens ocupavam as cadeiras e a dançarina tirava a roupa enquanto saracoteava sensualmente no meio do salão, ao som de Rififi. Nunca ouviu Rififi? Azar seu. A um dado momento, a dançarina, completamente nua, escolhia um dos rapazes e sentava-se por uns breves momentos no colo dele.

Havia mais, muito mais. Mas, por enquanto, é o que tenho a dizer dos meus tempos de ventura antigamente vividos. Escrevi só pra mostrar, orgulhosamente, como sou antigo.

*Afonso Barroso é jornalista, redator publicitário e editor



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