Meio Ambiente

17/06/2021 | domtotal.com

Trabalho das mulheres em Galápagos garante produção nos campos e no oceano

Participação feminina é pouco visível, mas garante a sustentabilidade nas ilhas

María Sabando em sua barraca no mercado no porto de pescadores da ilha de Santa Cruz, em Galápagos
María Sabando em sua barraca no mercado no porto de pescadores da ilha de Santa Cruz, em Galápagos (Rodrigo Buendia/AFP)

As Ilhas Galápagos são famosas por sua fauna e flora únicas no mundo. Já sua agricultura em um solo hostil de rochas vulcânicas e a pesca artesanal são setores menos conhecidos, onde o trabalho das mulheres é essencial.

"No campo, muitas vezes há mulheres trabalhando, mas quem você vê na frente é um homem", lamenta María Elena Guerra, plantadora de café nas montanhas de Santa Cruz, uma das quatro ilhas habitadas deste arquipélago do Pacífico, 1 mil quilômetros da costa do Equador.

Essa mulher de 54 anos administra o Lava Java, uma das 50 plantações de Galápagos que, em 15 hectares, produz cerca de 75 quintais por ano do único café local certificado, biológico e de origem controlada. "Ainda acontece de, quando estou procurando gente para trabalhar comigo, vêm e perguntam do meu marido!", conta ela, sorridente e firme em suas botas de borracha.

"É um desafio ser mulher em qualquer área", ressalta esta defensora da igualdade de direitos, para quem "o principal desafio da agricultura aqui, em Galápagos, é a água", que depende das chuvas, na ausência de fontes, ou rios.

Heinke Jäger, da Fundação Charles Darwin (FCD), afirma que "as pessoas sempre ficam muito surpresas que tenha agricultura porque veem documentários com tudo seco", acrescentando que das 755 explorações agrícolas existentes, perto da metade é em Santa Cruz.

Homens mais visíveis

A ecóloga encarregada de um programa de conservação de espécies que envolve 40 agricultores confirma que "quase 75% das fazendas estão em nome do marido, mas na maior parte são as mulheres que estão fazendo o trabalho" sobre um "solo muito rochoso", "o que torna o trabalho muito difícil".

Com os primeiros raios de sol, María Elena percorre seus cafezais. Entre caminhos ladeados por rochas negras retiradas da terra, flores brancas perfumam o ar com aromas que lembram o jasmim.

Ao fundo, brilham as águas turquesas do Pacífico. A mulher verifica o reservatório artificial que rega a estufa onde crescem cerca de 2mil caules prontos para serem transplantados, protegidos por scalesias, árvores endêmicas do arquipélago.

"Ser orgânico, sem produtos químicos" implica renová-los sem parar para conter doenças, explica, antes de inspecionar legumes, acelgas e outras hortaliças que ela também vende para evitar a monocultura.

Galápagos depende 85% do turismo, agora arruinado pela pandemia, e tem cerca de 25 mil hectares de terras cultiváveis. Deste total, apenas 14 mil são explorados. São produzidos apenas 600 toneladas de alimentos por mês, quando seria necessário mais do que o dobro para que seus 30 mil habitantes fossem autossuficientes, segundo números oficiais. Os ilhéus precisam completar sua dieta alimentar com produtos do continente, mais caros.

Cérebros da pesca

Mais abaixo na ilha, perto do cais onde atracam barcos brancos e azuis, outras mulheres trabalham desde a madrugada no mercado de peixes de Pelican Bay. Leões-marinhos, pelicanos e iguanas disputam os restos da barraca de María Sabando, enquanto ela prepara o albacora (uma espécie de atum) e o espadarte, que se transformarão em deliciosos ceviches, ou assados. "Gosto muito do meu trabalho. Gosto que os clientes saiam felizes", disse esta senhora de 52 anos e olhos brilhantes.

A venda é apenas uma faceta da pesca artesanal, a única autorizada na reserva marinha de Galápagos, em torno da qual rondam os barcos de pesca industrial. O marido dela, Faustino, de 61 anos, sai ao mar uma vez por semana, durante três dias. Não saberia ficar sem Maria para "arrumar a mala, comprar combustível, pôr a isca", enfatiza a mulher. E "eu administro porque sei onde uso o dinheiro", acrescenta.

"Quando se pensa na pesca, você pensa sempre no ato de pescar, não no que é preciso para que isso seja possível a comida, a água, o gelo, porque os barcos não têm refrigeração etc.", lembra Nicolás Moity, responsável por um programa da FCD sobre igualdade de gênero no setor.

A cada 500 pescadores, 95 mulheres estão afiliadas a cooperativas, das quais 50% são gerentes. "Mas estimamos que isso represente mais ou menos 10% da quantidade real de mulheres", indica, ao considerar que é preciso "dar visibilidade" ao trabalho delas.

Antes, elas enfrentavam até o oceano. Algumas talvez voltem para o mar, agora que outras dirigem fazendas. Porque, segundo o biólogo, "as mulheres são os cérebros por trás de toda cadeia de valor associada à pesca". "Meu papel é fundamental, porque meu marido é o chefe do lar, mas eu sou um pilar fundamental!", destaca Sabando.


AFP/Dom Total



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