Cultura

12/11/2021 | domtotal.com

Desavergonhados

Que os atuais saiam pela porta fundo, de volta aos lugares lúgubres de onde vieram

Não queira falar sobre aquele que só desperta mais horror e náusea e nem tampouco da política nacional, a cada dia mais contaminada
Não queira falar sobre aquele que só desperta mais horror e náusea e nem tampouco da política nacional, a cada dia mais contaminada Foto (Unsplash/Akshar Dave)

Eleonora Santa Rosa*

Sem fôlego por um novembro que se iniciou com perdas irreparáveis não só para as artes, para a cultura, mas para todo o país, já imensamente depauperado pela pandemia e seu morticínio, que segue assistindo ao espetáculo deprimente da aprovação da PEC da farra financeira com fins eleitoreiros.

Embora não queira falar sobre aquele que só desperta mais horror e náusea e nem tampouco da política nacional, a cada dia mais contaminada e (de)composta por Liras e assemelhados em seus momentos de fama e fome por recursos públicos, no balcão de compra e venda dos áulicos de plantão, como não registrar as imagens de desespero crescente do exército de milhões de miseráveis que esse governo indecoroso só faz crescer e essa turma de congressistas só faz apoiar?

Desavergonhados sob o manto do auxílio financeiro aos famélicos, desempregados e deserdados pelo mercado e pela atual administração miliciana, que se locupletam e se fartam do que não lhes pertence, graças a pedaladas e à custa da desonra de decisões judiciais finais e do furo do teto de gastos. Cabe lembrar que essa malta votou pelo impeachment da ex-presidenta Dilma Rousseff com base em pedaladas fiscais, num dos episódios mais abomináveis da história da nação.

O golpe foi dado pelos que aí estão em sua maioria, membros de um Congresso desmoralizado, repleto de tipos horrorosos em todos os sentidos, com honrosas exceções (aliás, importantíssimas exceções), contaminado, em grande parte, pela mistura de profissão de fé na fé do dinheiro da União, das benesses corporativas, dos trens da alegria, das sinecuras, do nepotismo e dos lobbies, indecorosos.

Enfim, a cara do Brasil.  Alguns poderão dizer: mas sempre foi assim! Pode ser, no entanto, agora, nunca de modo tão esculhambado e promíscuo. Pastores, ‘ovelhas’, milicianos, ruralistas, achacadores, bajuladores, milicos, atiradores, comerciantes, ex-atletas e congêneres formam bancadas intrapartidárias, seguidoras do capitão e seu clã imerso em ‘rachadinhas’ e fake news.

Assim estamos e ainda estaremos por mais um ano de suplício e súplicas por novos tempos, de dissabores com os estertores dos rastros da destruição bolsonarista e com esperanças na renovação do espectro político da alta administração governamental. Que os atuais saiam pela porta fundo, na calada noite, de volta aos lugares lúgubres de onde vieram, desta feita, pelo voto eletrônico popular.

Recordando uma das Cantigas do Falso Alfonso el Sabio:

mil a mil vezes refrão
ouviu-se em simulação
pesquisa de opinião
manobra de aprovação
cada um com seu quinhão
de vaidade ambição
qual se quis homem de ação
mas genoma fê-lo anão
na retranca de poltrão
qual líder quis de nação
falar grosso em seu jargão
(...)
macaquear o padrão
do forasteiro patrão
vender ao pobre ilusão
ao rico dar comissão
pelo voto à transação
dos bens em alienação
(...)


Fragmento do poema Cantiga de São Gregório da Irrisão, de Affonso Ávila (2006)

*Eleonora Santa Rosa - Ex-secretária de Estado de Cultura de Minas Gerais, ex-presidente do Conselho do Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais - IEPHA, instituiu em sua gestão o Conselho Estadual do Patrimônio Cultural de Minas Gerais - CONEP. Implantou a primeira fase do Circuito Cultural da Praça da Liberdade, em Belo Horizonte e foi diretora executiva do Museu de Arte do Rio - MAR. Concebeu e implementou inúmeras ações e iniciativas referenciais no campo do Patrimônio Cultural, da Educação Patrimonial e de museus. Gestora, consultora e estrategista da área da Cultura, é autora de diversos artigos e do livro Interstício.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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