Religião

12/08/2016 | domtotal.com

Deus em tempos de crises: um exílio

Os momentos de crises são tempos profícuos para as narrativas da vida.

Os momentos de crises são tempos profícuos para as narrativas da vida
Os momentos de crises são tempos profícuos para as narrativas da vida (Reprodução)

Por Tânia da Silva Mayer*

Não há melhores narradores dos tempos de crises que aqueles e aquelas que se encontram submersos na obscuridade de uma época sem esperanças. A vida que pulsa criticamente nesses tempos difíceis é a mais capacitada para dizer o que anda acontecendo e, também, para propor outros rumos e outras direções. As vozes que se levantam para narrar a problemática histórica na qual se encontram, embora sejam condicionadas à sua própria experiência e visão de mundo, têm plenas condições para ler os acontecimentos hodiernos. Tais leituras não podem eximir-se da tarefa de recordar o passado, contemplar o presente e propor um futuro. Sem cumprir essa tarefa, correm o risco de se tornarem “profetas” caducos.

Os tempos de crises são bastante oportunos para ler e narrar a vida, como vimos em nosso artigo anterior. Os momentos de crises são tempos profícuos para as narrativas da vida, pois são elas que reacendem a fagulha da esperança que foi enfraquecida pela crise. O povo de Deus compreendeu essa dinâmica e a promoveu muito bem. Após a morte de Jesus, seus seguidores e seguidoras conviveram com o desejo de segui-lo e com a desilusão, fruto das dificuldades na divulgação da sua mensagem. As pressões externas e as perseguições somadas à distância que estiveram do Mestre fizeram com que um mal estar surgisse nas comunidades que se organizavam ao redor de uma mesma fé. Foi concomitante a estas dificuldades que lideranças perceberam a necessidade de narrar os fatos que envolvem a vida de Jesus e a ele se relacionam. E numa espécie de catequese para o Mistério da morte e ressurreição de Cristo, propuseram-se a narrar a própria vida comunitária no horizonte Pascal de Jesus, como gênese da própria experiência cristã. Desse modo é que os Evangelhos são compreendidos como narrativas para os tempos críticos, em que cristãos e cristãs urgenciam fundamentar e fortalecer a fé.

 O exílio da Babilônica Talvez a maior delas tenha sido o exílio na Babilônia. Era o ano 597 a.e.c., ou outro mais próximo a este, Nabucodonosor da Babilônia iniciava mais uma campanha violenta e um dos momentos mais sofridos para o povo. Sua política era muito clara: ele ocupou e sitiou a cidade de Jerusalém, e deportou muitos habitantes para a Babilônia. Os nobres do povo, a elite artística, sacerdotal, profética foi despatriada; o templo foi destruído juntamente com a cidade. Os pobres ficaram às mínguas. Eram tempos difíceis:

 

Ah!, Como ficou abandonada a cidade populosa. Aquela que dominava as nações parece uma viúva. A antiga capital das províncias agora é escrava. Banhada em lágrimas de dor, chora a noite toda. De todos os antigos amantes, nenhum a consola. Os antigos aliados a enganaram, parecendo inimigos. Como um triste e pobre escravo, foi Judá para o exílio. Morar entre povos gentios, onde paz não encontra. Quem com dura opressão o perseguia conseguiu agarrá-lo. Deploram-se os caminhos de Sião, ninguém para a festa. As portas estão destruídas, choram os sacerdotes. Nossas jovens estão deprimidas, é a cidade da amargura. Estão vitoriosos os opressores, felizes, os inimigos. (Lm 1,15a.)

 

Em meio a tantas crises, só a esperança lhes dizia respeito. Esperança que foi encarada como oportunidade para reconhecer limites e construir uma nova vida. Particularmente, os exilados na Babilônia foram distanciados da sua pátria, da sua terra, do seu templo, dos seus costumes. Da condição de nobres, tornaram-se escravos de uma gente que não era a sua. Isso significou a conversão dos valores dos que foram exilados. Por outro lado, os pobres que restaram na cidade desolada, muitos destes foram escravizados nos tempos de paz, tornaram-se sujeitos da própria vida que continuava ameaçada pelos povos estrangeiros. Restava, agora, dar tempo ao tempo.

Precisamente, essa parada no tempo significou um respiro para o povo, respiro porque nestas circunstâncias é preciso reconhecer-se e reconhecer a vida no jogo da história; respiro para recordar-se dos tempos de paz, outrora vividos; respiro para esperar contra toda esperança. O exílio da Babilônica trouxe pranto aos rostos sofridos, mas, por outro lado, trouxe a esperança a um povo que vagava sem sentido havia tempo. E não estamos falando de uma simples esperança, mas daquela esperança que resiste à tristeza e à dor desejando que a vida possa ser maior. E será.

*Tânia da Silva Mayer é Mestra e Bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); Cursa Letras na UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Escreve às sextas-feiras.

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