Religião

23/09/2016 | domtotal.com

O drama dos refugiados, uma questão humanitária

Das periferias existenciais, os refugiados se encontram na periferia das periferias.

Milhares saem de seus países por uma questão de sobrevivência.
Milhares saem de seus países por uma questão de sobrevivência. (Manu Gomez/ Fotomovimiento)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Uma das experiências mais traumáticas para o povo de Israel foi o exílio da Babilônia, em 587 antes da era cristã. De tão traumática, a experiência resultou numa ressignificação da fé. A fé do povo de Israel nasce com a libertação da escravidão no Egito e se firma com a Aliança entre Deus e o povo, tal como nos narra Ex 19. A posse da terra, como cumprimento da promessa feita por Deus, significa o fortalecimento da identidade do povo da Aliança. O não direito à terra, nesse sentido, significou forte ruptura com essa identidade, colocando a fé do povo em crise e diante da urgência de ressignificação.

O Salmo 137 (136) aborda a questão, manifestando os impactos existenciais na vida do povo: "Na beira dos rios de Babilônia, nós nos sentamos a chorar, com saudades de Sião. Nos salgueiros ali perto penduramos nossas cítaras [...]" (vv. 1-2). A dor da partida reafirma a memória e mexe profundamente com o povo, fazendo-o desejar a vingança: "Filha de Babilônia, devastadora, feliz quem te devolver o mal que nos fizeste! Feliz quem agarrar e esmagar teus recém-nascidos contra a rocha!" (vv. 8-9). A dureza da fala, vinda da mais legítima revolta, choca-nos, mas nos ajuda a perceber a dor da perda da própria terra, chão da própria identidade.

Todos os anos, milhares e milhares de pessoas saem de sua terra, em busca de melhores condições de vida. Entre esses milhares e milhares saem de seus países por uma questão de sobrevivência. A situação dos refugiados é verdadeiro drama humano, que precisa ser pensado e situado na dinâmica da busca pela realização da humanidade. No mundo todo, a questão das pessoas que deixam sua própria terra é exigente e reclama muita atenção. Mesmo sendo uma questão de sempre, apenas há pouco tempo o mundo volta seu olhar para a situação. Das periferias existenciais, os refugiados se encontram na periferia das periferias.

Nos campos de concentração, padecem a não hospitalidade: saídos de sua terra, em busca de possibilidades de vida, sobrevivem, quando não sucumbem antes da chegada. No lugar de portas abertas, encontram muros e cercas, são condenados à "prisão da exclusão": presos do lado de fora. No mundo globalizado não há lugar para pessoas, como cidadãs do mundo, apenas para riquezas de uns poucos, de mercadorias e de apropriação dos bens naturais dos países não desenvolvidos e da força do trabalho de seus habitantes.

Junto ao drama dos refugiados, vítimas de guerras que não lhes dizem respeito, cresce o discurso de ódio, não hospitaleiro, xenófobo e extremamente preconceituoso quanto à religião dos refugiados. Nos discursos nacionalistas, o fechamento ao outro, mas a permanente abertura às riquezas apropriadas dos países desse outro. Na linguagem popular: um constante "venha a nós o vosso Reino" e nada de "seja feita a vossa vontade". Os refugiados não existem: são anulados, desumanizados. A situação exige responsabilidade por parte dos líderes mundiais. E isso significa transformar as realidades que causam a fuga das pessoas de seus próprios países, tal como as guerras movidas por interesses econômicos e de dominação. A fala de Jesus seja insistente entre nós: "Entre vós não deve ser assim" (Mc 10,43).

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*Felipe Magalhães Francisco é mestre em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Coordena a Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).

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