Religião

21/10/2016 | domtotal.com

O Senhor esteja convosco

Sobre as diferenças no exercício ministerial leigo e ordenado.

Celebrações presididas por leigos gozam da sacramentalidade da Palavra.
Celebrações presididas por leigos gozam da sacramentalidade da Palavra. (paroquiasaocamilo.org.br)

Por Pe. Márcio Pimentel*

Somos uma Igreja concebida também hierarquicamente. Falar em hierarquia é falar de poder e da maneira de ordená-lo ou organizá-lo. Conforme o Concílio Vaticano II, na Constituição Dogmática sobre a Igreja, Lumen Gentium, a natureza hierárquica da Igreja orienta-se para manifestar, numa diversidade de matizes, a soberania e o governo de Cristo, como servo obediente e fiel. Deste modo, o poder e o seu exercício na Igreja estão em razão do serviço, em ordem de uma ministerialidade, portanto. Afinal, pela regra do Evangelho, o primeiro deve, sempre, ser aquele que serve.

Na Liturgia, quando a Igreja se faz explicitamente visível, esta compreensão do poder e seu exercício se encarna mediante a ritualidade. Deste modo, haverá também – sempre em razão da perspectiva do Evangelho – uma maneira de se ordenar o poder e, portanto, de reger a ministerialidade. Esta seria a chave interpretativa para o número 28 da Constituição sobre a Sagrada Liturgia Sacrosanctum Concilium: “Nas celebrações litúrgicas, limite-se cada um, ministro ou fiel, exercendo o seu ofício, a fazer tudo e só o que é de sua competência, segundo a natureza do rito e as leis litúrgicas”. Vejamos que a “competência” (munera) se estabelece a partir do lugar de exercício do poder ministerial, sejam estes ministros ordenados ou laicos, bem como em relação à natureza ritual, ou seja, as exigências intrínsecas à linguagem celebrativa, e às normas instituídas – em geral – para garantir as duas condicionantes anteriores.

Trocando em miúdos, o que se diz e se faz numa celebração tem a ver tanto quanto ao lugar que os cristãos se situam no âmbito do corpo eclesial (no caso de exercício ministerial, se ordenado ou leigo) bem como da própria estrutura e constituição dos ritos, que as leis litúrgicas devem resguardar. Aplicando estas noções a um caso típico:  a presidência da celebração eucarística. Do ponto de vista hierárquico, ou seja, da ordem de poder em razão do serviço, a presidência somente pode se dar por um ministro ordenado com múnus sacerdotal, ou seja, o Bispo ou o Presbítero. O Diácono está, evidentemente, excluído desta possibilidade, assim como qualquer ministro leigo. Basta este fato para deduzir, por exemplo, que as formas de saudação presidencial se apliquem a um e ao outro indistintamente? O Ordo Missae testifica que não, uma vez que dentre as saudações propostas na Editio Typida, a última – “A paz esteja convosco” – está reservada para o Bispo. Mas esta mesma saudação retorna, no entanto, no rito do abraço da Paz, sendo que o presbítero poderá dela fazer uso. Aqui temos uma questão relativa à dimensão estrutural e constitutiva do rito que se define em conexão do poder ministerial do Bispo. Isto é, embora a formulação “A paz esteja convosco” seja possível para os dois ministros ordenados (bispo e presbítero), como saudação inicial se resguarda para um deles, dado o sentido teológico a ser comunicado. Aqui, o ministro ordenado presbítero não tem competência devido à constituição do rito de pronunciar a mesma fórmula do ministro ordenado epíscopo. Portanto, o uso de uma fórmula eucológica não está apenas ligada ao caráter hierárquico, mas à especificidade da celebração, à sua natureza ritual e sua relação com a ministerialidade e, em alguns casos, ao lugar existencial do ministro, como veremos (se é pai de família, por exemplo).

A ritualidade na Igreja haverá de ser compreendida não apenas como aparato cerimonial, exterior, superficial e secundário, mas como maneira primordial de servir à Palavra de Deus. O que devem garantir os ministros ordenados ou laicos senão a primazia da Palavra Divina? E como fazê-lo, senão, permitindo que Deus se comunique e comunique a si mesmo ao mundo, tornando-nos interlocutores? E como experimentar esta verdade fundamental de nossa fé – que Deus se quer dar a conhecer e conviver conosco – abrindo mão do primeiro lugar no qual Ele se faz presente: nossa carne? Falar, portanto, de ministerialidade em razão da Palavra de Deus é encontrar o exato sentido para a ritualidade, como interpretação simbólico-sacramental do Verbo da Vida, como sua realização e cumprimento no tempo e espaço. E este “quando” e “onde” coincidem, primeiramente, com o ser humano que se realiza neste mundo corporalmente. Em nossa carne animada, viva, itinerante, Deus se dá a conhecer: acompanha nosso andar, nossos ritmos e em nós faz morada, convertendo-nos em templos vivos. Não importa se ordenados ou leigos, os ritos dos quais ambos participam, embora em modalidades às vezes diferentes e noutras, como iguais, tem por objetivo comunicar a presença do Senhor pela sacramentalidade da Palavra de Deus.

Quando os leigos presidem: as Celebrações da Palavra de Deus

Ocorre, pois, o mesmo nas celebrações presididas por ministros leigos. Lê-se em alguns documentos da Igreja, que não se deveria chamar a “coordenação” de uma celebração por ministros leigos de presidência. Esta maneira de compreender as coisas é restritiva, conforme aborda Pe. Danilo Cesar em seu artigo “A celebração da Palavra como ação de Cristo”. Estas celebrações presididas por leigos e leigas existem, são várias e não são invenção ou novidade de “liturgistas moderninhos”. São verdadeiras Celebrações da Palavra de Deus e gozam da sacramentalidade desta mesma Palavra. Verificaremos, inclusive, que se opera da mesma forma ora reservando fórmulas e gestos, ora tendo-os em comum no que concerne aos ministros ordenados ou não. Vamos aos exemplos:

No Ritual do Matrimônio:

Enquanto a saudação é completamente distinta daquela dos ministros ordenados, a aceitação do consentimento é exatamente a mesma, e a bênção das alianças se distingue pela extensão e pela ausência do gesto do sinal da cruz. A bênção nupcial é alterada em alguns trechos, sendo que o conteúdo é praticamente o mesmo apenas privando o ministro do gesto “epiclético”.

No Ritual de Bênçãos:

No formulário de bênção de filhos, que pode ser usado pelo Bispo, Presbítero, Diácono, pelos pais ou um ministro leigo a saudação inicial é diferenciada para o ministro ordenado (A graça da parte de Deus Pai, que nos adotou como filhos esteja convosco) e para presidência leiga (Irmãos, vamos louvar a Deus Pai que nos fez seus filhos adotivos). Mas a fórmula de bênção é idêntica para ministros e não para pais; se forem pais, tanto a fórmula é diferente como se acrescenta o gesto da marcação com o sinal da cruz na fronte dos filhos. Há ainda uma fórmula breve de bênção que pode ser usada também noutros contextos celebrativos: “O Senhor te proteja e te faça crescer em seu amor, a fim de que possais corresponder dignamente à vocação que foste chamado”. Não se distingue para esta fórmula quem a pronuncia.

A bênção de noivos traz em seu formulário duas propostas. A primeira, pode ser usada indistintamente por ministros ordenados ou ministros leigos, resguardando a imposição das mãos para quem é ordenado. A segunda, reservada para estes últimos acrescentando o sinal da cruz. Interessante o formulário de conclusão cujo teor não “envolve” quem a pronuncia, indistintamente de ser ministro ordenado ou leigo: “O Senhor, Deus de amor e de paz, habite em vós, oriente os vossos passos e confirme os vossos corações em seu amor”. Se nos baseássemos, por exemplo, na simples distinção hierárquica, o ministro leigo deveria dizer: “O Senhor, Deus de amor... habite em nós... oriente nossos passos e confirme os nossos corações etc”. Mas não é isto que se prevê.

Na bênção depois do parto, nas possibilidades de conclusão do rito, mantem-se a construção no imperativo e na segunda pessoa, seja para ministros ordenados (Deus, fonte e origem de toda a vida “te” proteja com sua bondade etc.) seja para ministros leigos (A misericórdia de Deus Pai todo-poderoso (...) guardem a “vossa” vida). Altera-se a conclusão da bênção.

Na bênção com comunhão fora da missa, o ministro leigo diz: “Senhor Deus, todo poderoso, que transmitistes a estes vossos filhos vida longa, dignai-vos comunicar-lhes vossa bênção etc”.

Na bênção de enfermos, os formulários são específicos, mas, em nenhum deles o ministro, ordenado ou leigo se inclui (ministros ordenados: “nós vos pedimos que abençoeis”– e faz o sinal da cruz; ministros leigos: “erguei estes vossos filhos”, fazendo o sinal da cruz na fronte de cada um).

No Ritual de Iniciação Cristã de Adultos (RICA) há celebrações que podem ser presididas pelos catequistas leigos. Para eles, que devem ter parte ativas nos ritos se prevê as mesmas orações de bênção dos ministros ordenados e com os mesmos gestos de imposição das mãos. Também podem proceder com as fórmulas dos exorcismos menores, cujo rito prevê, igualmente, imposição das mãos.

Conforme pudemos notar, os exemplos de Celebração da Palavra em circunstâncias plurais e objetivos diversos nos permitem compreender que uma determinada fórmula e/ou gesto litúrgico podem ser comuns ou reservados para o uso ministerial tanto ordenado quanto laico. Com isso, queremos dar um passo hermenêutico em relação à substituição do uso da fórmula “O Senhor esteja convosco” pela presidência litúrgica leiga, pela “O Senhor esteja conosco”.

Pela atualidade das leis canônicas e também litúrgicas, há celebrações e ritos específicos que são restritos para determinada qualidade de ministros. Em todos os casos, no entanto, o que está em jogo será sempre o diálogo do Cristo total – cabeça e membros, a Igreja – com o Pai pelos vínculos do Espírito. Isso se aplica tanto à Missa quanto à Bênção de Filhos. Afinal, não se pode retalhar o Corpo de Cristo, pensando-o acéfalo, numa celebração litúrgica pelo fato de não ser presidida por um ministro ordenado. Isto não tem o menor cabimento.

Já vimos que não é a fórmula por si mesma e tampouco o qualitativo ministerial por si só que define os usos, mas a complexidade da trama ritual e seus contextos, incluindo o rol ministerial, litúrgico e existencial (ora, um presbítero ou um bispo não abençoam os filhos dos outros com a mesma fórmula e gesto dos pais, conforme o ritual de bênçãos prevê). Uma vez que a questão é relativamente nova (da presidência leiga) é necessário promover estudos sérios para compreender bem a questão e propor soluções para além daquelas que já possuímos, verificando como se comporta a tradição litúrgica.

O Ritual do Matrimônio, por exemplo, prevê, para o caso da assistência leiga, que o Leitor (que não necessariamente será quem oficia) saúde com uma fórmula específica: “Ouvi, irmãos, a Palavra do Santo Evangelho, escrito por N.” Esta saída é bem melhor do que a anômala saudação “O Senhor esteja conosco. Em casos de estudo, vale a pergunta: um ministro leigo pode dizer “O Senhor habite em vós” como presidente de uma Celebração da Palavra de Deus conforme o Ritual de Bênçãos (bênção de noivos), não poderia ele também saudar a assembleia numa Celebração da Palavra de Deus não-eucarística com “O Senhor esteja convosco”?

Eis a opinião do Pe. Gregório Lutz:

“Nesse sentido, seria só coerente que também um leigo que preside uma celebração dissesse: “O Senhor esteja convosco” e “Abençoe-vos...”. Como isso não se negaria a conformidade especial dos ordenados com Cristo-Cabeça de sua Igreja. Por outro lado, não seria uma solução boa dizer como, às vezes, os padres e mesmo bispos o fazem: “O Senhor esteja conosco”, porque assim não ficaria claro e evidente que a Igreja é um corpo com muitos membros e uma cabeça. Aliás, aquilo que a Igreja aprendeu de Jesus e costumou fazer durante dois mil anos, penetrou tão profundamente nos costumes humanos, que isso nos permite observar uma verdadeira e profunda inculturação. Pois não somente dizemos “Bom dia” quando nos encontramos e nos cumprimentamos, mas, dirigindo-nos à outra pessoa, também dizemos “Como vai?” e, na despedida, “Passe bem!” e “Vai com Deus!. E quando o filho pede a bênção ao pai, este dirá: “Deus te abençoe!”. Ninguém diria: “Como vamos? Passemos bem! Deus nos abençoe!”.[1]

[1] LUTZ, Gregório. O Senhor esteja convosco. Liturgia em mutirão. CNBB. www.cnbb.org.br. Acessado dia 10 de outubro de 2016.

Leia também:

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* Márcio Pimentel é presbítero da Arquidiocese de Belo Horizonte, especialista em música ritual pela FACCAMP, em Liturgia pela PUC-SP, licenciando em Educação Musical pela UEMG. Atualmente exerce a função de assessor eclesiástico para a Liturgia na Arquidiocese de Belo Horizonte e preside pastoralmente uma comunidade paroquial.

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