Religião

30/12/2016 | domtotal.com

Paz entre as religiões: uma utopia possível e, cada vez mais, necessária

Todos saem ganhando quando a cultura da paz é celebrada e concretizada entre vizinhos, familiares, amigos, povos, nações, etnias e religiões.

Se não nos comprometermos com o testemunho e a educação para a paz, ela não haverá.
Se não nos comprometermos com o testemunho e a educação para a paz, ela não haverá. Foto (Reprodução)

Por Edward N.M.B. Guimaraes*

Não é difícil perceber, pela via da memória, que, no nível humano, ao contemplarmos os diversos acontecimentos da história, todos perdem quando não há paz entre vizinhos, familiares, amigos, grupos, povos, nações, etnias e religiões. Perdem inclusive aqueles que saem vitoriosos de conflitos, quando os inimigos são derrotados ou massacrados e os mais fracos subjugados. Todos perdem porque a violência nos desumaniza, nos embrutece e nos empobrece. Ela cria muros, impede o desenvolvimento do senso do coletivo e o cultivo da sensibilidade para com os excluídos. Não por falta de bom senso, todo ser humano carrega potencial de agressividade para a violência.

Mas o contrário também é verdadeiro, convincente e contagiante. Todos saem ganhando quando a cultura da paz é celebrada e concretizada entre vizinhos, familiares, amigos, povos, nações, etnias e religiões. E, por mais paradoxal que seja, todo ser humano abriga profundo potencial para o compromisso ético com a paz.

Neste caso, temos que afirmar que não compreendemos a paz como a mera ausência de conflitos violentos, de guerras entre os seres humanos. É muito mais do que essa ausência. Ela implica a materialização da justiça, a delimitação clara de limites e a afirmação compartilhada consensualmente de um mínimo de princípios éticos universais. Mas, antes de pensarmos sobre a paz na convivência entre as religiões, deixemo-nos guiar por dois pressupostos.

O primeiro é deduzido de um postulado atribuído ao grande líder da África do Sul, Nelson Mandela, e que lhe fazia teimosamente acreditar no caminho trilhado por ele para a construção da paz:

Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou ainda por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, elas podem ser ensinadas a amar.

Confesso que nunca procurei as fontes dessa afirmação de Mandela, mas para quem conhece a sua trajetória não é difícil atribuir-lhe credibilidade. Não haverá paz entre nós se não nos comprometermos com o testemunho e a educação para a paz.

O segundo explicita-se de uma afirmação categórica do grande teólogo suíço Hans Küng, um homem profundamente comprometido com a cultura da paz, logo no início de seu livro “Religiões do Mundo. Em busca de pontos comuns”:

Não haverá paz entre as nações, se não existir paz entre as religiões. Não haverá paz entre as religiões, se não existir diálogo entre as religiões. Não haverá diálogo entre as religiões, se não existirem padrões éticos globais. Nosso planeta não irá sobreviver, se não houver um ethos global, uma ética para o mundo inteiro.

De fato, não haverá paz entre nós se não criarmos as condições básicas para que ela seja possível e que tenhamos horizonte esperançado de futuro.

A paz entre as religiões como utopia possível e necessária

Quando lançamos mão, aqui, do termo “utopia” não estamos olhando no retrovisor da história, pois, assim, constataríamos que a paz seria, simplesmente, reduzida a uma espécie de sonho nunca realizado entre os seres humanos. Ao contrário, estamos mirando esperançadamente para o futuro. Com rigor etimológico, a concebemos na dialética do tempo passado-presente-futuro, como aquilo que ainda não encontrou lugar pleno ou definitivo entre nós. Por se tratar de realidade dinâmica e processual, a paz pode vir a ser concretizada entre nós de forma crescente. Tudo dependerá de nossas posturas e atitudes.

Três razões que me levam a crer firmemente que a construção da cultura da paz entre as religiões é uma utopia possível.

Primeiro, porque, por experiência própria, quando a religião conserva-se exclusivamente como mediação para a experiência luminosa do amor de Deus, sem qualquer pretensão de absolutizar-se, ela favorece a experiência da universalidade da dignidade humana na singularidade de cada pessoa. Ela conserva como único centro, em torno do qual tudo gravita, o mistério luminoso e inesgotável do amor divino. Desse modo, a experiência religiosa transforma e expande o coração do fiel até que este se torne a casa de todos. Passa, então, a acolher cada ser humano, independente de quem ele seja, como hóspede da humanidade. Supera-se, assim, toda forma de preconceito. Os muros, que antes impediam a aproximação, se transformam em pontes de diálogo e partilha fraterna.

Segundo, porque a humanidade já nos ofereceu inúmeros exemplos de homens e mulheres, líderes religiosos ou não, que reconheceram a beleza da pluralidade religiosa. Tais pessoas se tornaram buscadores de diálogo fraterno e forjaram sedutores e belos itinerários inter-religiosos. Reconheceram a presença do mistério do amor de Deus em cada pessoa e em cada religião. Constataram que nenhuma religião conseguiria e nem poderia, sem apequenar-se ou deturpar-se, pretender abarcar a totalidade da beleza divina. Além disso, mostraram que todas as religiões são históricas e por isso necessitam continuamente cultivar o processo de aperfeiçoamento.  

Terceiro, porque quando concretizam entre elas oportunidades de proximidade, respeito mútuo e diálogo fraterno, as religiões tendem a superar as próprias ignorâncias e preconceitos. Passam, então, a perceberem o gigantesco patrimônio comum e as muitas possibilidades de trabalhos que podem fazer juntas no campo do cuidado e da defesa da vida, realidade muito mais valiosa e coerente com seus princípios estruturantes do que a de apegar-se apologeticamente às suas legítimas diferenças e singularidades.

Na história da humanidade, muitas guerras e práticas violentas, infelizmente, foram promovidas e justificadas por meio de interpretações fundadas pretensamente em determinada tradição religiosa. Muitos líderes religiosos, em nome da defesa ou da propagação de suas tradições, também promoveram e justificaram violentas ações apologéticas ou sangrentas perseguições aos fiéis de outras denominações ou a pessoas que se assumem sem vínculos religiosos ou sem-crença em alguma divindade. Sim, a vivência da religião, como a do amor, pode infantilizar, cegar e semear intolerâncias e violências. Nem por isso pede o seu valor.

Por mais que saibamos que tais práticas ainda permaneçam presentes no contexto atual da humanidade, reconhecemos que temos incontáveis reflexões críticas, inclusive de líderes religiosos, que descontroem a legitimidade ética e religiosa de tais lógicas, quase sempre facilmente caracterizadas como fundamentalistas, fanáticas e doentias.

Mas o que nos leva a afirmar a paz entre as religiões como utopia necessária funda-se na dimensão antropológica da religião. Não obstante sua ambivalência intrínseca, a religião alimenta as fontes de esperança e sustenta os horizontes de sentido das pessoas. Por isso elas são chamadas a assumir, com corresponsabilidade, a tarefa coletiva de educar para a justiça e a paz. As religiões precisam ajudar seus fiéis a se tornarem pessoas mais humanas, conscientes e corresponsáveis pela coletividade, pela inclusão de todos na mesa da dignidade, pela concretização da sociedade pautada na justiça e na paz.

As religiões, geralmente, consolidam autênticas tradições de sabedoria, trabalham pedagogicamente a interioridade humana, promovem a internalização de princípios éticos e impulsionam seus fiéis para a configuração de uma vida coerente com valores humanos: coragem nas travessias, fé e esperança no enfrentamento das dificuldades, amor ao próximo, prática da justiça, solidariedade fraterna, partilha com os mais pobres, hospitalidade, desapego, cuidado com os idosos e com a casa comum, dentre outros.

O desafio maior está na superação da prática da autorreferencialidade e do proselitismo, aprendendo a dar as mãos na defesa da justiça, da dignidade da vida e da paz. Nesse contexto mundializado, o futuro da humanidade passa pela construção da paz entre as religiões e da consolidação do compromisso destas com a prática da justiça, da igual dignidade de cada ser humano e da cultura da paz entre as pessoas, grupos, povos e nações.

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*Edward Neves Monteiro de Barros Guimaraes é teólogo leigo, doutorando em Ciências da Religião, professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, onde atua como secretário executivo do Observatório da Evangelização.



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