Religião

06/01/2017 | domtotal.com

A necessidade do diálogo na busca pelo sentido

Sugestão e suposição de que as divindades cultuadas pelas religiões afro-brasileiras seriam manifestações do demônio têm gerado ataques verbais agressão física.

O diálogo deveria ter por objetivo o acolhimento do outro.
O diálogo deveria ter por objetivo o acolhimento do outro. (Raul Golinelli)

Fr. Célio de Pádua Garcia,op*

O diálogo não deveria ser investido de um caráter de convencimento do outro com quem se dialoga, mas, sim, ter por objetivo o acolhimento do outro. Respeitando, principalmente, o que ele apresenta de diferente e novo na sua maneira de conceber e expressar seu relacionamento com o que considera pertencente à esfera do sagrado. O respeito à identidade do outro e à sua religiosidade deveria ser, portanto, o elemento mais importante dessa experiência com a alteridade.

Para Faustino Teixeira (2010, p. 159), “o diálogo inter-religioso envolve uma ampliação do olhar, uma capacidade de enxergar com largueza”. E ressalta, ainda, como sendo uma disposição fundamental ao diálogo, “a escuta e a prontidão de aprendizado”, chamando atenção para o fato de que “o diálogo não apaga as diferenças” (Teixeira, 2010, p. 160). Assim sendo, as identidades dos interlocutores, construídas a partir de experiências espirituais no interior de sua tradição religiosa, devem ser preservadas. Faustino conclui seus apontamentos afirmando que, frente aos desafios da atualidade, gerados pela intensa comunicação entre as diversas civilizações e culturas, as religiões que “deixam em aberto a essencial tarefa de oxigenar de sentido a humanidade perdem sua relevância” (Teixeira, 2010, p.163).

No Brasil, embora a constituição do campo religioso brasileiro tenha se originado a partir do encontro entre tradições religiosas diversas, resultando num sincretismo singular, tal fato não parece contribuir para uma ampla abertura ao diálogo entre os diferentes segmentos religiosos que o compõem. O que se pode observar, por parte de alguns grupos religiosos, é um empenho em resguardar suas fronteiras e firmar posições de hostilidade e resistência contra outras denominações religiosas.

 A religiosidade cristã do Brasil, tanto na sua vertente protestante quanto católica, acostumou a enxergar tudo que não fosse cristão como sendo seita ou heresia. Desde o início, a convivência não passou pela possibilidade de se manter um diálogo ou cooperação entre as mais variadas tradições religiosas. O outro sempre foi visto como inimigo a ser conquistado. Isso causou disputa pelo mercado religioso, gerando demonização e perseguição, principalmente das tradições indígenas e de matriz africana. Historicamente, temos dificuldade de conviver e até mesmo reconhecer a diversidade.

No Brasil, a maioria dos casos de intolerância religiosa tem sido causada por grupos pentecostais e neopentecostais contra as religiões afro, principalmente Umbanda e Candomblé. Todavia, é necessário destacar que a intolerância se faz presente em nível mundial em todos os grupos. Nesse sentido, há casos de intolerância envolvendo cristãos e muçulmanos, entre judeus e cristãos, skinheads (embora não seja um grupo religioso) e judeus, evangélicos contra católicos, cristãos contra ateus etc.

 O ataque às religiões afro-brasileiras, mais do que uma estratégia de proselitismo junto às populações de baixo nível socioeconômico, potencialmente consumidoras dos repertórios religiosos afro-brasileiros e neopentecostais, é consequência do papel que as mediações mágicas e a experiência do transe religioso ocupam na própria dinâmica do sistema neopentecostal em contato com o repertório afro-brasileiro. O desenvolvimento recente do catolicismo carismático atestaria a demanda crescente por tais mediações também nesse segmento religioso majoritário. No Brasil, enquanto os processos de secularização e racionalização atingiam os setores cristãos (catolicismo, protestantismo histórico etc.), o pentecostalismo surgiu como uma possibilidade, ainda tímida na primeira e segunda fases, mas muito forte na terceira, de valorização da experiência do avivamento religioso. No neopentecostalismo, essa característica radicaliza-se em termos de transformá-la em uma religião da experiência vivida no próprio corpo, característica que tradicionalmente esteve sob a hegemonia das religiões afro-brasileiras e do espiritismo kardecista. Combater essas religiões pode ser, portanto, menos uma estratégia proselitista voltada para retirar fiéis deste segmento – embora tenha esse efeito – e mais uma forma de atrair fiéis ávidos pela experiência de religiões com forte apelo mágico, extáticas, com a vantagem da legitimidade social conquistada pelo campo religioso cristão.

 Vagner Gonçalves da Silva (2007) expõe o ataque sofrido pelas religiões afro-brasileiras por parte de representantes neopentecostais. Segundo ele, essa atitude poderia ser interpretada como uma estratégia para atrair fiéis, através da sugestão e suposição de que as divindades cultuadas pelas religiões afro-brasileiras seriam manifestações do demônio. Tais afirmações têm gerado conflitos que vão desde ataques verbais no âmbito dos cultos, até à agressão física aos frequentadores e aos espaços de culto das religiões afro-brasileiras. Além de desqualificar seus símbolos e termos, através de publicações que utilizam como exemplo situações descontextualizadas de rituais praticados por esses segmentos religiosos (Silva, 2007, p.215).

Paralelamente a essas situações de hostilidade e conflito, pode-se observar por parte de outros grupos religiosos uma postura menos rígida. Há, atualmente, no campo religioso brasileiro, segmentos que já adotam um discurso de tolerância em relação a outras tradições religiosas. Tal atitude, ainda que não possa ser considerada como uma abertura ao diálogo, denota, no entanto, uma possibilidade de convivência harmoniosa, minimizando as situações de conflito.

 No que se refere ao cristianismo brasileiro, o diálogo inter-religioso e o entendimento quanto às questões de intolerância vêm sendo discutidos com mais frequência entre católicos e evangélicos tradicionais. As religiões de matriz africana também têm se mobilizado e reagido por meio de debates sobre o assunto e produções de materiais como cartilhas, vídeos e caminhadas.

A busca pela construção de um mundo de sentido e pela formação de uma identidade, particularmente de uma identidade ou identificação religiosa, nos tempos atuais – face ao contexto de pluralismo e, consequentemente, das múltiplas ofertas no campo religioso – tem levado alguns segmentos religiosos ao desenvolvimento de atividades que proporcionem a interação e o diálogo com outros grupos, de concepções e credos diversos.

A prática desse diálogo tende a ser concebida como uma troca de experiências entre indivíduos e comunidades religiosas que estejam dispostos a uma abertura ao conhecimento e à compreensão de diferentes formas de vivência do sagrado. Entende-se que para que tal encontro seja possível, levando a um enriquecimento mútuo de seus participantes, os envolvidos nesse processo devam estar preparados para acolher e reconhecer verdades diferentes de suas próprias, sem, no entanto, ter por meta a conversão do outro ou temer o abandono de suas convicções.

Referencia bibliográfica

SILVA, Vagner Gonçalves da. Neopentecostalismo e Religiões Afro-brasileiras: significados do ataque aos símbolos da herança religiosa africana no Brasil contemporâneo , 2007.

TEIXEIRA, Faustino. Fundamentos e possibilidades para um diálogo inter-religioso hoje. In.: AUGUSTO, Adailton Maciel (Org). Ainda o sagrado selvagem. Homenagem a Antônio Gouvêa Mendonça. São Paulo: Fonte Editorial/Paulinas, 2010, pp. 155-166.

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Fr. Célio de Pádua Garcia possui mestrado (2002) e doutorado (2015) ambos pela PUC-Goiás em da Ciências da Religião. Tem graduação em Filosofia pela PUC-Minas e Teologia pela EDT (Escola Dominicana de Teologia) e fez o reconhecimento do curso pela Faculdade Kurios. Faz estágio pós-doutoral em Teologia e práxis cristã na FAJE (Faculdade Jesuíta de teologia e filosofia). Atualmente é professor Adjunto IV na PUC- Minas no Departamento de Ciências de Religião e Cultura Religiosa. Tem experiências de reflexão e atuação nas áreas de da teologia e Ciências da Religião com as seguintes temáticas: teologia do pluralismo religioso, inculturação Candomblé, Umbanda, Identidade, Sincretismos, Festa e imaginário popular.



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