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17/01/2017 | domtotal.com

Dois Irmãos: TV e renovação

A televisão só tem o que ganhar com esses diálogos entre o cinema, a literatura e o teatro.

A minissérie vem agradando gregos e troianos.
A minissérie vem agradando gregos e troianos. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

No ar há uma semana, a minissérie Dois Irmãos, baseada no livro de Milton Hatoum e dirigida por Luiz Fernando Carvalho é de encher os olhos, porém, traz consigo uma pergunta fundamental: para onde quer ir a TV aberta brasileira?

A minissérie vem agradando gregos e troianos: muito elogiada por toda a mídia especializada, com bons índices de audiência e, talvez o mais importante: muito comentada nas redes sociais. (Janete Clair dizia que novela boa é aquela que é comentada no salão de beleza. As redes sociais seriam a versão moderna dos salões de cabeleireiros.) Um produto vendido e embalado como "cinema na televisão".

Curiosamente, é do mesmo Luiz Fernando Carvalho que dirigiu o recém terminado folhetim das nove, Velho Chico - uma novela que, se não foi um fracasso total, não causou burburinho nenhum, nem no Ibope, nem nos salões e muito menos nas redes sociais.

É difícil acreditar que o mesmo diretor que surge agora - mais uma vez - como exemplo de renovação e excelência na TV seja o mesmo que esteve à frente de Velho Chico.

É verdade que todas as características mais marcantes de seu estilo estão presentes tanto na trama adaptada do livro de Hatoum quanto nas desventuras do Saruê. Cabe questionar por que tudo que lá era motivo de crítica agora se torna a fórmula infalível para a televisão de "alto nível" que se pretende com Dois Irmãos.

Luiz Fernando Carvalho, a despeito do enorme talento de artesão, tem problemas seríssimos para se comunicar com o público da televisão. Sua carreira, nesse ponto, é uma verdadeira montanha russa, cheia de altos e baixos, desde sua estreia solo, como diretor da novela Renascer. Por ser o primeiro trabalho sob seu comando, é natural que apresentasse excessos de experimentação - sempre tentando "aproximar" TV e cinema. Em O Rei do Gado, tivemos a chance de ver um diretor mais maduro e com Os Maias, o equilíbrio perfeito entre ousadia e a vontade de comunicar. (Porque lá existia de fato essa vontade.)

O mesmo não se pode dizer das minisséries mais curtas, como Capitu - baseada no Dom Casmurro de Machado de Assis - ou A Pedra do Reino - extraída do grande romance de Ariano Suassuna.

Aí já não se trata tanto mais de cinema, mas de teatro. Essa teatralidade que Carvalho trouxe para a televisão (e que funcionou lindamente na primeira temporada de Hoje é Dia de Maria e no especial Uma Mulher Vestida de Sol - porque coerentes com o conceito perseguido ali) não consegue se encaixar em tudo - vide o remake da novela Meu Pedacinho de Chão. A crítica elogiou, de maneira geral, mas o público preferiu mudar de canal a assistir aquela elaboradíssima pecinha de teatro infantil. Muita cor, perucas e figurinos dignos do filme do Grinch e muita gritaria desnecessária.

 A interpretação excessivamente teatral de vários personagens de Capitu - a começar pelo sofrível Bentinho vivido por Michel Melamed - é de fazer Machado e os deuses do teatro darem voltas no túmulo. E, sobre A Pedra do Reino, me lembro bem de se tratar de algo muito difícil de se assistir... o que dirá de compreender.

Com sua pretensão de produzir "alta cultura" em um meio de comunicação de massa, Luiz Fernando Carvalho muitas vezes se esquece de que sem comunicação é impossível que as pessoas sejam tocadas. Não iremos conseguir comer do "biscoito fino" que ele fabrica (como queria Oswald de Andrade) se ele não quiser que o comamos. E não peço com isso que "se passe a mão na cabeça" do telespectador. Elevar o nível é uma coisa... fazer algo só para si mesmo é outra.

Ele é chamado constantemente de barroco, pelo que tem de superlativo no seu estilo. Mas é evidente que o fio narrativo da história que está sendo contada, muitas vezes é prejudicado pelos voleios e volutas de imagens em excesso (e, por isso, que redundam sem sentido) a que se dá ao direito. Em Dois Irmãos não tem sido diferente. Um pouco mais de pé no chão, em detrimento desse "barroquismo", não atrapalharia o resultado final da obra.

Além do mais, no caso da Globo, é muito triste imaginar que apenas de dois em dois anos teremos algo assim, com "nível de cinema", a nos ser oferecido. Sem esquecer que é a mesma Globo que produz para o cinema filmes que mais parecem novelas malfeitas e nos oferece verdadeiras aberrações, como visto ontem no Fantástico - os dois apresentadores travestidos de velhinhos para nos tentar vender a ideia de que é bom trabalhar para sempre, sem direito à aposentadoria. Se a emissora perde o respeito pelo seu público, não é dali que sairá uma nova televisão. 

A televisão só tem o que ganhar com esses diálogos entre o cinema, a literatura e o teatro, mas o que devemos almejar são transformações diárias e permanentes - porque é assim que a consumimos: cotidiana e ininterruptamente. A partir desses encontros com outras linguagens e expressões artísticas, temos que ser capazes de imaginar uma nova televisão a partir dela mesma e não tentar enfiar a fórceps, quer seja o cinema ou o teatro, para dentro dela; porque isso não é renovação... é só mais um conto do vigário.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve às terças-feiras sobre televisão para o DOM TOTAL.

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