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24/01/2017 | domtotal.com

BBB17: O elogio da mediocridade

Qual é o sentido da sobrevivência desse programa em nossa televisão?

O BBB lidera, mas é apenas mais um exemplo do triste deserto intelectual que grassa em nossa televisão.
O BBB lidera, mas é apenas mais um exemplo do triste deserto intelectual que grassa em nossa televisão. (Reprodução/TV)

Por Alexis Parrot*

Há exatos 17 anos todos os nossos janeiros televisivos são invadidos por um produto comercial travestido de experiência behaviorista; curiosa em seu início longínquo, mas cada vez mais sem fôlego e decepcionante com o passar dos anos. É o Big Brother Brasil que, de novo, nos assola com promessas de renovação não cumpridas e novidades mais antigas que a Sé de Braga - como dizem em Portugal.

O que pudemos assistir ontem tratou-se mais de uma pré-estreia do que uma inauguração. Instalaram-se na casa apenas quatro das 17 cobaias previstas para a edição deste ano do programa. Dobrou-se a fórmula da minissérie recém terminada e os Dois Irmãos do livro de Milton Hatoum transformaram-se em quatro. Yaqub e Omar (acrescidos de uma tentativa gaúcha de Ruth e Raquel) foram substituídos por dois meninos boa praça mas sem nada na cabeça. De fato, pelo pouco que pudemos ver dos dois pares, tratam-se de imbecis completos - o que assusta, dada a pouca idade de todos eles, pois antigamente, até para se tornar um imbecil desse naipe, levava tempo.

Nem essa "brincadeira" com os gêmeos pode ser chamada de inédita. Relembra a última edição de A Fazenda, da Record (por sua vez um decalque bem caído do próprio BBB e da Casa dos Artistas do SBT) onde participaram as "cantoras" Pepê e Nenem, também gêmeas - com a diferença que as duas juntas valiam como apenas um participante - algo que foi anunciado como "nunca antes visto em nenhum reality show no mundo" e acabou se mostrando como uma perfeita bobagem.

E ontem a Globo não fez muito diferente. Divulgou com estardalhaço que já nesse primeiro dia haveria uma prova. E houve. Infelizmente, um negocinho chocho, de perguntas óbvias e respostas mais óbvias ainda, algo que estamos acostumados a assistir desde sempre nos programas de auditório do Silvio Santos, porém, com muito mais panache.

Tiago Leifert, à frente do programa pela primeira vez, não parecia contente em estar calçando os sapatos que Pedro Bial usou nos últimos 16 anos. Com uma cara entre o sono e o choro, estava mais desanimado que locutor de víspora em festinha do Retiro dos Artistas.

Com essa pequena amostra, o que esperar do BBB nessa décima sétima edição? Nada além da mediocridade. E me pergunto: qual é o sentido da sobrevivência desse programa em nossa televisão?

Desanimado, e sem nem muito o que discutir sobre o Big Brother, me lembrei da experiência que o cineasta Eduardo Coutinho realizou em seu filme Um dia na vida; uma seleção de imagens e trechos da programação da TV aberta brasileira durante um dia aleatório no ano de 2009.

Perguntei-me: o que nós, telespectadores temos de opção para assistir em uma segunda-feira à noite, além do elogio da imbecilidade que é o Big Brother? E fui conferir, canal a canal, o que estava nos servindo a nossa TV aberta como alternativa.

Na TV Cultura, o outrora significativo Roda Viva entrevistava o diretor de teatro Gerald Thomas. (Peguei exatamente o momento em que um dos entrevistadores questionava sobre as orgias que ele frequentava em Nova York, descritas em sua autobiografia.) Mais uma vez o Roda Viva decepciona. O Brasil caindo pelas tabelas e o escolhido para ser entrevistado (no primeiro programa após a turbulenta morte do Ministro do Supremo Teori Zavascki) é o também outrora significativo Gerald Thomas - para falar de seu livro, lançado há dois meses atrás.

Na Band, outra vergonha: um programa que acompanha a rotina de policiais militares em São Paulo, Polícia 24 horas. Um formato antigo e de sucesso nos Estados Unidos (perseguições motorizadas e tiroteios são a tônica) mas que não me entra na cabeça o porquê de ser reeditado no Brasil. Pude ver três menores sendo conduzidos para a DP e a detenção de um rapaz maltrapilho que tomou o celular de uma moça. Para quê?

No SBT, nenhuma novidade. Um genérico Show de Calouros no programa do Ratinho com o nome Dez ou Mil. Entre as atrações, nada de especial. O jurado Armando Saccomani conseguiu resumir tudo em uma frase: "Eu passei 40 anos trabalhando na indústria da música brasileira para ter que assistir isso"? - O sentimento é dele, mas bem podia ser do telespectador.

Na Rede TV! (nunca vou entender o motivo dessa exclamação!), Luciana Gimenez e seu Super Pop, em temporada de reprises, escarafuncha o fim da dupla sertaneja Rick e Renner. Descubro que Rick é um sommelier e vilão e o quanto Renner sofreu na mão dele. Mais informação (?) desnecessária e irrelevante.

Chego à Record e dou de cara com mais reprises. Fabio Porchat anuncia, segundo ele, as melhores entrevistas de seu talk show. Difícil acreditar que um programa que estreou no final de agosto já tenha de fato tantos melhores momentos assim para reprisar. Tive a chance de "rever" a "grande" entrevista com o humorista Tirulipa, o filho do palhaço e deputado federal Tiririca. O que mais me espantou foi como o Porchat soa falso ali, naquela bancada de entrevistador. Comedido e educado, ria de tudo, achava tudo lindo; um host gentilíssimo seguindo religiosamente um questionário previamente preparado. Nem humor, nem informação e nem surpresa.

Canal após canal, só pude ver mediocridade de ponta a ponta. O Big Brother Brasil lidera, mas é apenas mais um exemplo do triste deserto intelectual que grassa em nossa televisão.

Minha sorte foi ter dado uma última rodada nos canais, antes de desistir do experimento para poder vir relatá-lo. Por estar em Minas Gerais, tenho acesso à Rede Minas, o canal público do estado. Foi via Rede Minas que assisti ao triste Roda Viva com Gerald Thomas. Ao voltar ao canal, o Roda Viva já havia terminado e em sua sequência, às segundas-feiras, a emissora exibe o Arte do Artista, programa de entrevistas dirigido e conduzido pelo diretor teatral Aderbal Freire Filho, uma produção da TV Brasil.

Tratava-se também de uma reprise. Aderbal conversava (sim, conversava; ao contrário do caderninho de perguntas que Porchat lê em seu programa, aqui há diálogo) com a escritora Thalita Rebouças, fenômeno editorial, especializada em livros para adolescentes.

Tive que assistir até o fim. Irresistível, interessante, iluminador. E, ironia das ironias, a conversa do programa versava sobre literatura; provavelmente o maior contraponto possível à verdadeira depreciação da inteligência humana que é o Big Brother Brasil.

Aderbal salvou minha noite de segunda-feira.

E me deu de presente a possibilidade de terminar esse artigo com uma ponta de esperança na nossa televisão.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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