Cultura TV

31/01/2017 | domtotal.com

TV e culinária

Falta na produção brasileira de um programa sério sobre cultura gastronômica.

O chef Erick Jacquin apresenta novo programa:
O chef Erick Jacquin apresenta novo programa: "Pesadelo na Cozinha". (Reprodução/TV)

Por Alexis Parrot*

Erick Jacquin, o chef francês radicado há anos no Brasil e um dos jurados do Master Chef, estreou na semana passada um novo programa na Band, o Pesadelo na Cozinha. Trata-se da versão local do formato já produzido há alguns anos pelo internacional e multitelevisivo Gordon Ramsey - o cozinheiro inglês pioneiro em reality shows culinários. Além do Kitchen Nightmare original, ele também bate ponto como jurado do Master Chef EUA e opera o restaurante do Hell's Kitchen norte americano.

Em Pesadelo na Cozinha, a cada semana veremos Jacquin intervindo em um restaurante para detectar e resolver problemas, desde a operação até o cardápio, passando pela decoração do salão as relações de trabalho entre patrões e funcionários, qualidade do que é servido e dicas de marketing e propaganda.

O restaurante se inscreve e, se selecionado, aguarda a visita do chef para que tudo que não funciona passe a funcionar. No primeiro episódio, o grande imbroglio do estabelecimento era a relação entre o casal proprietário; brigas, gritos, choro e decepção faziam parte do dia a dia da casa. Os problemas do lar reverberavam no trabalho - e as questões do trabalho resultantes disso eram remoídas no lar, criando um círculo vicioso onde o que reinava no fim era um ressentimento crescente.

Jacquin torna-se uma espécie de profeta do catering, mistura de psicólogo com cozinheiro e administrador de empresas; é como se o dono do restaurante que o recebe, dissesse: "Não sou digno de que entreis em minha morada, mas dizei uma palavra e serei salvo". E ele fala mesmo! Toda sua experiência é colocada à disposição do restaurante da vez, para deleite do público e para alegria da Band - que tenta replicar com este programa o grande sucesso que se tornou o Master Chef. Jacquin transpira carisma - sente-se completamente à vontade tanto na cozinha quanto em frente das câmeras. Nasceu para estar ali.

Mas há problemas no programa. Se por um lado há uma eficiência muito grande em captar o real, com momentos que os "personagens" prefeririam que não viessem a público (como o flagrante de destempero do proprietário, berrando com o pai no episódio de estreia); tudo que não é natural, fica evidente. A esposa pode ter caído no plano que a produção armou para que o casal se reconciliasse, mas o telespectador não. Essa passagem específica do primeiro programa lembrou o quadro do Teste de Fidelidade que o infeliz João Kleber cometeu durante anos, para vergonha da nossa televisão - porque sabidamente uma enganação, porém, apresentada como verdade.

Todo participante de reality acaba sendo personagem de si mesmo, mas isso não o transforma em ator; muito menos em um bom ator. Tudo que é falso grita mais alto no formato do reality show.

Outra questão: seria bom se a Band conseguisse aumentar a verba de produção para a reforma/redecoração dos restaurantes selecionados. Mesmo com a cozinha toda reequipada com novos fogão, fornos e freezers, foi decepcionante o resultado apresentado no salão. E pior ainda a tentativa (fracassada) de proprietários e funcionários se mostrarem entusiasmados com o pouco que de fato mudou no visual do lugar. Foi constrangedor, na verdade. O programa não merecia isso.

Pesadelo na Cozinha vem aumentar a extensa programação sobre comida que temos hoje na nossa TV. De produção brasileira, podemos dividi-la em dois tipos básicos: a competição (Master Chef, Cake Boss Brasil, Que seja Doce, BBQ Brasil - Churrasco na Brasa...) e os programas de culinária - apoiados em um chef ou naquele apresentador que leva jeito para cozinhar.

Em sua maioria são formatos importados, copiados ou sem invenção. O Chato pra Comer do Claude Troisgros é uma das raríssimas exceções nesse universo. Original, divertido e de fácil identificação; afinal, quem não tem alguma idiossincrasia alimentar ou não sofre na mão de uma dessas terríveis criaturas que não comem nada? Isso aliado à enorme empatia do Claude e do seu cúmplice Batista.

É verdade que há recortes, como Bela Gil e sua tentativa de catequização alimentar, por exemplo; ou Rodrigo Hilbert que agora está construindo traquitanas bem interessantes, porém, para continuar cozinhando daquele jeito bem mais ou menos dele. Mas no geral, são sempre programas de receitas. Que é a Cozinha Prática da Rita Lobo senão uma Cozinha da Palmirinha para as próximas gerações?

Faz falta o extinto e premiado Larica Total, do Canal Brasil: uma mirada de humor sobre a cozinha e os costumes (com tempero carioca). Faz falta o Gema Brasil, da antiga TVE, onde Rodolfo Bottino fez história, ao cozinhar para um convidado enquanto conversavam. Na contramão disso, não faria falta se terminasse hoje o programa da Carolina Ferraz - que não acrescenta absolutamente nada e nada de novo nos traz.

Uma experiência inédita que merece destaque é a série de pequenos programas que o crítico de gastronomia Jota Bê fez para a TV UOL, na internet, há coisa de dois anos atrás. Um programa de crítica como esse seria muito bem-vindo na nossa televisão.

Falta a produção brasileira de um programa sério sobre cultura gastronômica; nos falta um Anthony Bourdain e suas investigações culturais ao redor do mundo. O mais próximo que temos é o que faz Olivier Anquier no GNT, um dos pioneiros do gênero no Brasil, com algo dessa pesquisa gastronômica, mas sem conseguir abrir mão das indefectíveis receitas (ou da própria família: a filha já o acompanhou e agora é a esposa que faz esse papel em seus programas. O porquê disso segue sendo um mistério).

O tema comida é campeão de audiência, disso já sabemos. Mas o público merece ver novas abordagens - porque o cardápio disponível hoje é extenso, mas muito pouco variado. A criatividade que transborda nas receitas tem que alcançar também formatos, roteiros e imagem. A repetição pela repetição vai acabar causando indigestão.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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