Religião

03/02/2017 | domtotal.com

Amor, sexo e feminismo

O fato de o feminismo ter sido incorporado a um programa televisivo fez com que o assunto chegasse, por meio da TV aberta, a um público não acostumado com o assunto.

Karol Conka foi uma das convidadas a participar do programa 'Amor e Sexo'.
Karol Conka foi uma das convidadas a participar do programa 'Amor e Sexo'. (Renan Katayama)

Tânia da Silva Mayer*

São muitas as questões que circundam o universo das mulheres brasileiras. Não estamos nem convencidas de que seja possível utilizar o termo “mulheres brasileiras” para especificar o conjunto das pessoas que se denominam mulher no Brasil, nascidas ou não nessa terra. A imagem de um universo complexo descreve bem a dificuldade de estabelecer padrões e parâmetros para essa parcela da população. No entanto, ainda que careçamos de expressões linguísticas, com potencialidades universais, que não soneguem particularidades e demandas específicas e contextuais, utilizaremos o termo que dispomos, com as ressalvas que possam ser feitas.

Nesse espírito, é necessário e importante recordar que toda e qualquer abordagem com referência ao universo das mulheres brasileiras só pode ser feito por meio de recortes das muitas questões que se levantam cotidianamente em diferentes, diversos e divergentes cenários. Qualquer tentativa de universalização corre sérios riscos de ser rechaçada, porque as próprias tentativas correm o risco de trair e sonegar aspectos relevantes em um cenário ou outro. Por isso, os debates ao redor do feminismo não podem ser rápidos e rasos, e muito menos deixar de lado as muitas vozes que possam e devam ser ouvidas.

Nas muitas discussões que levantamos cotidianamente devemos estar atentos a dois movimentos diferentes na proposição dos debates. Esses dois movimentos são a intenção e a intencionalidade. A intencionalidade diz respeito àquilo que é feito, realizado na ação. A intenção, por sua vez, diz respeito a um estado anterior da ideia, do propósito, do plano. Por isso, o debate feminista sobre os prós e contras do programa Amor & Sexo, da Rede Globo, na última semana, deve linkar a intenção e a intencionalidade do fato de uma das maiores empresas de comunicação brasileira dedicar um programa, o primeiro programa de uma série, diga-se de passagem, ao levantamento de bandeiras feministas em cadeia nacional.

No plano da intenção, a primeira pergunta que deve ser feita é sobre o que a Rede Globo ganha ao propor um programa com um conteúdo feminista. O currículo da emissora é um dos piores, e entra na sua conta o apoio e a promoção das páginas infelizes da história do nosso país, como a ditadura militar e o golpe jurídico-parlamentar de 2016. O que a Globo, com as manchas que carrega, pode querer propor à sociedade brasileira ao falar do feminismo? Até 2015, uma mulher negra era exposta nua, ano após ano, entre janeiro e fevereiro, como objeto sexual barato do carnaval; a mesma emissora orquestrou o golpe ao Governo de uma mulher eleita democraticamente; raríssimos papéis de relevância e destaque, no entretenimento e no jornalismo, são dados às pessoas negras, sobretudo às mulheres; estereótipos e padrões de beleza segregadores são cultivados e incentivados por meio de seus programas.

Percebendo esses e outros aspectos é importante nos perguntarmos a respeito da intenção da Globo ao falar de feminismo. Seria o início de um interesse verdadeiro pelas causas feministas? Seria mais uma jogada capitalista para conversar com o público feminista e vender seus produtos? Seria uma maquiagem na busca do prestígio entre setores progressistas da sociedade? Infelizmente, as respostas a estas perguntas podem ser dadas de maneira intuitiva, mas objetivamente falando, até que um dos responsáveis seja abordado e a equipe que pensou o programa fale abertamente sobre seus planos, não é possível saber o que quis a Globo ou o que ela pretendia ao falar do feminismo no Amor & Sexo. Novamente, o histórico da presença e atuação da emissora, bem como o tempo, dirá o que nos interpela hoje.

Por outro lado, a respeito da intencionalidade também é importante perceber que a temática do feminismo, tal como outras pautas progressistas não têm apelo e presença em veículos de massa como a televisão e o rádio. Destaca-se que a internet tem permitido um debate constante e livre sobre a questão. Mas o fato de o feminismo ter sido incorporado ao programa televisivo fez com que o assunto chegasse, por meio da TV aberta, a um público não acostumado com o assunto.

A reconstrução da queima dos sutiãs, com as frases e bandeiras cotidianas de milhares de mulheres, brasileiras ou não, incomoda quem não está acostumado com nossas lutas. O debate, ainda que precário pelo enquadramento da televisão, sobre a igualdade salarial, a presença da mulher na política, os direitos trabalhistas das prostitutas, a diferença de tratamento envolvendo o preconceito de gênero e racial contra a mulher negra, o questionamento sobre os estereótipos “bela, recatada e do lar”, bem como a retomada da figura histórica de Elza Soares, conclamando a denúncia de qualquer tipo de violência doméstica, promove um impacto significativo nos lares brasileiros, nos quais muitas mulheres sofrem caladas, também por estarem distanciadas dos movimentos feministas.

Sobre as intenções da emissora, podemos intuir se são das melhores ou piores, porém nosso debate na base, no movimento, com nossas mães, irmãs, mulheres e amigas, deve aproveitar a deixa, sobretudo nesse tempo em que nossos direitos são sabotados na calada da noite pelos homens e mulheres de bens. As críticas devem ser feitas em tempos nos quais o fascismo, com seu ódio aos outros, aos diferentes, é um ovo sempre a chocar no interior da sociedade brasileira. E que entre na roda o feminismo, também metendo a colher quando o assunto for amor e sexo.

*Tânia da Silva Mayer é Mestra e Bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); Cursa Letras na UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Escreve às sextas-feiras.



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