Religião

10/02/2017 | domtotal.com

'Vamos lá fazer o que será!'

Negação da vida, nossa e do outro, é a negação da própria condição humana, é a nossa entrega ao nada

Acreditar na vida, em si e nos outros é atitude fundamentalmente humana e humanizadora.
Acreditar na vida, em si e nos outros é atitude fundamentalmente humana e humanizadora. (Divulgação)

Por Tânia da Silva Mayer*

Quando os tempos estão sombrios e difíceis, nós nos acostumamos a buscar refúgio em lugares mais seguros. A fé é um acontecimento que favorece nossa procura por abrigo e segurança. Certamente, a fé não é somente essa busca por uma proteção invisível para os olhos. A Constituição Dei Verbum, n.5, do Concílio Vaticano II, afirma o caráter dialogal da fé, isto é, que ela é a resposta humana a autocomunicação amorosa de Deus. Conforme a teologia conciliar, a fé é uma exigência da revelação. Deus, que é sempre advento na vida e na história humana, lançou-se ao encontro das suas criaturas, desejando ser acolhido em sua humanidade por cada pessoa que O desejar na liberdade.

Mas há na fé uma dimensão fundamental e primária, que é certamente aprimorada pela fé dialogal, ao mesmo tempo em que dá a ela condições de ser um encontro entre a humanidade e Deus. Essa dimensão primeira é a fé na vida, que cada pessoa cultiva ao longo da própria história. Acreditar na vida, na própria existência e na existência dos outros é atitude fundamentalmente humana, que permite que sejamos humanos em humanização. Essa crença na vida é que nos interdita: “não matarás”, pois sabemos que a negação da vida, nossa e do outro, é a negação da própria condição humana, é a nossa entrega ao nada. Nesse sentido, a fé antropológica, enquanto crença de que a vida vale mais e é mais além, oferece-nos um solo fecundo para que a resposta ao Deus Vivo possa ser dada por quem crê. Por outro lado, a fé no Deus da vida alimenta a fé antropológica, nos fazendo acreditar que homens e mulheres podem ser melhores.

É preciso ter fé na vida, mesmo quando a morte e os sinais dela insistem em existir em nosso meio. Muitas pessoas entre nós começam a duvidar de que o ser humano tenha jeito, de que possa acessar uma espécie de bondade escondida no coração. Como num ciclo vicioso, desacreditar que somos melhores do que parecemos ser promove mais que um mal-estar, promove a ruptura do interdito postulado pela fé na vida, promove a barbárie e a morte, real e simbólica, das humanidades. Os nossos tempos têm indicado que há uma ausência da fé antropológica e que por desacreditarmos em nós mesmos é que nos autorizamos a cometer as maiores atrocidades contra os semelhantes.

Dois fatos chamam a atenção para isso: a morte de Marisa Letícia e a guerra nas ruas do Espírito Santo. Em ambos os acontecimentos revela-se uma profunda ausência de fé. Para quem se diz cristão, revela que a ausência de fé na vida é proporcional à ausência de fé, resposta dialogal, no Deus Vivo. Como bem sabemos, promover a morte do outro, o irmão, é algo detestável e repudiado pelo Deus de Jesus. Por isso, não há consciência que possa tranquilizar-se ao desejar a morte do semelhante ou a promovê-la, física, psicológica ou simbolicamente. Os que agem assim e se dizem cristãos, desumanizaram-se e se desconfiguraram de Jesus Cristo, horizonte gênese de humanização. Aos que não afirmam essa fé dialogal, a ausência da fé antropológica só revela o que não queremos e podemos admitir: que superamos, todos os dias, nossos níveis de crueldade e maldade.

É urgente recuperar a fé em nós mesmos que anda distante. Acreditar que somos bons e que podemos ser melhores alimenta uma cultura da paz e da não violência. Mas é importante crer de maneira ativa, e como toda fé boa desdobrar-se em ações de paz, de respeito, de fraternidade. Enquanto pelejamos na semeadura do amanhã, nos inspiremos na música e a poesia do poeta das sensibilidades, Gonzaguinha:

Ontem um menino que brincava me falou
que hoje é semente do amanhã.

Para não ter medo que este tempo vai passar.
Não se desespere não, nem pare de sonhar,
nunca se entregue, nasça sempre com as manhãs.
Deixe a luz do sol brilhar no céu do seu olhar!
Fé na vida, fé no homem, fé no que virá!

Nós podemos tudo,
nós podemos mais.
Vamos lá fazer o que será.

*Tânia da Silva Mayer é Mestra e Bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (Faje); Cursa Letras na UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Escreve às sextas-feiras.



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