Religião

28/03/2017 | domtotal.com

As pedras não falarão

Quando a fé se desencarna da vida, corre-se sério risco de agir na contramão do projeto salvífico de Deus.

Forças que promovem a morte acusam de 'comunistas' os que se colocam ao lado dos empobrecidos.
Forças que promovem a morte acusam de 'comunistas' os que se colocam ao lado dos empobrecidos. (Pastoral da Juventude)

Por Tânia da Silva Mayer*

A Igreja tem respirado ares novos com o pastoreio de Francisco. E, à luz do seu ministério, outros tantos ministros e ministras do Evangelho têm-se inspirado ao diálogo com as realidades do mundo. É um momento de retomada do espírito do Concílio do Vaticano II: uma Igreja atenta aos sinais de nosso tempo, acolhedora das tristezas e angústias, das alegrias e esperanças humanas (cf. GS 1). Nesse contexto renova-se o ardor profético dos homens e mulheres da Igreja, mais compreensivos das ameaças aos direitos dos pobres e minorias excluídas. E no exercício do profetismo, tornam-se anunciadores da Palavra da Vida, ao mesmo tempo em que denunciam as forças que promovem a morte.

Na última semana, muitas vozes se levantaram do meio da sociedade brasileira, a fim de denunciar a proposta do Governo Golpista de reforma da Previdência, esta que se configura no atestado de óbito dos trabalhadores e trabalhadoras, sobretudo dos mais empobrecidos. Entre essas vozes estavam a de bispos católicos, de padres, pastores e pastoras e de inúmeros leigos e leigas conscientes da fé que professam e, também, da cidadania a que são chamados a exercer. Essa postura deve ser compreendida à luz da práxis libertadora de Jesus e do anúncio do Reino, do Novo Céu e da Nova Terra que hão de vir, que culminam na esperança por uma vida mais digna e humana para todas as pessoas.

Também como no tempo de Jesus, há algumas pessoas dispostas a promover uma Igreja desencarnada das feridas do mundo, limpa das lamas da humanidade, aliada às forças da morte e de mãos dadas com os poderosos que oprimem o povo. Estes alavancaram uma campanha difamatória dos que optaram por uma espiritualidade cristã mais encarnada nas realidades, crítica dos processos sociais e alinhada às demandas da maioria pobre da população brasileira, à maneira de Jesus Cristo em seu tempo. Advogando estranho conservadorismo, acusam de “comunistas” e de “petistas” os que se colocam ao lado dos empobrecidos, além de demonizarem e tecerem críticas sem fundamentos à teologia da libertação, supondo que todos e todas que se posicionam contra os sistemas de mortes o fazem desde tal teologia. Por trás de tudo isso está o medo de perderem os privilégios. Essas pessoas tornam ainda mais inviável uma fé que se reclama cristã, mas sem referências a Jesus e suas ações e palavras libertadoras, para a vida plena e abundante.

Por isso, na esteira do testemunho do Papa e dos homens e mulheres da Igreja é importante ter presente que desde os profetas, o que é exigido dos que têm fé é a sua adesão irrestrita e total à Palavra de Deus (cf. 1Sm 15,22). Nesse sentido, haveríamos de nos perguntar sempre sobre as posturas que mais agradam a Deus e mais se alinham à práxis libertadora de Jesus. Os escritores bíblicos sempre alertaram ao perigo de uma religião do culto, preocupada com seus ritos, símbolos e doutrinas, mas descompromissada com os empobrecidos e excluídos sociais (cf Jr 22,3). Quando a fé se desencarna da vida, corre-se sério risco de agir na contramão do projeto salvífico de Deus, precisamente por romper com o direito e a justiça, a misericórdia e a fidelidade ao Deus da Vida, acorrendo a um farisaísmo moderno regado à hipocrisia (cf. Mt 23,23).

As palavras e conselhos de sabedoria instruem ainda hoje os que se posicionam profeticamente na Igreja e na sociedade, animando uma fé estabelecida na sinergia entre a Palavra de Deus e a vida, empenhada na promoção da dignidade de todas as pessoas. E antes que as pedras insistam em falar por nós, não nos custa lembrar os ensinamentos perenes da Palavra de Deus: “praticar a misericórdia e o direito é mais agradável ao Senhor do que os sacrifícios” (Pr 21,3).

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE; Graduanda em Letras pela UFMG. É editora de textos da Comissão Arquidiocesana de Publicações, da Arquidiocese de Belo Horizonte. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!