Religião

09/05/2017 | domtotal.com

A Igreja Católica na Venezuela resiste em meio a uma revolução em ruínas

Quando o Estado fica predatório, os defensores da fé são chamados para levar as pessoas na direção certa, longe da violência das autoridades e seguindo o caminho de Deus.

Hans Wuerich (27) ficou conhecido em todo mundo ao protestar nu, carregando uma bíblia, como gesto profético contra o caminho tomado pelo governo venezuelano.
Hans Wuerich (27) ficou conhecido em todo mundo ao protestar nu, carregando uma bíblia, como gesto profético contra o caminho tomado pelo governo venezuelano. (AP)

Por Joel D. Hirst

Não se supõe que eles sejam macabros, mas só assim pode ser descrita a última campanha do presidente venezuelano Hugo Chávez em 2013, o suicídio em câmera lenta de um homem inchado e calvo de doença, viajando temerariamente ao redor do país na cama de um caminhão. No final, ele apenas podia caminhar.

A última campanha do Presidente Chávez foi primeiramente mórbida. Falou-se dos antigos planos extraordinários, todos eles tinham sido postos em ação a qualquer custo. Somente pareciam efetivas as promessas vertiginosas de dias precipitados quando a revolução tinha energia, quando tinha dinheiro e um propósito. Não havia nem mesmo qualquer apelo ao futuro; até mesmo os mais ferventes discípulos souberam nos seus corações que esta não era na realidade uma campanha, mas um tour de adeus.

Depois de 14 anos de expropriações empresariais e petro-dependência, estava terminando o projeto "Bolivariano". Nenhuma surpresa até aqui. A economia nacional era quase completamente dependente de exportações de petróleo para câmbio exterior; a moeda corrente estava nas cinzas, inclusive o "bolívar forte" lançado pelo Presidente Chávez em 2008 tinha perdido dois terços de seu valor. Uma taxa de assassinato se disparou e colocou a Venezuela em competição severa com Bagdá e a Medellín dos anos oitenta.

A revolução estava exausta; mas uma oposição crescente tinha energia e juventude e, o mais importante, uma ideia esquecida para juntar o povo: liberdade. Tudo o que os revolucionários tinham era Hugo Chávez. E ele jogou seu último papel.

É difícil entender por que Chávez escolheu esta saída notável, pública. Por que não voar para Paris ou Londres ou Brasília para tratamento? Talvez ele estivesse em período de negação ou com medo de que o legado fosse destruído pelo jovem governador estrela que o desafiava. Quem sabe? Porém, o que mais me golpeou, não foram as exortações aborrecidas desta última campanha, era um espaço curto de oração, transmitido de dentro da capela minúscula no sítio ostentoso de Chávez no Estado Barinas.

Lá, em frente a alguns familiares e amigos, o Jesus sofredor, coroado de espinhos na cabeça e com a cruz nas costas, como fundo, o Hugo Chávez da lenda socialista se tornou finalmente um homem como ele lamentou e suplicou ao seu criador: "E assim eu digo a Deus, se o que eu já passei e vivi não foi suficiente, senão que faltou mais [sofrimento], eu dou as boas-vindas a isto. Mas me dá vida, uma vida ardente. Uma vida dolorosa, eu não me importo”.

"Me dê sua coroa, Cristo, dê-me a coroa que eu sangro. Me dê sua cruz, 100 cruzes que eu as aguento, mas me dê vida porque ainda tenho coisas para fazer". Ele foi um déspota que se chamou a si mesmo de verdadeiro herdeiro de Cristo e tirou os bispos da igreja como pervertidos e degenerados, mas que no fim voltou para casa.

Tomou tempo para chegar lá. Dezoito anos: esse é o tempo em que os revolucionários dirigem as coisas na Venezuela. 25 se contamos a tentativa de Golpe de Estado em 1992 aquele jogo que tentou colocar Chávez no centro das políticas nacionais.

Umas 250.000 pessoas foram assassinadas entre 1998 e 2015, de acordo com o Observatorio Venezolano de Violencia, mortes que podem ser descritas, aliás, como uma guerra civil.

Mais de $1 trilhão de dólares em renda de petróleo se perdeu, foi roubado ou usado para pagar a próxima série de eleições "revolucionárias"; 8.000 negócios falidos, vítimas de políticas que supostamente ajudavam aos pobres, mas que principalmente ajudou a sustentar e fazer subir o apoio a Chávez; mais de 700 % de taxa inflacionária em 2017; o retorno de doenças que tinham sido erradicadas, inclusive malária e dengue; fome, inclusive desnutrição encontram-se ao redor do país.

Duas gerações foram roubadas colocando os estudantes a estudar Fidel Castro e memorizar os poemas do Che Guevara. Dois milhões de venezuelanos tiveram que sair para cidades como Panamá, Costa Rica, Miami, Nova Iorque, Londres, Paris e Dubai. 6,4 por cento da população nacional. O crime se tornou fatal para a vida econômica. São traficados uns 41 por cento da cocaína destinada aos mercados europeus, agora pelas águas sagradas do Orinoco ou fazendo uma primeira parada na África Ocidental desde a pista presidencial do aeroporto principal. O lema oficial, "socialismo ou morte", ressoa num ciclo sem fim tornando-se tudo aquilo que foi deixado pelo caudilho falido do regime.

E no meio desse conflito a igreja resistiu.

Eu tenho um amigo que uma vez foi um arqueólogo. Não um homem famoso fazendo das descobertas uma história amolda, mas um homem de comunidade simples, trabalhando para o governo municipal, aprovando a construção de prédios e vigiando as escavações nalgum estranho porão ou um novo minimercado. A humilde responsabilidade dele era assegurar que nenhuma parte da herança da sua nação fosse inadvertidamente destruída, com certeza um problema do velho mundo, um problema de lugares onde tudo é infuso com a história dos povos antigos e civilizações lembradas e esquecidas, descansando uma sobre a outra em camadas de acordo com o nascimento, a vibração e a decadência. Uma camada descoberta pode contar a história toda, mas meu amigo aprendeu que sempre é mais sábio aprofundar mais, procurar a próxima camada e a outra debaixo dessa; cada civilização se constrói sobre a anterior acrescentando sempre algo novo, a história de uma sociedade irreprimível.

A Igreja Católica é como isso. Tira das profundezas, daquilo que os hebreus chamavam de "uma grande nuvem de testemunhas" (Hb 12,1), contando as histórias das tribulações dos oprimidos dentro da luta épica das pessoas que querem viver em liberdade e praticar a fé delas em paz. E como a Igreja suportou também as marés contrárias, o totalitarismo na Venezuela, as camadas de resiliência, colocadas cuidadosamente durante anos e desafiando a escuridão, mostrando-se novamente (? Parágrafo estranho).

Os Católicos da América Latina nunca estiveram confortáveis com a natureza da Trindade ocidental em que as três divinas pessoas são masculinas. Eles são pessoas que lutam com audácia contra o machismo e a insinuação masculina. Eles viram grupos de soldados que marcham pelas avenidas centrais das capitais; eles são pessoas familiarizadas com a violência dos homens e a impunidade que encobre isto; pessoas que perderam os filhos e filhas em guerras não declaradas que perduram por décadas; famílias destruídas pelo alcoolismo, a infidelidade e o abuso.

Eu suponho que é uma reação natural. Enquanto não se pode confiar nos homens, quem precisa fugir da Virgem?

Ela se tornou um aspecto importante da fé na América Latina, as qualidades amorosas da mãe que alisa algumas das asperezas e a violência dos homens; humanizando a igreja, fazendo desta um lugar mais seguro e nutrindo a fé do povo.

Para a Venezuela, tão acostumada ao maltrato masculino, certamente isto parece verdade. Venezuela é devota de uma multidão de Marias: a Virgem de Coromoto, protegendo a memória da conversão indígena à fé nova, localizada na catedral de cimento imponente no Estado de Portuguesa; a Virgen del Valle que descansa no esplendor delicado dentro de uma catedral branca debaixo das buganvílias e heras em Porlamar nas Ilhas orientais de Nueva Esparta, lembrando os insulanos do dia em que ela protegeu a população de um furacão e uma seca; o Virgen de Chiquinquirá, "La Chinita", se aparece às pessoas de um lago do oeste da Venezuela assegurando que Deus ama aqueles que o servem.

Os festivais que acompanham as canonizações, memórias e milagres são uma parte do tecido cultural venezuelano. As celebrações periódicas do aparecimento da Virgem se tornaram um ponto importante no resplandecer da fé, da família, da esperança e do futuro. Estes festivais são a lembrança tecnicolor de que ainda há momentos de bondade, de amor e tradição longe da respiração acre dos homens, de militares brutos que se apropriaram o país.

Claro que os revolucionários provavelmente não gostam desta Virgem Maria que as pessoas procuram. Espaços fora do seu controle, respondendo a uma autoridade mais alta? Algo macio e suave que, não obstante, é mais forte e mais resistente? Isso captura a imaginação nacional naturalmente, enquanto eles trabalham tão duro e tão em vão para implantar suas ideias insípidas?

Isso agrava seu senso de importância excessiva. Eles se embrulham em arrogância e ateísmo como se a terra não tivesse respirado antes deles começarem a caminhar para o outro lado da sua dureza; como se o seu passado não viesse das montanhas, colinas, rios e oceanos, emergindo da fé dos seus pais e avós. Até que eles acabam também precisando da fé.

Durante a chamada idade das trevas na Europa, nem tudo era escuro. O continente estava dividido em cidades soberanas feudais; exércitos ao serviço de senhores insignificantes, violência e pobreza e morte em porções diárias. Durante este tempo, a luz da igreja penetrou brilhando na escuridão. Dentre os precursores misericordiosos das ONGs, que agora vagam pelos lugares rasgados da terra, estavam as legiões de monges e freiras, não como eles são retratados frequentemente, enclausurados nas abadias, mas espalhados fora delas, pelas terras, levando comida e servindo de médicos, inclusive ajudando os pobres, os cegos e os desvalidos. Esta nobre tradição de serviço da igreja continua nestes tempos modernos.

Eu caminhei nos Centros de acolhida Dom Bosco, em lugares como Barquisimeto, onde um grupo de padres heroicos que cuidam pacientemente de jovens com Síndrome de Down. Quando as crianças em necessidade viram adultos jovens são abandonados ou deixados pelos pais deles. Eles nunca viverão sozinhos, nunca terão um trabalho, uma esposa ou uma família. Segregado pelos seus graus de incapacidade desde os menos afetados até esses que não podem falar ou controlar os seus corpos, eles são cuidados pelos padres.

Espalhados pelas vastas favelas da Venezuela se encontra Fe y Alegria, uma obra da Igreja para a educação popular com uma estação de rádio e programas onde os professores provêm educação de qualidade, amor e cuidado às crianças mais pobres das famílias mais desfavorecidas, assim eles também poderão achar os seus lugares em um mundo duro. Pergunto-me como eles fazem agora, 20 anos depois de Hugo Chávez ter começado a guerra frente às mentes livres.

Estados corruptos no meio da decadência crescem frequentemente. Primeiro como gigantes cósmicos vermelhos pela terra, expandindo-se na desordem para consumir tudo ao redor deles. Mas quando a estrela, finalmente supernova, acende tudo em sua expansão e então se desmorona, deixa para trás uma terra enegrecida e ressecada. Isso é o que aconteceu depois que Roma caiu, e é o que está acontecendo agora na Venezuela. Como na Europa antiga, a única luz que quebra esta escuridão é a caridade, aquela que em grande medida é levada pela igreja.

A igreja sempre foi como um santuário, Becket e More, Robinson e Olaf. Venezuela também tem seus próprios mártires antigos, Monsenhor Montes de Oca, morto pelos Nazistas no massacre do Mosteiro dos Cartuxos em Massa na Itália. Quando o Estado fica predatório, os defensores da fé são chamados para levar as pessoas na direção certa, longe da violência das autoridades e seguindo o caminho de Deus. Lembrando às pessoas que ele ainda está com elas: Deus ainda está olhando, ele continua cuidando delas.

Este papel importante da Igreja continua em lugares onde o Estado gosta de fingir que é Deus.

A igreja da Venezuela se tornou um lugar de refúgio. Como os revolucionários tentam acabar com os vestígios finais de liberdade, todavia, a liberdade das pessoas para pensar e agir com fé em Deus é melhor do que a dos opressores, não é nenhuma maravilha que eles identificaram a igreja como sendo talvez a maior ameaça para o projeto. Milícia pró-governamental, conhecido na Venezuela como "colectivos", tem interrompido em várias ocasiões as missas das igrejas em Caracas tentando silenciar os líderes de igreja.

E, em resposta, como se espera da Mãe Igreja, ela se comprometeu em estender suas asas protetoras para acolher as pessoas: Nixon Moreno, por exemplo, falsamente o acusado de ataques à polícia, escalando as paredes da embaixada do Vaticano em Caracas e achando refúgio lá; A Universidad Católica Andrés Bello fechando suas portas contra assassinos Chavistas. Os bispos venezuelanos, apoiados pela Santa Sé, pedindo as pessoas para “não se deixarem intimidar", senão "se rebelar pacificamente e democraticamente" contra a ditadura porque "nunca antes se teve tantos venezuelanos tendo que comer lixo" como a mensagem que estava recentemente sendo lida em vários lugares.

Eu seria descuidado se eu também não reconhecesse que houve passos errados ao longo do caminho de resistência. A Igreja Católica é afinal de contas uma organização política, da mesma maneira que é espiritual. As tentativas de Papa Francisco para puxar a igreja em diálogos mortos com os narco-comunistas que governam a Venezuela só mostraram o crescimento ilegítimo do regime e deram outra amarga decepção aos cidadãos, guerreiros da nação. Uma tentativa semelhantemente foi a do grupo de observação de votações chamado Ojo Electoral, que tentou monitorar as eleições livres, mas injustas durante anos, certificando cada passo revolucionário em direção ao abismo.

Agora os bispos da Venezuela pedem uma "rebelião" calma e democrática contra a ditadura do Presidente Nicolás Maduro. Eles não estão errados quando buscam preservar a liberdade do crente. A pergunta sempre é como melhor alcançar isto e proceder contra a polarização brutal que regimes populistas usam para dividir e conquistar.

A igreja ainda luta para achar um modo de através da tensão que supõe sua responsabilidade com as pessoas da Venezuela e a demanda que permanece da sua verdadeira missão divina.

Com a paralisia política da Venezuela se estendendo, seus problemas se degeneraram, atravessando uma crise econômica e alcançando seu resultado inevitável como um desastre humanitário. Porém, a Igreja permanece comprometida.

A Igreja pediu a liberação dos prisioneiros políticos uma e outra vez, como a de Leopoldo López. Ele tinha sido encarcerado ilegalmente três anos atrás depois de protestar contra o regime. A igreja constantemente falou contra a espiral de violência que o desgoverno da Venezuela criou. Alçou sua voz para ressaltar as terríveis condições do aumento da pobreza, assim como também pediu uma solução definitiva ao problema.

O novo Superior Geral da Companha de Jesus, Padre Arturo Sosa, nasceu na Venezuela e foi professor da Universidad Católica Andrés Bello. No seu modo afável, ele pressionou constantemente na busca de um retorno à liberdade na Venezuela. O chavismo foi "um sistema de dominação, não um sistema político que tem legitimidade para funcionar com tranquilidade", apontou recentemente.

Ele também descreveu isto como "um regime estatista", dizendo: "a partir daí, uma ditadura é só um passo". Ainda assim, apesar de sua crítica forte, o Padre Sosa tem sido ouvido cuidadosamente pelos integrantes proeminentes do governo de Maduro, sobretudo quando aponta o fim aparente do Chavismo. Até mesmo revolucionárias como Maripili Hernández tomam nota quando ele fala.

"A vantagem de Arturo, comparado a outros líderes da hierarquia Católica venezuelana,", Hernández falou recentemente, "é que, embora ele tivesse uma posição crítica do governo, foi uma posição serena e razoável".

A ditadura está entrando em um período novo com dois possíveis resultados: um colapso que dá lugar a um retorno para democracia ou um "avanço" até mesmo para um autoritarismo mais sinistro. A igreja da Venezuela fez muitos papéis no passado e logo lhe pedirão que jogue um novo papel, colocando outra camada da sua história como a conclusão inevitável da Venezuela.

Quando Santo Agostinho escreveu "Cidade de Deus", a igreja ainda estava na sua juventude, o destino dela era inseguro e o império que a protegeu tinha morrido. Aquele santo foi forçado muito cedo a contemplar o futuro da fé sem seu tão grande benfeitor.

Ele não deveria ter se preocupado. A fé, a verdadeira fé no verdadeiro Deus, sempre achará um modo. A Roma imperial foi só a primeira das muitas camadas da história épica da igreja através do tempo.

Poderes grandes e pequenos se levantam e caem. Às vezes civilizações inteiras se fragmentam e suas histórias não se lembram mais. A crosta escura da revolução venezuelana já se está quebrando e deteriorando. Logo terá acabado e as pessoas nunca mais pensarão na revolução.

Mas a história da igreja venezuelana continuará.


America

Tradução: Ramón Lara.



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!