Religião

16/05/2017 | domtotal.com

Fé em tempos de crises

Parece que as instabilidades e incertezas de nosso tempo são provocadas por nós, por catástrofes que são obras de nossas mãos.

Na sua dimensão teologal, a crise pode nos aproximar ou nos afastar de Deus.
Na sua dimensão teologal, a crise pode nos aproximar ou nos afastar de Deus. (Divulgação)

Por Tânia da Silva Mayer*

Vivemos um tempo de crises. Essa é a constatação óbvia que poderíamos fazer. Aliás, já havíamos conversado sobre isso na trilogia de artigos, “Deus em tempos de crises”, publicadas aqui, no Dom Total, no ano passado (textos 1, 2 e 3). Todos que já passaram por crises existenciais, por exemplo, sabem como esses momentos da vida não têm apenas um desencadeador, mas uma série de acontecimentos e fatos que convergem à crise e que a instala em nós. É bom discernir que há crises e momentos críticos que podem ser provocados por um fenômeno da natureza, por exemplo, que tendo arrasado uma cidade, provocou uma situação caótica onde torna-se necessário reconstruir a vida. Outros momentos difíceis da vida são provocados por nós mesmos e pelas relações que estabelecemos e cultivamos uns com os outros. Parece que as instabilidades e incertezas de nosso tempo são provocadas por nós, por catástrofes que são obras de nossas mãos.

Sábado à noite, entre o vai e vem na cidade que tem um horizonte belo, peguei-me em conversa com um homem, de aproximadamente quarenta anos, enquanto esperava um ônibus para casa. Quem é mineiro sabe bem como estranhos se tornam íntimos nas conversas construídas no trânsito caótico da capital. Entre uma observação e outra, o assunto foi sobre o caos político que vivemos no Brasil hoje, apontando como alguns que falam pelo Estado pretendem desamparar os pobres e os trabalhadores com reformas que beneficiam poucos, à custa da maioria da população. Mas o mais interessante na conversa foi o que ele me confidenciou: está sem esperança, não consegue dormir e acordar acreditando na possibilidade de uma mudança para melhor nesse contexto em que vive. Perdeu a fé na vida e nas pessoas, ao que confidenciei também ter perdido.

É sobre esse sentimento comum de falta de fé e sobre a fé em tempos de crises que nos interessa esse artigo. Há pelo menos duas posturas observáveis entre as pessoas que vivem situações difíceis de toda espécie. Por exemplo, quem está com a saúde fragilizada, ou quem acompanha uma pessoa assim, pode estabelecer uma relação de desconfiança, de insegurança, de desesperança e de falta de fé na vida, diante de seus acontecimentos. A outra postura encerra justamente o contrário, a situação crítica gera a confiança de que tudo melhorará, gera a esperança de que a realidade será transformada, gera a fé na vida e na sua força capaz de superar desafios. Tudo isso está num nível profundamente antropológico, de crer na existência ou de desacreditar dela. É aqui que podemos perceber também o modo como nos relacionamos com o mundo, com as pessoas, com o próprio Deus, quando invocado, se estas relações tendem mais à necessidade ou à gratuidade.

Na sua dimensão teologal, a crise pode nos aproximar ou nos afastar de Deus. É grande o número de pessoas que ao enfrentar dificuldades, distanciam-se de Deus, desculpando-se de que ele apartou-se por primeiro. Outras, porém, acorrem a ele como única esperança de superação das dificuldades. Em ambos os casos devemos nos perguntar pela qualidade da fé teologal em tempos críticos. Quem tem a fé por barganha, cultivará uma relação de necessidade com o Sagrado, encerrará Deus e sua ação na resolução dos problemas e na satisfação das próprias necessidades imediatas, aproximando-se ou afastando-se Dele. Deus é tomado como um solucionador de nossas crises, não mais que isso. Em outro sentido, os tempos de crises podem fomentar uma relação gratuita com Deus. Esse tipo de relação é mais próprio da fé dialogal, desinteressada por aquilo que não seja a própria relação humano-divina.

O Concílio Vaticano II ensinou e destacou bem a dimensão da fé como resposta a Deus que se expõe e dá a conhecer sua palavra: “pela fé, o homem entrega-se total e livremente a Deus” (DV 5). Essa entrega não espera e não exige nada de Deus, é só entrega mesmo, da vida, dos sofrimentos, da insegurança, do que se sente. Na sua radicalidade, nem pede o auxílio da graça, a misericórdia das entranhas, o olhar benevolente Dele. É a resposta interessada somente na relação com o Outro, que está sempre. Nesses tempos de crises, a nós que temos fé teologal é exigido uma postura diferenciada diante das dificuldades que temos em comum: acreditar para além das necessidades, mesmo imersos em conflitos que parecem não ter saída. Essa é uma postura fundamental para nossos tempos de crises. Oxalá possamos rezar futuramente: “Acreditei, até mesmo quando eu dizia: ‘É demais meu sofrimento’”.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE; graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

O texto reflete a opinião pessoal do autor, não necessariamente do Dom Total. O autor assume integral e exclusivamente responsabilidade pela sua opinião.



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