Religião

26/05/2017 | domtotal.com

Entre o desejo dos noivos e o rito litúrgico: a harmonia possível

No casamento religioso, há um mal-estar por parte das lideranças religiosas pela incongruência entre o desejo subjetivo dos noivos e a objetividade litúrgica e sacramental do matrimônio.

Celebração causou polêmica em 2011 com noivos vestidos de Shrek e Fiona e convidados fantasiados.
Celebração causou polêmica em 2011 com noivos vestidos de Shrek e Fiona e convidados fantasiados. (Alessandro Veronese Mânica)

Por Felipe Magalhães Francisco*

O ser humano moderno é, entre outras coisas, caracterizado pela importante dimensão da experiência. Isso pelo fato de a modernidade ter sido marcada por uma mudança de paradigma, quando a individualidade e, logo, a subjetividade, passaram a ter valor central na compreensão do humano e da realidade. Certamente, essa mudança de paradigma tocou também o lugar da dimensão religiosa. Na contemporaneidade, quando observamos um extrapolar do paradigma moderno, a dimensão religiosa tem sido pautada por uma ênfase exacerbada na subjetividade, colocando a dimensão objetiva da religiosidade e da fé num plano subalterno.

Pensar as celebrações religiosas, católicas, do matrimônio, na atualidade, pressupõe levar em conta esse lugar da subjetividade dos sujeitos religiosos. Quando o assunto é casamento religioso há um reconhecido mal-estar por parte das lideranças religiosas, sobretudo dos clérigos, pois constata-se uma incongruência entre o desejo subjetivo dos noivos e a objetividade litúrgica e sacramental do matrimônio. É preciso, com seriedade, fazer dialogar essas duas realidades que são igualmente importantes e não necessariamente excludentes.

Por muitos motivos, as pessoas continuam a procurar as igrejas para a realização de seu casamento. Tais motivações vão de autênticos sentidos religiosos e de fé, a criticados – por parte dos líderes religiosos – motivos considerados banais e meramente sociais. Chamamos a atenção para o fato de que, do ponto de vista da evangelização, todas essas motivações são importantes, como ponto de partida para um salto de fé tanto dos sujeitos que se unem em matrimônio, quanto da comunidade que assiste e testemunha o enlace. Aqui, queremos ressaltar a dinâmica catequética (ou mistagógica) de toda celebração litúrgica. Em nossa compreensão, é justamente a catequese, como educação na e para a fé, o ponto de articulação entre o desejo subjetivo dos noivos e a objetividade litúrgica da celebração.

É preciso destacar: na celebração do casamento católico, os noivos são os agentes principais, eles presidem a ação ritual-litúrgica; o clérigo assiste, como testemunha qualificada, tal ação celebrativa. Estão destacadas, nessas duas posições rituais, a subjetividade e a objetividade intrínsecas ao rito. Ora, se os nubentes são os presidentes da celebração do matrimônio, movidos por um desejo de amor que os faz se unirem num laço indissolúvel, logo, a maneira como compreendem a si mesmos e a relação que constroem, são fundamentais para que se sintam, de fato, os agentes principais daquela celebração. Em outras palavras: é preciso abertura à vontade dos noivos. Entretanto, essa abertura à legítima vontade dos noivos, na preparação e a realização da celebração litúrgica do matrimônio não pode ser indiscriminada. É preciso garantir a objetividade do rito, para que a ação sacramental corresponda àquilo que está ancorado na tradição eclesial.

Para que a relação entre as dimensões subjetiva e objetiva não se tornem antagônicas, é preciso um cuidado catequético fundamental. Ao nosso ver, uma mudança radical na maneira como preparamos os noivos para o matrimônio precisa se dar. Não bastam os cursinhos de noivos, realizados num ou dois dias. É preciso que se faça, realmente, uma catequese. Nesse caminho catequético, os noivos são chamados a descobrir o próprio papel diante da vocação a que são chamados a viver, bem como o significado profundo daquilo a que estão dispostos a se comprometerem com a própria vida.

A celebração ritual do matrimônio é, diríamos, a intercessão entre essas duas coisas: a vocação, o querer, e o significado disso para a vida de fé. Dessa maneira, a celebração não é nem ponto de partida, nem ponto de chegada: ela sintetiza a disposição dos noivos para o exercício livre e consentido da vocação e a própria realização dessa vocação, testemunhada pela comunidade de fé e abençoada por Deus. Contudo, a profundidade do significado de tudo isso não está explícito, para quem não foi bem-educado na e para a fé, é preciso um caminho. Esse caminho pressupõe abertura: tanto dos noivos quanto dos representantes da instituição religiosa à qual eles recorrem. Abertura para o diálogo, para o bom-senso e, principalmente, para o amor a ser celebrado, em grande festa, pelos nubentes, junto à comunidade de fé.

Leia também:

*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).



Comentários
Newsletter

Você quer receber notícias do domtotal em seu e-mail ou WhatsApp?

* Escolha qual editoria você deseja receber newsletter.

DomTotal é mantido pela EMGE - Escola de Engenharia e Dom Helder - Escola de Direito.

Engenharia Cívil, Ciência da Computação, Direito (Graduação, Mestrado e Doutorado).

Saiba mais!