Religião

26/05/2017 | domtotal.com

Vale a pena casar-se hoje em dia?

Cerimônias de casamento valem a pena quando os nubentes são maduros, escolheram-se de fato, querem arriscar-se a embrenharem-se na mata desconhecida da vida a dois.

Cerimônias de casamentos valem a pena quando expressam passos reais dados.
Cerimônias de casamentos valem a pena quando expressam passos reais dados. (Divulgação)

Por Julio Eduardo dos Santos Ribeiro Reis Simões*

Muitas pessoas juram que é natural: dois indivíduos se decidem a passar a viverem juntos e empenham boa parte de suas energias em preparar algum tipo de festejo em virtude do anúncio da decisão que tomaram. Casam-se.

Pode ser no civil ou no religioso. Se no civil, pode ser por meio de assinatura de contrato de casamento ou de união estável.

Se no religioso, pode ser numa igreja cristã ou num pagode budista ou num terreiro de Umbanda. Se for neste último espaço, tomarão os nubentes uma bebida amarga seguida de uma bebida doce, simbolicamente anunciando as doçuras e amargores da vida a dois.

Ou a três. Pois, no civil, a justiça brasileira já acena para uma validação plena de uniões de trisais na medida em que reconheceu em 2012 o Trisal de Tupã / SP, como a primeira união estável a três no Brasil.

Se fora do Brasil, em país de tradição religiosa diversa da nossa, como países muçulmanos, poderá ser poligâmico. Em alguns lugares, poliândrico.

São tantas as formas de apresentação que a vida doméstica se esmera em recriar que parece necessário concluir que de “natural” mesmo o casamento tem uma coisa: é algo que as pessoas que passam a viver juntas decidem fazer...

Casamentum é palavra latina derivada de “casa”, e significa “terreno com uma casa”, ou seja, morar junto num lugar. A sabedoria popular brasileira é boa de etimologia, por sinal. Quantas vezes você já perguntou para algum amigo ou alguma amiga: “e aí, vão se casar?” e a resposta foi “é, estamos construindo!”...

Casar-se é construir uma habitação comum, e para ocupar esta habitação comum firmar um acordo. Um acordo sobre quem tem o que (os regimes de bens do casamento civil), sobre como criar os filhos que vierem, sobre ter ou não filhos, sobre gatos ou cachorros, sobre cor das paredes, sobre cobertas juntas ou separadas, sobre quem lava o banheiro.

Casar-se é expressar coragem para a diplomacia, para a política.

A forma com que este acordo se apresenta, se hétero, homo, pluri, bi, tri, poli... importa menos. O que importa é que só quem estiver disposto a aprender a ceder e aprender a construir acordos deve se aventurar nos mares da vida em comum.

O Brasil tem experimentado um aumento no número de casamentos. A Província Anglicana do Brasil, IEAB, da qual participo, tem discutido sobre a possibilidade de acolher casais homoafetivos para celebrar seus casamentos na Igreja. Na verdade, muitos reverendos anglicanos já celebraram diversas destas uniões “por baixo dos panos”. É uma realidade que tende a ser admitida. A Igreja Romana, em seu líder Francisco, disse que a coabitação, o “morar junto”, é um dado antropológico natural. Quase como que repetindo o clássico mineiro “amigado com fé, casado é”. As pessoas moram juntas, vai-se fazer o que?

E aí vem o Julio, num dia ensolarado ou nublado (depende do dia em que você está me lendo) perguntar: “vale a pena casar-se hoje em dia”?

Pensemos por outro ângulo: vale a pena celebrar um passo importante na vida? Valem a pena festas de formatura? Valem a pena comemorações de aniversário? Vale a pena aquele churrasco de reencontro com a Turma do Ensino Médio? É claro que vale!

Cerimônias de casamentos valem a pena quando expressam passos reais dados. Casar porque todo mundo casa não vale a pena de jeito nenhum. Como não vale a pena continuar casado porque casou (porque todo mundo casa) e agora se está triste e condenado a uma permanência vitalícia ensinada “Natural e desejada por Deus”, contra a qual uma condenação terrível com certeza aguarda quem praticar a terrível ousadia de desistir e pedir o divórcio.

Cerimônias de casamento valem a pena quando os nubentes são maduros, escolheram-se de fato, querem arriscar-se a embrenharem-se na mata desconhecida da vida a dois. Também valem quando celebram a união que já existe entre pessoas, duas, três, dezoito, que decidem contar para os amigos que se amam tanto que são capazes de abrir mão de assistir novela para cozinhar o jantar. Valem a pena quando festejam a coragem de quem conta pro outro quanto ganha de salário e decide com o outro qual a melhor aplicação pro dinheiro que, por ser dos dois, não é de nenhum deles mais.

Casamentos, morar juntos, doar-se pelo outro por amor e para o amor, sempre valerá a pena.

Mas se não estivermos dispostos a enxergar o casamento como algo além de um Sacramento indissolúvel segundo a tacanha tradição católica ibérica na qual estamos mergulhados até o pescoço, possivelmente perderemos parte da paisagem a passar pela janela desse trem estranho que a vida conjunta é.

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*Julio Eduardo dos Santos Ribeiro Reis Simões já fez, e ainda faz, de tudo um muito. É Bacharel em Teologia (CES-JF), Mestre em Liturgia (PUC-SP) e Doutor em Diálogo Inter-Religioso (Ciência da Religião - UFJF). Faz parte da Equipe do Centro Anglicano de Educação Teológica do Rio de Janeiro, é Ministro Pastoral da Igreja Episcopal Anglicana em Juiz de Fora (MG) e Postulante às Sagradas Ordens. Também é marido da Gisele, pai do Antônio e atualmente trabalha com produção audiovisual para a TV Alterosa (SBT-JF). É fã dos Beatles e detesta o Bolsonaro.



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