Religião

26/05/2017 | domtotal.com

Que seja infinito enquanto dure

A concepção moderna do casamento-relação, ainda que provoque arrepios nos mais religiosos, é um elogio ao amor, compreendido de maneira honesta e possível.

Não é por que os nubentes prometeram-se amor eterno, no dia do enlace matrimonial, que esse amor será, de fato, eterno.
Não é por que os nubentes prometeram-se amor eterno, no dia do enlace matrimonial, que esse amor será, de fato, eterno. (Divulgação)

Por Felipe Magalhães Francisco*

O famosíssimo verso é de Vinícius de Moraes. O Poeta sintetizou, de maneira perspicaz e desinteressada, o paradigma moderno para as relações amorosas. Para o cristianismo, sobretudo o católico para o qual o matrimônio é sacramento, o vínculo matrimonial é indissolúvel, logo tal verso poético revela o absurdo. Promete-se amor, fidelidade, respeito por toda a vida, pois aquilo que foi unido por Deus, por nada que seja humano pode ser separado.

Provavelmente, ninguém se casa já planejando se separar. Mas, ao casarem-se, os cônjuges sabem da possibilidade do fim do amor e do relacionamento. Prova disso é já o contrato civil da união: “comunhão total ou parcial dos bens”, que pode ser traduzido, mais realisticamente, para “separação total ou parcial dos bens”. Essa consciência da possibilidade do fim do amor e do relacionamento é honesta. Uma das grandes perguntas para os que acreditam e pregam a indissolubilidade do matrimônio – subentenda-se do amor – é a sobre ser humanamente possível alguém prometer amor eterno a outra pessoa.

Percebam os leitores e leitoras que nossa leitura crítica não tem por pretensão negar a força do amor e da possibilidade de um casamento e matrimônio que persista ao longo do tempo. O que nos interessa, aqui, é refletir sobre a cotidianidade do amor. Para ser eterno, o amor que une um casal precisa ser afirmado e reafirmado todos os dias. Não é por que os nubentes prometeram-se amor eterno, no dia do enlace matrimonial, que esse amor será, de fato, eterno. Mas é pela decisão e abertura cotidianas referentes a esse amor, no descobrimento do ser do outro, no crescimento do respeito e da solidariedade, que esse amor pode se eternizar.

Com o poeta aprendemos que, mesmo que chegue temporalmente ao fim, o amor, quando amor, é eterno, infinito enquanto dura. É bastante sugestivo o título dado ao poema: Soneto da Fidelidade. Liricamente, Vinícius de Moraes canta a fidelidade-eternidade do amor, porque vivido de maneira verdadeira, disponível, e atento às ambiguidades próprias de cada relação. A concepção moderna do casamento-relação, ainda que provoque arrepios nos mais religiosos, é um elogio ao amor, compreendido de maneira honesta e possível. Esse amor, sim, é possível de ser vivido, não porque houve juras diante de um ministro representante do sagrado, mas porque assumido pelos nubentes.

Mesmo que bastantemente possíveis de chegarem ao fim, sobretudo nesses tempos líquidos nos quais vivemos na contemporaneidade, as pessoas continuam a fazer opção pelo amor: sob os auspícios das instituições religiosas e civis ou não, as pessoas unem-se, acreditando ser possível uma vida compartilhada, construída a partir do amor, ainda que finito. Da mesma maneira que a revolução sexual da década de 1960 do século passado não destruiu o desejo humano de constituir família, os contratos pré-matrimoniais – ainda que nos causem estranhamento e absurdamento – não são empecilhos para que o amor floresça, e dê seus frutos, eternizados no tempo cronológico, ou não.

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*Felipe Magalhães Francisco é doutorando em Ciências da Religião, pela PUC-MG, e mestre e bacharel em Teologia, pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015).



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