Religião

16/06/2017 | domtotal.com

Diversidade Sexual e Umbanda

A leitura umbandista dos evangelhos acentua a proposta de ser uma religião universal, aberta a qualquer pessoa, independente de seu gênero, e de ser uma religião do amor.

A Umbanda é reconhecida como uma religião aberta à diversidade sexual.
A Umbanda é reconhecida como uma religião aberta à diversidade sexual. (Divulgação)

Por Alexandre Frank Silva Kaitel*

O Portal Dom Total, por intermédio de Felipe Francisco, me convidou para escrever um pequeno texto sobre diversidade sexual e Umbanda. Acredito que o conhecimento é posicionado, contingente à história de vida e aos lugares sociais ocupados pelo sujeito. Falo de um lugar duplo: de acadêmico, como doutorando em Ciências da Religião e professor de Psicologia na PUC Minas, e de médium umbandista, na Casa de Caridade Pai Cruzeiro de Aruanda. 

A Umbanda, surgida em Niterói (RJ) no ano de 1908, é marcada pelo sincretismo religioso; sofrendo influências do Espiritismo kardecista, do Candomblé, da Pajelança e do Catolicismo popular. A Umbanda fundamenta sua prática na crença nas interrelações entre os mundos visível e invisível, e na possibilidade dos espíritos desencarnados incorporarem nos médiuns e auxiliarem os vivos através de conselhos, benzeções, banhos e tratamentos energéticos. Fundamenta-se também na crença nas interrelações entre seres humanos e Orixás, seres divinos associados à natureza e que acompanham e assistem os seres humanos em seu processo de desenvolvimento contínuo durante múltiplas encarnações. A religião umbandista tem como objetivo principal a prática da caridade, e através dela a evolução espiritual dos que participam do processo. Não é necessário se converter para ir a um centro de Umbanda e receber auxílio. Pessoas de qualquer religião, e de qualquer posição social, têm acesso aos bens simbólicos e tratamentos umbandistas.

A Umbanda é reconhecida como uma religião aberta à diversidade sexual. Na Umbanda, homens e mulheres de quaisquer gêneros, podem ser sacerdotes e médiuns. Há algumas casas/centros/terreiros de Umbanda onde homens e mulheres têm funções diferentes, apesar de similares em importância. Isto acontece devido a uma influência vinda dos Candomblés. Em outras casas/centros/terreiros sacerdotes homens e mulheres executam as mesmas funções. Não se faz distinção também entre orientações heterossexuais, homossexuais e bissexuais (ou outros grupos LGBTTs). Frequentadores e fiéis não heterossexuais são acolhidos em suas diferenças, e não são orientados a mudar seu comportamento sexual voltados a pessoas do mesmo sexo ou de ambos os sexos.

Podemos compreender que esta postura inclusiva tem tanto motivos sociológicos quanto motivos teológicos. A Umbanda é uma religião surgida há pouco mais de cem anos, no contexto urbano. Assim, sofre influências da contemporaneidade e da urbanização, tempo histórico e local, onde as diversas formas de expressão da sexualidade humana são melhor acolhidas.

Os motivos teológicos derivam do fato da Umbanda ser, ao mesmo tempo, uma religião cristã, por se basear nos Evangelhos de Cristo, e uma religião da natureza. A leitura umbandista dos evangelhos acentua a proposta central de ser uma religião universal, no sentido de estar aberta a qualquer pessoa, independente de seu gênero, e de ser uma religião do amor. Sendo religião do amor, acredita que Deus (chamado também de Zambi ou Olorun) valoriza qualquer união onde as pessoas se amem, independente de serem do mesmo sexo ou do sexo oposto.

As religiões da natureza consideram que a natureza é tão sagrada quanto o mundo espiritual. Há seres divinos (similares a anjos na compreensão teológica católica), os Orixás, que são responsáveis por determinados locais naturais. Exemplificando, temos a Orixá Yemanjá, responsável pelos mares e oceanos, o Orixá Xangô, responsável pelas montanhas e pedreiras, a Orixá Oxum, responsável pelos rios e cachoeiras, o Orixá Oxossi, responsável pelas matas.

Nas religiões da natureza o corpo é tão importante quanto o espírito (ou a alma). Os prazeres do corpo (comida, bebida, sexo, movimento) são necessários a uma boa vida. E podem ser sacralizados. O sexo, por exemplo, pode ser sacralizado tanto pela reprodução quanto pelo amor. Sacerdotes e médiuns podem ter vida sexual, e esta vida sexual pode aproximá-los de Deus.

Devido a essa abertura à diversidade sexual há, percentualmente, mais pessoas não heterossexuais na Umbanda (e nos Candomblés) do que nas religiões Católica e Protestante. É comum que defensores dos direitos das minorias LGBTTs, do movimento negro, e das minorias religiosas tenham pautas reivindicatórias similares. É comum também uma mesma pessoa se posicionar a favor das três causas.

Do ponto de vista Umbandista, a luta pela dignidade humana, pelo direito de crença e pela igualdade sexual civil é tanto postura política quanto religiosa.

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*Alexandre Frank Silva Kaitel é graduado em psicologia e mestre em psicologia social pela UFMG, doutorando em Ciências da Religião (PUC Minas). Atualmente é professor assistente IV da PUC Minas. Parecerista da Revista Horizonte: Revista de Estudos de Teologia e Ciências da Religião (A1) da PUC/MG

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