Religião

23/06/2017 | domtotal.com

Corpos negligenciados e cristianismo desencarnado

Poderíamos exaltar o Corpo de Cristo, em magníficos ostensórios, quando os corpos de irmãos e irmãs são negligenciados por nossa fé?

Quais corpos estão sendo descuidados, ignorados por nós na dinâmica de nossa fé e vida?
Quais corpos estão sendo descuidados, ignorados por nós na dinâmica de nossa fé e vida? (Divulgação)

Por Tânia da Silva Mayer

A encarnação de Jesus Cristo marcou decisivamente a experiência humana do Transcendente. Em Jesus, Deus tem um corpo de carne, perecível. Verdadeira reviravolta na compreensão do Eterno, do Infinito. Deus sujeitou-se ao transitório, perenizou-se no tempo. Precisamente, é o corpo de Jesus estendido na cruz que nos permite afirmar de Deus que ele tem humanidade. A Cruz proclama ao mundo uma loucura nunca antes vislumbrada na história humana e nas religiões, que é o acontecimento da encarnação de Deus, de ele ter se tornado um de nós, ao ponto de experimentar o evento chave da nossa condição: a morte. Nesse sentido, pode-se dizer que o corpo é símbolo do encontro entre humano e divino, porque é no corpo crucificado do homem Jesus que Deus se une ao Filho, e Nele a toda pessoa humana.

Como se pode ver, o corpo, como símbolo do encontro humano-divino, nunca deveria ser negligenciado pelos seguidores e seguidoras de Jesus Cristo. Mas não é bem isto que persevera no imaginário, no discurso e na práxis dos cristãos e das cristãs. Há uma teologia no inconsciente coletivo dos fiéis que contribui para o desprezo do corpo. Usualmente ele é tomado como diabólico, isto é, como aquilo que nos afasta ou que não permite o nosso encontro com Deus. Em compreensões mais extremistas, o corpo é lido como demoníaco, sugerindo que tem natureza e função maléficas. Permanece uma visão negativa do corpo naquilo que diz respeito à sexualidade. No entanto, essa compreensão tende a perder força em cenários nos quais a sexualidade é vista de maneira integral. Não raro, somos confrontados por fiéis que cultivam práticas religiosas de violência e agressão ao próprio corpo, como forma de disciplina para este. Trata-se do desprezo pelo próprio corpo. Mas o corpo do outro também é colocado em xeque. É quando ele se torna negligenciado.

É nesse sentido que a fé celebrada em Corpus Christi, tal como fizemos na semana passada, interpela e provoca nossa teologia do corpo, sobretudo do corpo que é o outro. Acaso poderíamos exaltar o Corpo de Jesus Cristo, em magníficos ostensórios de ouro, quando os corpos de irmãos e irmãs nossos são negligenciados por nossa fé apaziguada com teologias e sistemas geradores de desprezo pelo corpo, pelo outro? Certamente, na esteira de uma teologia da encarnação cristã, essa pergunta é respondida com uma negativa. De modo que as liturgias que celebramos, se não contribuem com o nosso despertar para a responsabilidade pelo corpo do outro, envergonham a Deus, que nos tocou na humanidade de Jesus de Nazaré. Torna-se urgente reconhecer a lacuna que nos distancia de uma vivência sadia da fé e nos dá a possibilidade de maior proximidade com o projeto de Deus, de fazer do corpo uma encruzilhada para encontrar-se com o ser humano.

É importante nos perguntarmos quais corpos negligenciamos, quais são aqueles corpos que foram ou estão sendo descuidados, deixados de lado, ignorados por nós, cotidianamente, na dinâmica de nossa fé e vida. Há anos, os corpos das mulheres são negligenciados por certo cristianismo que nos vê unicamente como parideiras de filhos. Nega-se a sexualidade feminina no seu conjunto e, especificamente, considera-se o corpo da mulher um objeto, incapaz de sentir prazer ou ter vontades. Nessa esteira, o corpo da mulher negra é ainda mais objetificado, de modo que há uma profunda relação no jogo que esses corpos assumem na sociedade e na Igreja. Pressupondo que a Igreja reunida é também um recorte da sociedade hodierna. Para constatarmos isso, basta considerar o número de negras assumindo ministérios, serviços e postos de destaque nas igrejas cristãs; quando muito, servem para ocupações menos prestigiosas.

Ainda na esteira do gênero, precisamos assinalar que os corpos travestis e transexuais são amplamente negligenciados por nós. Vistos muitas vezes como estranhos, são ignorados e invisibilizados, na sociedade e também na Igreja. Esses corpos não existem na comunidade cristã. Será que as travestis e transexuais não creem? Estão fechados à fé? Certamente não. Deveria nos importar muito a crucificação diária desses corpos: completam em suas existências negadas os sofrimentos de Jesus Cristo. É preciso mencionar que há centenas de corpos negligenciados nas calçadas, nas esquinas, nas praças e nas cracolândias, todos sucumbidos ao craque, ao álcool e outras drogas. Para esses, as janelas dos nossos carros são fechadas quando nos abordam no trânsito pedindo um trocado. Também estamos covardemente fechados aos corpos prostituídos, aos que se abrigam ao relento das ruas e tombam nas esquinas e debaixo dos viadutos, sem nem ter o que comer.

O projeto de Jesus para o corpo não pode ser ignorado pelos cristãos e pelas cristãs no exercício da práxis religiosa contemporânea. Jesus, a Palavra Encarnada, não somente revela a opção de Deus pelo corpo, pela humanidade, como ele próprio a confirma ao fazer opção pelos corpos ignorados ao longo do caminho. Ele faz opção pelos corpos marginais (cf. Lc 10,25-37). A todos esses corpos, o gesto e a palavra última manifestam um desejo de perdão, de devolução da dignidade perdida ou furtada, de inclusão: “Levanta-te! Vem para o meio!” (Mc 3,3). Um cristianismo que peleje pela dignidade do corpo precisa existir sempre entre nós, como testemunho memorial da práxis libertadora do Nazareno. E isso nós podemos ver pela fé em obras de muitos irmãos e irmãs que vivenciam sua fé no acolhimento e inclusão desses corpos negligenciados. São samaritanos anônimos, compadecidos. Há quem possa considerar irrelevante a “lavanderia do Papa Francisco” no Vaticano. Enquanto fechamos os banheiros de nossas capelas aos moradores de rua de nossas capitais, o Papa constrói uma lavanderia para que os homens e as mulheres da rua possam lavar suas roupas, e banheiros onde possam se banhar. O que aqui se desnuda é uma pastoral empenhada pela dignidade do corpo. Uma teologia da encarnação assumida como pedagogia da fé. Aprendamos com os samaritanos anônimos, com os Franciscos de ontem e de hoje, a loucura de um cristianismo encarnado, que nos aproxima sempre mais daquele que é o Mestre de nossas vidas.

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*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE; graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.



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