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11/07/2017 | domtotal.com

MasterChef - centésimo programa

O que a saída de Ana Luiza nos ensina sobre a versão brasileira do programa.

O time que comanda a cozinha da competição.
O time que comanda a cozinha da competição. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Para falar sobre o MasterChef Brasil, poderíamos adotar o já famoso bordão de Erick Jacquin, o renomado chef e jurado do programa: "Não é bom... É muuuito bom!"

A atração da BAND chega hoje ao seu programa de número cem e merece ser comemorada como uma vitória da televisão brasileira. Na enxurrada de reality shows que emissoras abertas e por assinatura descarregam sobre nossas cabeças, trata-se de uma elegia ao talento, com realização impecável, provas inteligentes e realmente desafiadoras, objetivos educativos e, o mais importante, com uma honestidade pouco comum no universo tão facilmente manipulável de programas do tipo. 

Ana Paula Padrão, cada vez mais à vontade em seu papel de mestra de cerimônias, parece estar até rejuvenescendo, tamanho o prazer que passa ao telespectador de estar ali. E os jurados, ao longo dos quatro anos de existência da atração, deixaram de ser personagens. Por mais que às vezes se esforcem para passar essa impressão, não nos enganam mais. A câmera os desnudou e a naturalidade de cada um em ser o que é, sem pedir desculpas ou se justificar, explode dentro de nossas casas a cada nova terça-feira (para o bem ou para o mal).

Há coisa de pouco mais de um mês, vazou a informação que Ana Luiza teria mentido para entrar na competição. A mineira que mora em Chapecó (uma das favoritas até então para chegar à final), supostamente teria já trabalhado profissionalmente como cozinheira durante o período de um ano - o que a desqualificaria como "amadora", pré-requisito obrigatório para a participação no certame.

A concorrente desmentiu o fato em suas redes sociais, mas até aí morreu Neves. Se até Temer, nosso "presidente decorativo", tem a pachorra de desmentir o indesmentível, sobre o recebimento mais que suspeito de dinheiro (muito dinheiro), inclusive com as imagens filmadas de certo deputado paranaense correndo afobado com uma malinha abarrotada de propina para ele, por que a Ana Luiza também não teria esse direito? Sobre o assunto, a BAND decidiu não se pronunciar, sem confirmar ou negar a informação; o que já é em si um pronunciamento, diga-se.

A verdade é que no episódio de sua eliminação (gravado há mais de um mês mas levado ao ar na semana passada) ela não conseguia conter as lágrimas. Estava completamente desestabilizada. Seu choro desesperado indicava que havia sim um outro drama acontecendo ali.

Henrique Fogaça, o jurado escolhido para anunciar quem deixaria o programa só nos deu mais pistas para acreditar na trama de bastidores que se desenvolvia veladamente. Parecia o Bial, discursando em dia de corte na época em que apresentava o Big Brother, ao proferir frases como: "Ana Luiza, você estava aérea, não sei quais são os motivos" e "Leva isso como experiência".

Paola Carosella arrematou o sermão sobre a saída da concorrente, dizendo: "Não tem como não concordar. Mas é triste. E surpreendente".

Como se trata de televisão, é impossível não analisarmos também o subtexto que nos dão as imagens. Durante a saída da competidora, ainda aos prantos - a breve caminhada até os enormes portões do estúdio com o rito da retirada do avental (breve para nós; para os eliminados deve parecer durar uma eternidade, como os últimos passos de um condenado rumo ao cadafalso) - a edição do programa decidiu mostrar a reação da jurada Paola enquanto acompanhava com o olhar a despedida de Ana Luiza.

Era um olhar duro e sério - até demais. Implacável, a chef de cozinha argentina, dos três juízes do programa a mais transparente em se tratando de suas emoções, não acusava sinal algum de compaixão para com a recém eliminada. Todos esses indícios apontam como verdadeiro o suposto imbroglio mas, apesar disso, como qualquer um pôde atestar e assistir em cadeia nacional, Ana Luiza foi eliminada justamente.

Mas o que a saída de Ana Luiza nos ensina sobre a versão brasileira do MasterChef? Em primeiro lugar, o profundo envolvimento e responsabilidade dos jurados com o programa. Dificilmente não veremos o pior prato eliminar alguém ou o melhor consagrar um vencedor. Na dúvida, as regras da prova são seguidas estoicamente (foi assim na prova dos macarons na temporada passada e o que levou à despedida do Abel nessa temporada).

A falta de critério para virar garoto propaganda de praticamente qualquer coisa que lhes ofereçam, por parte de Jacquin e Fogaça (Paola destoa do conjunto nesse quesito), não vigora no momento em que qualquer um dos três assume o lugar de julgadores. O rigor com que cumprem essa missão deveria fazer enrubescer alguns membros do nosso STF.

Ensina também que o programa é, antes de tudo, um jogo. E, como em nenhuma outra temporada até aqui, tanto se jogou como jogam os participantes dessa edição. A cozinheira de mão cheia Aderlize viu seu sonho de chegar à final cair por terra com a estratégia de alguns de seus oponentes de ajudar Walter e Fabrizio, do alto do mezanino, durante a confecção de um doce do qual eles nunca tinham ouvido nem falar.

Por conta das regras, vários participantes mais fracos têm conseguido prolongar sua permanência na cozinha do MasterChef. Salvos por sagrarem-se ganhadores em provas de grupo, sobem ao mezanino e não participam da etapa de eliminação.

Aliás, o mezanino mexe com a vaidade (e até o caráter) de todo mundo. Basta ascender a ele que o competidor acha-se no direito de tornar-se um expert da culinária, mesmo claramente não sendo. Essa edição do programa será lembrada também como a temporada da arrogância. Desse mal quase nenhum dos participantes escapa.

A começar por Miriam, a Voldemort da vez - dela todos querem distância. Nem o isolamento faz com que alguma humildade lhe invada. Deborah, a rainha da farofa, cozinha bem mas suas qualidades param por aí; para vencer, seria capaz até de pisar no pescoço da própria mãe (e sem demonstrar nenhum problema quanto a isso). Fabrizio, um baiano que mais parece mineiro - desconfia de tudo e todos mas não consegue reconhecer a ajuda providencial dos companheiros quando ela acontece.

Walter chegou se achando o tal mas teve que baixar a bola. Tem dado provas de descontrole emocional, dando chilique sempre que erra - e não são poucas as vezes em que isso acontece. É visível a atração que sente por Deborah, que o despreza descaradamente.

São divertidíssimos os depoimentos dos concorrentes que intercalam as provas. Dão um respiro para a tensão da competição e nos mostram melhor quem é cada um. A sinceridade do Victor Bourguignon é de cortar o coração (ou os próprios dedos, sua grande especialidade na cozinha), enquanto Leo e Victor V. ganham em disparada pelo sarcasmo de suas intervenções.

Torço para que dessa vez quebre-se a maldição do MasterChef e de fato ganhe o competidor mais talentoso e completo: Leo.

Esses pequenos dramas dentro da competição (habilmente explorados pela direção do programa) esquentam mais ainda o jogo e nos fazem lembrar que é mesmo um jogo e não um dramalhão mexicano. Vida longa ao MasterChef; que venham os próximos cem programas. Estaremos todos de olho - e com água na boca.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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