Religião

21/07/2017 | domtotal.com

"Já não vos chamo servos, mas amigos": a amizade ao modo de Jesus

A amizade é dom e, como tal, implica três dimensões fundamentais: é gratuita, inesperada e imerecida.

A amizade ao modo de Jesus implica no resgate da dignidade humana para fazer o outro também sujeito na relação.
A amizade ao modo de Jesus implica no resgate da dignidade humana para fazer o outro também sujeito na relação. (Divulgação Pixabay)

Por Antônio Ronaldo Vieira Nogueira*

Celebrar a amizade é celebrar um dom de Deus para a humanidade. Ter e ser amigo é provar do amor constante de Deus que se faz sacramento através das pessoas. O povo, na sua simplicidade, costuma dizer, sobre a importância dos amigos, que “mais vale ter amigo na praça do que dinheiro no caixa”. Infelizmente, essa expressão acabou sendo normalmente usada para se referir à realização de algum interesse pessoal ou obter algum tipo de favorecimento. Mas pensamos que não se deva logo descartá-la. Afinal, como nos recorda o Eclesiástico, “quem encontrou um amigo, encontrou um tesouro” (Eclo 6,14). Os amigos são, portanto, o maior tesouro de nossas vidas, o verdadeiro tesouro que devemos buscar e não o dinheiro que, tornado ídolo, nos faz escravos e escravizadores das pessoas.

A amizade é dom. E o dom implica três dimensões fundamentais: é gratuito, inesperado e imerecido. Os amigos são dom, pois nos são dados de maneira gratuita. Amizade verdadeira não se compra, mas os laços vão sendo criados de maneira muito natural e sem cobranças. Esses laços de amizade surgem sempre de maneira inesperada, sem hora nem lugar para acontecer. Além disso, quando provamos de uma verdadeira amizade nos consideramos indignos dela, pois um amigo verdadeiro excede gratuitamente todo e qualquer merecimento de nossa parte.

É por isso que, no discurso de despedida, a partir da imagem da videira, Jesus, fazendo uma meditação sobre o amor cristão (cf. Jo 15,1-17), nos brinda com a frase que titula essa reflexão: “já não vos chamo servos, mas amigos” (Jo 15,15). É aqui que descobrimos como toda amizade verdadeira acontece: ao modo de Jesus. Viver a amizade ao modo de Jesus não significa mera repetição mecânica e enfadonha do que ele fez e disse, mas se trata de falar, agir e viver qualitativa, criativa e intensamente do mesmo modo que Ele.

Assim, a primeira atitude da qual necessitamos para viver a amizade ao modo de Jesus é dar a vida como Ele: “ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida por seus amigos” (Jo 15,13). Tal é o amor com que Cristo nos amou. Nesse dar a vida estão presentes muitas realidades, que podem ser resumidas no que Pedro diz em At 10,38: “Ele passou fazendo o bem”. Dar a vida significa, portanto, assumir as mesmas atitudes de Jesus no seu dirigir-se às pessoas: acolher as crianças, se fazer próximo dos enfermos, tocar na carne do leproso, colocar os marginalizados no centro de sua vida e missão, sentir compaixão dos sofredores, cobrar atitudes de conversão dos que se esquecem dos pobres, manifestar misericórdia para com os pecadores... Uma amizade em que se busca satisfazer interesses não chega a ser amizade verdadeiramente humana, amizade ao modo de Jesus. Aqui está, portanto o critério: a autêntica amizade se dá para com os pobres e marginalizados, ao modo de Jesus, e toda e qualquer amizade deve estar pautada nesse mesmo amor em que não se exige contrapartida, em que não se exige qualquer tipo de retribuição.

A segunda atitude para viver a amizade ao modo de Jesus é não fazer dos outros meros objetos de nossa afeição, mas sujeitos e companheiros de vida e missão. O objeto de afeição não está em condições de igualdade, o sujeito sim. Parece esquisito Jesus nos dizer, em Jo 15,15, que não somos servos, se antes nos falou da necessidade de servi-lo (como, por exemplo, em Jo 12,26). Trata-se, porém, de dois termos diferentes: em 12,26, Jesus convida a sermos diakonein, aqueles que se põem a serviço; em 15,15, tem-se o termo usado para falar do servo é dóuloi (=escravo). O escravo executa o trabalho sem saber o que está sendo projetado pelo senhor. O amigo conhece e participa do mesmo projeto. Ao fazer essa comparação, Jesus nos recorda a necessidade de sermos companheiros de missão, sujeitos que agem em sintonia com Ele, na liberdade. Já o serviço, este é consequência natural de uma relação que se pauta pelo amor: quem ama se põe a serviço.

Amigo não é, pois, um coitadinho a quem devoto meu amor ou o objeto do qual extrairei carinho e amor para suprir carências afetivas. Os amigos de Jesus com-partilham e co-participam no mesmo amor, na mesma missão e, portanto, no mesmo serviço fraterno ao irmão, do qual já falamos anteriormente. Assim, a amizade ao modo de Jesus implica, para todos nós, um co-participar nas alegrias e tristezas, nas vitórias e derrotas. Isso significa que a relação de gratuidade que se estabelece na amizade, tal como falamos no parágrafo anterior, implica em por o outro, sobretudo o marginalizado, na mesma condição de vida e dignidade em que estou e não simplesmente fazer dele objeto de uma caridade assistencialista que deverá deixá-lo numa situação inferior a minha para que eu seja eternizado e glorificado como bom.

A amizade ao modo de Jesus implica no resgate da dignidade humana para fazer o outro também sujeito na relação. E quando dois sujeitos são capazes de amar, no sentido de dar a própria vida gratuitamente, isso mostra o dom do amor que se expressa no serviço desinteressado ao outro. Quem ama ao modo de Jesus não espera ser amado: simplesmente ama! E quem é amado por um amor como o de Jesus não pode fazer outra coisa que não seja amar do mesmo modo. É nessa dinâmica que se manifesta o serviço não como escravidão, mas como diaconia: quem ama serve com amor e a resposta se manifestará nesse mesmo serviço no amor.

Portanto, a amizade ao modo de Jesus nada tem de interesseira nem se trata de suprir uma carência afetiva, mas se manifesta como dom do amor que excede sempre o nosso merecimento, que surge sempre de maneira inesperada e se manifesta na gratuidade de um serviço no amor. Celebremos, pois, e brindemos os amigos verdadeiros, os amigos ao modo de Jesus!

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*Antônio Ronaldo Vieira Nogueira é mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE) – Belo Horizonte/MG; professor de Teologia na Faculdade Católica de Fortaleza/CE e presbítero da Diocese de Limoeiro do Norte/CE

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