Religião

21/07/2017 | domtotal.com

Amigos e amigas de Deus

Deus em seu Mistério se dá a conhecer como um amigo rico em bondade e misericórdia.

A amizade com Deus é vivida no acolhimento da Revelação, na resposta ao diálogo entre amigos que ele propõe.
A amizade com Deus é vivida no acolhimento da Revelação, na resposta ao diálogo entre amigos que ele propõe. (Divulgação Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

Vivemos tempos carentes de relações de amizades sinceras e duradouras. O mundo virtual desgastou a metáfora do amigo e da amiga, utilizadas agora para designar qualquer pessoa a qual nos vinculamos nas redes sociais. Tais pessoas nem sempre nos querem bem e torcem por nós. O individualismo crescente entre nós é outro fator que nos impede afetar-nos pelo outro, sentindo com ele a vida e nutrindo por ele o desejo de que esteja sempre por perto, compartilhando experiências. No entanto, o que afirmamos não é via de regra. Muitas pessoas ainda resistem ao distanciamento imposto pelas redes sociais e pelo individualismo. Cultivam verdadeiras amizades, compreendendo que estas consistem na abertura para a efetivação de laços que ligam e unem vidas.

No cristianismo, a categoria utilizada para ler um tipo das relações humanas é trazida para a teologia como chave de leitura para lermos a relação entre Deus e a humanidade. É fundamental destacar que Deus estabelece uma relação com as suas criaturas. Contrariamente ao que podem propor outras teologias, Ele é Alguém que está sempre vindo ao encontro da humanidade, a fim de partilhar a dramática história humana. O vir de Deus à humanidade é entendido como uma Revelação livre e gratuita, a partir da qual Ele se mostra, por sua própria vontade, como verdadeiramente é: o amigo e companheiro fiel de todas as horas: “Eu vi a opressão de meu povo no Egito, ouvi o grito de aflição diante dos opressores e tomei conhecimento de seus sofrimentos. Desci para libertá-los das mãos dos egípcios e fazê-los sair desse país para uma terra boa e espaçosa, terra onde corre leite e mel” (Ex 3,7-8).

Precisamente, a Revelação de Deus não deve ser pensada estaticamente, mas de maneira dinâmica e progressiva. Como por etapas, Ele mostra ao povo que o seu desejo é que cada pessoa possa gozar a participação no aconchego divino. Por isso, dirige-se ao povo sempre como a um amigo, com quem se deseja estabelecer um diálogo de proximidade: “O Senhor falava a Moisés face a face, como alguém que fala com seu amigo” (Ex 33,11). Isso significa que o modo da relação de Deus com o povo é pessoal, porque se trata de uma conversa entre amigos. Nesse sentido, Deus em seu Mistério se dá a conhecer como um amigo rico em bondade e misericórdia, o povo também se mostra a Deus, revelando as limitações que tem e que muitas vezes o impede de responder à amizade que o Senhor quis estabelecer com ele através de um diálogo de liberdade e comunhão.

Mas a amizade com Deus é vivida no acolhimento da Revelação, na resposta ao diálogo entre amigos que ele propõe. Nessa esteira, a fé no Senhor é o que nos credencia como amigos de Deus. Isto é o que se afirma a respeito de Abraão, o precursor da fé, conforme nos recorda Tiago: “Foi assim que se cumpriu a Escritura que diz: ‘Abraão teve fé em Deus, e isto lhe foi levado em conta de justiça’, e ele foi chamado amigo de Deus” (Tg 2,23). A amizade com Deus é selada no acolhimento da fé e na adesão ao seu Projeto para o ser humano e o mundo. Distantes da fé no Deus que se revela, a amizade com Ele é fragilizada, porque acabamos por não assumir em nossas vidas tudo o que se insere no horizonte dos mandamentos que nos ligam a Ele.

É nesse sentido que o evento Jesus Cristo, o cume da Revelação de Deus, nos confirma a experiência humano-divina desde a Criação: Deus está sempre se fazendo próximo, assumindo-nos como seus amigos, para que possamos aderir com fidelidade ao Reino de Justiça e de Paz. Jesus, que é a Palavra feita carne, confirma isso à medida que se torna um irmão e amigo de caminhada, conforme reza a Oração Eucarística X, para missas com crianças, Jesus é “amigo das crianças e dos pobres”. Ele é o Filho que veio até nós para nos ensinar a baliza da amizade com Deus. Será na maldade vislumbrada na cruz, que ele nos ensinará que o único caminho para Deus é o do amor, que se precisar oferta a própria vida. Perseverar no amor é a condição de acolhida à Revelação, é a realização de uma fé que supera todas as barreiras para se tornar amigo e amiga de Deus.

Desse modo, os cristãos e as cristãs sabem que: “Ninguém tem amor maior do que aquele que dá a vida por seus amigos”, e que a única maneira de sermos amigos e amigas de Jesus é: “Vós sereis os meus amigos se fizerdes o que eu vos mando. [...] O que eu vos mando é que vos ameis uns aos outros” (Jo 15,13-14.17). Desse modo compreendemos que a observância do mandamento do amor condiciona nossa relação com o Mestre de nossas vidas. É pelo amor que nos tornamos amigos e amigas, discípulos e discípulas, homens e mulheres também capazes de superar desafios contemporâneos na construção de amizades sinceras e verdadeiras, nas quais nos reconhecemos como companheiros de vida e de caminhada.

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*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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